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estudos:agamben:origem-da-palavra-facticidade-2015

ORIGEM DA PALAVRA "FACTICIDADE" (2015:260-261)

AGAMBEN, Giorgio. A potência do pensamento. Ensaios e conferências. Tr. Antônio Guerreiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2015

  • O reenvio a Edmund Husserl e a Jean-Paul Sartre como fontes do conceito de facticidade revela-se equivocado, pois o uso heideggeriano distingue rigorosamente a Faktizität do Dasein da Tatsächlichkeit dos entes intramundanos, definida por Husserl nas Ideen como factualidade contingente, caracterizada pela Zufälligkeit, ao passo que, para Martin Heidegger, a marca própria da facticidade não é a contingência, mas a Verfallenheit, agravando-se a diferença pelo fato de que o Dasein não está simplesmente lançado em um “aí” dado, como em Sartre, mas é e tem de ser o seu próprio Da, sendo decisiva a distinção dos modos de ser
    • distinção entre Faktizität e Tatsächlichkeit
    • Husserl e a contingência como Zufälligkeit
    • Verfallenheit como traço da facticidade
    • diferença entre Heidegger e Sartre quanto ao “aí”
    • centralidade da diferença dos modos de ser
  • A origem da acepção heideggeriana de facticidade deve ser buscada não em Husserl, mas em Agostinho, que afirma “facticia est anima”, entendendo a alma como feita por Deus, sendo facticius o que não nasce por si mesmo, mas é feito, em oposição a nativus, termo que Agostinho emprega também para designar os ídolos pagãos como “genus facticiorum deorum”, revelando uma esfera semântica ligada à não-originariedade, ao artifício e ao fetichismo
    • Agostinho e a expressão facticia est anima
    • oposição entre facticius e nativus
    • designação dos ídolos como facticiorum deorum
    • vínculo com não-originariedade e artifício
  • A remissão da palavra à esfera da não-originariedade e do artifício é decisiva para compreender o desenvolvimento do conceito em Heidegger, pois a experiência da facticidade, entendida como constitutiva não-originalidade, constitui precisamente a experiência originária da filosofia e o único ponto de partida legítimo do pensamento
    • facticidade como experiência originária
    • não-originalidade como condição do pensar
    • legitimidade filosófica da facticidade
  • Uma das primeiras ocorrências da acepção de faktisch surge no curso de 1921 sobre Agostinho e o neoplatonismo, testemunhado por Otto Pöggeler e Oskar Becker, no qual Heidegger contrapõe a experiência cristã primitiva, compreendida como experiência da vida em sua facticidade e inquietude, Unruhe, à metafísica neoplatônica que pensa o ser como stets Vorhandenes e a fruitio dei como gozo de uma presença eterna, analisando a passagem do livro X das Confissões em que Agostinho descreve o paradoxo segundo o qual os homens querem enganar sem ser enganados, amam a verdade quando ela se revela, mas a odeiam quando os revela, pois “querem permanecer escondidos, mas não querem que nada se esconda deles”, sendo que a verdade os desvela enquanto permanece velada para eles
    • Pöggeler e Oskar Becker como testemunhas do curso
    • oposição entre fé cristã primitiva e metafísica neoplatônica
    • análise da passagem das Confissões
    • dialética entre revelar e permanecer velado
  • O elemento decisivo para Heidegger nessa passagem de Agostinho é a dialética da latência e da ilatência, o duplo movimento pelo qual quem pretende conhecer tudo permanecendo oculto é desvelado por um conhecimento que se oculta dele, definindo-se a facticidade como condição do que permanece escondido em sua abertura e do que se expõe ao retirar-se, copertença de latência e ilatência que caracteriza a experiência da verdade e do ser e que se encontra no centro das lições de Freiburg de 1921-1922, intituladas Phänomenologische Interpretationen zu Aristoteles, nas quais Heidegger analisa o das faktische Leben como estrutura originária do que mais tarde se chamará Dasein
    • latência e ilatência como estrutura da facticidade
    • verdade como desvelamento que vela
    • curso de Freiburg de 1921-1922
    • das faktische Leben como precursor do Dasein
  • A afirmação do caráter originário e irredutível da facticidade nas lições de 1921-1922 exprime-se na ideia de que as determinações da vida fáctica não são qualidades indiferentes como dizer que algo é vermelho, mas encerram possibilidades fáticas das quais nunca se pode libertar, de modo que uma interpretação filosófica autêntica deve ser ela própria fáctica e conceder a si mesma radicalmente a possibilidade de decisão, o que só é possível se ela existe segundo o modo de seu Dasein
    • distinção entre qualidades indiferentes e determinações fácticas
    • impossibilidade de libertar-se das possibilidades fáticas
    • filosofia fáctica como decisão
    • existência segundo o modo do Dasein
  • Longe de designar a imobilidade de uma situação de fato, como em Sartre ou Husserl, a facticidade em Heidegger indica o Seinscharakter e a Bewegtheit próprios da vida, constituindo uma pré-história da analítica do Dasein e da autotranscendência do In-der-Welt-Sein, pois a facticidade não está no mundo como objeto, mas como movimento pelo qual a vida fáctica se dá a si mesma e vive o mundo como o em-quê, o de-quê e o para-quê de sua própria existência
    • Seinscharakter e Bewegtheit como traços da facticidade
    • pré-história da analítica do Dasein
    • In-der-Welt-Sein como autotranscendência
    • mundo como em-quê, de-quê e para-quê da vida
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