Edmund
Husserl (1859–1938) publicou suas Logische Untersuchungen em dois volumes, em 1900 e 1901, sendo o primeiro, Prolegomena zur reinen Logik, editado por Max Niemeyer em julho de 1900, e o segundo, subtitulado Untersuchungen zur Phänomenologie und Theorie der Erkenntnis, contendo seis longos tratados ou Investigações, publicado em duas partes em 1901, obra gigantesca que
Husserl insistia não ser uma exposição sistemática da lógica, mas um esforço de esclarecimento epistemológico e crítica dos conceitos básicos do conhecimento lógico
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a obra consistia em investigações analíticas sobre questões fundamentais de epistemologia e filosofia da lógica, além de extensas discussões sobre semiótica, semântica, mereologia, gramática formal e a natureza dos atos conscientes, sobretudo apresentações e juízos
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foram as análises descritivo-psicológicas detalhadas das estruturas essenciais da consciência, em termos de atos intencionais, seus conteúdos, objetos e caráter apreensor de verdade, presentes especialmente nas duas últimas Investigações, que fixaram a agenda da disciplina emergente que
Husserl fomentou sob o nome de fenomenologia
os Prolegômenos surgiram como tratado autônomo dedicado a assegurar o verdadeiro sentido da lógica como ciência pura, a priori, dos significados ideais e das leis formais que os regulam, inteiramente distinta de todos os atos, conteúdos e procedimentos psicológicos
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ofereceram a mais forte refutação possível à então dominante interpretação psicologista da lógica, propugnada por John Stuart Mill e outros, interpretação que
Husserl via como conducente a um relativismo cético que ameaçava a própria possibilidade do conhecimento objetivo
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voltando-se a uma tradição mais antiga da lógica, remontando a
Leibniz,
Kant, Bolzano e
Lotze,
Husserl defende uma concepção da lógica como teoria pura da ciência, de fato a ciência da ciência, elaborando cuidadosamente os diferentes sentidos em que essa lógica pura pode transformar-se em ciência normativa ou desenvolver-se em disciplina prática ou tecnologia
o segundo volume das Investigações, de 1901, foi publicado em duas partes, a primeira contendo as cinco primeiras Investigações e a segunda a longa e densa Sexta Investigação, cuja redação atrasou consideravelmente o aparecimento da obra à medida que
Husserl percebia a profundidade do projeto fenomenológico que havia descoberto
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enquanto os Prolegômenos foram particularmente influentes em reverter a maré contra o psicologismo, estando os esforços de Frege na mesma direção em relativa obscuridade à época, foi o segundo volume das Investigações, em particular, que teve maior impacto sobre os filósofos interessados em análises concretas dos problemas da consciência e do significado, conduzindo ao desenvolvimento da fenomenologia
a fenomenologia, em conformidade com uma virada geral contra o idealismo então em curso, deveria ser uma ciência de questões concretas, visando, segundo a Introdução de
Husserl, evitar construções especulativas em filosofia, das quais
Hegel seria exemplo
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as Investigações impressionaram seus primeiros leitores por exemplificarem um modo radicalmente novo de fazer filosofia, focado diretamente na análise das coisas mesmas, sem o costumeiro desvio pela história da filosofia, limitando-se a criticar meros filosofemas tradicionais, como diz
Husserl, e sem declarações partidárias em favor de algum sistema filosófico, como o empirismo, o positivismo, o racionalismo, o hegelianismo ou o
neokantismo
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em uma década, à medida que os esforços pioneiros de
Husserl foram reconhecidos, as Investigações estabeleceram-se como texto fundacional do nascente movimento fenomenológico na Alemanha, expandindo-se sua influência posteriormente por toda a Europa, da Rússia e Polônia à França e Espanha
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não é exagero afirmar que a obra assumiu, na filosofia europeia do século vinte, status análogo ao de outro texto fundacional, desta vez na psicanálise, Die Traumdeutung, publicado pelo contemporâneo de
Husserl, Sigmund
Freud (1856–1939), em 1899
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as Investigações permanecem ponto de partida necessário para quem deseja compreender o desenvolvimento da filosofia europeia no século vinte, de Heidegger e Frege a
Levinas,
Gadamer,
Sartre ou
Derrida
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sendo texto tão central na filosofia do século vinte, as Investigações Lógicas permanecem, ainda assim, uma obra-prima negligenciada, notavelmente pouco lida e, quando lida, mal compreendida, tendo permanecido sem tradução para o inglês por setenta anos
A emergência da fenomenologia
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na primeira edição de 1901,
Husserl adotou o termo já existente fenomenologia, corrente desde Lambert,
Kant e
Hegel, mas revigorado por
Brentano e seus alunos, para caracterizar de modo pouco sistemático sua nova abordagem das condições de possibilidade do conhecimento em geral
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a fenomenologia pura representa um campo de pesquisas neutras, do qual várias ciências têm suas raízes, sendo, de um lado, auxiliar da psicologia concebida como ciência empírica, e, de outro, revelando as fontes das quais fluem os conceitos básicos e as leis ideais da lógica pura
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o lógico não se interessa pelos atos mentais como tais, mas apenas pelos significados objetivos e sua regulação formal, ao passo que o fenomenólogo se ocupa das estruturas essenciais do conhecimento e de sua correlação essencial com as coisas conhecidas, sendo a tarefa da fenomenologia esclarecer a natureza dos conceitos lógicos rastreando sua origem na intuição
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“Wir wollen auf die 'Sachen selbst' zurückgehen”
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“Our great task is now to bring the Ideas of logic, the logical concepts and laws, to epistemological clarity and definiteness. Here phenomenological analysis must begin.”
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de modo mais amplo,
Husserl pretende documentar todas as matérias que se apresentam à consciência em seus diversos modos de dação intuitiva, sem restringir de antemão e arbitrariamente as fontes da intuição, caracterizando inicialmente a fenomenologia de modo ambíguo, ora como disciplina paralela à epistemologia, ora como fundamentação mais radical desta, buscando esclarecer as essências dos atos de conhecimento em seu sentido mais geral
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ao analisar o conhecimento,
Husserl buscava fazer justiça tanto à idealidade necessária das verdades conhecidas quanto à contribuição essencial dos atos cognoscentes do sujeito
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olhando retrospectivamente em 1925,
Husserl descreveu o objetivo das Investigações Lógicas como resultado de dez anos de esforços para esclarecer a Ideia da lógica pura remontando às realizações doadoras de sentido efetuadas no complexo das vivências do pensamento lógico
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o objetivo geral de
Husserl é estabelecer o que ele descreve como a fundamentação fenomenológica da lógica, esclarecimento da natureza essencial do conhecimento lógico como preliminar à lógica formal sistemática e à ciência em geral
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mais estritamente, sua fenomenologia das vivências lógicas visa dar compreensão descritiva dos estados mentais e de seus sentidos inerentes, fixando os significados dos conceitos e operações lógicas fundamentais por meio de distinções e esclarecimentos elaborados
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na primeira edição, fenomenologia significava o esforço de indagar radical e consistentemente, das categorias das objetividades às vivências subjetivas, estruturas de atos e fundamentos experienciais em que as objetividades dos respectivos tipos se tornam objetos de consciência e de doação evidente, no domínio da intuição pura, e não como construção teórica ou hipotética à maneira da psicologia naturalista
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como
Husserl disse em 1925, essa indagação regressiva traz à luz um novo mundo, o domínio da correlação entre objetividade e subjetividade
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Husserl busca analisar cuidadosamente a matéria intencional das vivências expressivas, entendida a expressão como articulação de significado, focando-se no sentido ideal da intenção objetiva
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ao elaborar a ideia de significado ou expressão,
Husserl desmembra conceitos e elabora extensamente seus vários sentidos antes de passar a outros conceitos correlatos, distinguindo cuidadosamente os diferentes sentidos do termo apresentação, separando seus significados psicológico, lógico e epistemológico
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do mesmo modo, empreende análises conceituais de noções-chave como conteúdo, juízo e consciência, reconhecendo a necessidade de distinguir os múltiplos sentidos do termo conteúdo, frequentemente invocado por lógicos e psicólogos da época, sobretudo o contraste entre conteúdo real e ideal, e depois entre conteúdo fenomenológico e intencional
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um exemplo típico do esclarecimento buscado por
Husserl é sua diferenciação, na Sexta Investigação, dos tipos de unidade e conflito de conteúdos de significado que fundamentam as leis lógicas de consistência e contradição, feitos analíticos rigorosos que angariaram a admiração dos primeiros leitores e, mais recentemente, dos filósofos analíticos
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embora as análises concretas de
Husserl estivessem inicialmente voltadas sobretudo aos fundamentos da aritmética e da lógica e às estruturas do conhecimento, gradualmente ele e seus seguidores ampliaram a fenomenologia para abarcar as estruturas a priori da consciência em geral, incluindo formas afetivas, volitivas, práticas, avaliativas, estéticas, religiosas, legais e políticas de consciência apreensora e articuladora de significado, sendo a fenomenologia concebida como ciência das essências, disciplina pura e a priori atenta à natureza das coisas tal como dadas na visão essencial
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desde cedo, as Investigações atraíram a atenção de alunos do filósofo e psicólogo muniquense Theodor Lipps (1851–1914), que fora ele próprio criticado por psicologismo nos Prolegômenos e que, em consequência, alterou suas posições para vir a concordar largamente com
Husserl
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por meio dos alunos de Lipps, sobretudo Johannes Daubert (1877–1947), as Investigações Lógicas tornaram-se o texto filosófico principal de uma geração de filósofos alemães, incluindo Alexander Pfänder (1870–1941), cuja tese de Habilitação premiada, escrita sob orientação de Lipps em Munique, Phänomenologie des Wollens. Eine psychologische Analyse (1900), continha a palavra fenomenologia no título, embora o termo não ocorresse em outra parte da obra
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subsequentemente, Max
Scheler (1874–1928), Adolf Reinach (1883–1917), Edith Stein (1891–1942) e Roman
Ingarden (1893–1970) foram todos atraídos por essa concepção inicial de fenomenologia, de orientação fortemente realista e promessa de resolver disputas até então intratáveis da filosofia
O papel das Investigações no desenvolvimento de Husserl
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Husserl considerava suas Investigações Lógicas um avanço, não um fim, mas antes um começo, obra em que abandonou suas abordagens anteriores da lógica e da matemática expressas em seu primeiro livro, Philosophie der Arithmetik (1891), julgado psicologista por seu principal crítico, Gottlob Frege (1848–1925)
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em anos posteriores,
Husserl buscou distanciar-se da compreensão comum da obra como mero exercício de filosofia da lógica, queixando-se de ser caracterizado de modo limitado como lógico, quando se via mais amplamente como teórico da ciência em geral e fundador de uma nova ciência fundacional, a filosofia primeira ou fenomenologia, voltada à descrição cuidadosa de todas as formas de produção e registro de sentido e, portanto, de todo o domínio da subjetividade
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chegou a afirmar, em carta a E. Spranger de 1918, que a fenomenologia tinha tão pouco a ver com a lógica quanto com a ética, a estética e outras disciplinas paralelas
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Husserl sugeriria mais tarde que fora mero acidente biográfico ter chegado à fenomenologia por meio de pesquisas lógicas, podendo ter entrado no campo por outra via inteiramente diversa
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em carta a Georg Misch de 16 de novembro de 1930,
Husserl afirmou ter perdido o interesse pela lógica formal e pela ontologia real ao realizar sua ruptura rumo ao transcendental, concentrando-se depois na fundação de uma teoria da subjetividade e intersubjetividade transcendentais