A não-fenomenologia caracteriza tanto a filosofia que estabelece sistemas, conceitos e doutrinas sem jamais interrogá-los quanto uma vida prática dominada pelo maquinal e pelo rotineiro mortíferos, ou voltada apenas ao resultado objetivado da ação.
O maquinal não é apenas negativo e mortífero, pois há também uma eficácia a serviço da vida, da liberdade e da relação, mesmo quando a rentabilidade frequentemente aprisiona e afasta dos outros.
A analogia simples entre pensamento e não-fenomenologia, de um lado, e ação e fenomenologia, de outro, deve ser questionada, pois o pensamento pode ser fenomenológico quando portado pela vitalidade do questionamento, e a ação não-fenomenológica quando essencialmente maquinal ou objetivante.
O critério do fenomenológico em relação ao não-fenomenológico corresponde ao vital em face do mortífero, à vida subjetiva em face do objetivante, distinção que se modula conforme a inflexão natural para a fixação e o apego ou a força do esforço contrário à rigidez.
Retorno às coisas elas mesmas
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A démarche fenomenológica se condiciona pela adesão inquebrantável à experiência em sua nudez primeira, exigência que pode soar exorbitante ou arcaica ao ponto de parecer inconcebível.
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A palavra de ordem husserliana não implica um olhar míope colado às coisas, mas voltar a atenção para a experiência em curso, reduzindo projeções, preconceitos e pressuposições, de modo a deixá-la aparecer em sua frescura nativa.
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A atitude natural e não refletida de organizar e programar o tempo admite duas respostas opostas.
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As crianças expressam essa necessidade de segurança na pergunta “qu'est-ce qu'on fait aujourd'hui ?”.
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Pode-se reforçar o controle inventando restrições como garde-fous contra o vazio do tédio.
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Pode-se, ao contrário, abandonar-se deliberadamente ao instante presente, cultivando a capacidade de acolher o imprevisível e transformar o cotidiano em surpresa.
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Na experiência compartilhada com outros, a atitude convencional consiste em impor a própria visão ou trazer sempre a conversa para si, expressão de narcisismo exagerado, enquanto a atitude oposta, de deixar sempre os outros decidirem, mergulha numa passividade sofrida e desprezível diante desses decisores.
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Em relações mais íntimas, amistosas ou conjugais, a atitude imediata de opor-se ou de ecoar para não desagradar revela-se igualmente inadequada, pois em ambos os casos deixa-se de existir por si mesmo, ao passo que retornar às coisas elas mesmas significa abrir horizontes capazes de impulsionar e construir a relação.
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Em todos esses casos, trata-se de ir contra a tendência mais imediata, presa à dualidade entre dois extremos igualmente inoperantes, de modo que retornar às coisas elas mesmas equivale a apostar na não dualidade da experiência subjetiva.
A descrição e seus limites
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O retorno às coisas elas mesmas, para ter força de realidade, não pode permanecer inefável, sob pena de recair no que, segundo a palavra-mestra de
Wittgenstein, “não se pode falar” e se deve calar — posição rejeitada frontalmente.
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A virtude da descrição fenomenológica consiste em observar o sentido imanente da experiência do sujeito.
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Distingue-se da explicação científica que dá conta de um fenômeno produzindo suas causas e efeitos, como em Fechner.
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Distingue-se de construir a experiência a partir de categorias predeterminadas, como em
Kant.
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Distingue-se de narrar o vivido no âmbito de uma ficção com veracidade de testemunho, como em Ricœur.
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A descrição fenomenológica possui limites próprios.
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Sua dimensão eidética em
Husserl confere à variação dos fatos, que permite extrair a essência, um acento universalizante que roça a abstração, contrariando a exigência de concretude da fenomenologia.
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Seu caráter neutro, ligado à epoché que suspende toda posição de valor, aproxima-a de uma posição em terceira pessoa da experiência do sujeito, paradoxo notável para uma démarche que se pretende atenta à singularidade da subjetividade.
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Complementos bem-vindos para encarnar a démarche descritiva incluem a promoção de um relato da experiência no campo da psicologia, resolutamente em primeira pessoa, a mobilização da noção de expressão de
Wittgenstein para dar conta de uma situação hic et nunc da experiência do sujeito, e a ênfase no processo de produção de sentido segundo o linguista Guillaume, que registra a natureza dinâmica da linguagem, denominada em linguística “praxemática”.
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Anuncia-se a estrutura da obra em três partes.
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A primeira parte trata de como a fenomenologia foi posta em obra pelos próprios fenomenólogos, de como a tradição pragmatista pode dialogar com ela em vista de sua transformação prática, e de como foi moldada por seus múltiplos “exteriores”.
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A segunda parte explora como os diversos campos experienciais são reelaborados, como o método se encarna em gestos precisos e como se refunda a descrição.
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A terceira parte apresenta gestos, figuras e situações da história da filosofia que respondem arqueologicamente a antecipações do método fenomenológico, e discute a importância de uma démarche prática em fenomenologia nos debates atuais de ética e na gestão do cotidiano.
A prática como epistemologia fenomenológica
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A apresentação conclusiva parte de uma boutade segundo a qual todos seriam no fundo pragmatistas, inventando-se teóricos apenas para obter uma caução de seriedade junto a uma comunidade filosófica em parte mítica.
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Essa afirmação, que poderia ser de
Nietzsche, remete substancialmente a William James, que define o pragmatismo como método de libertação do espírito e transformação da relação com a realidade fenomenal.
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Esses traços ressoam com o gesto revolucionário husserliano da epoché como afrancamento da pré-doação do mundo.
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Ressoam também com a mudança radical de atitude do sujeito diante de objetos, eventos e outros.
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O projeto de compreender a fenomenologia como prática se inscreve nesse duplo horizonte epistemológico, entendendo a essência intuível não como representação, mas como aquilo que faz agir num sentido determinado.
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Conhecer significa saber agir sobre uma realidade numa situação singular encarnada.
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Critica-se o fechamento do conhecimento sobre si mesmo em totalidades teóricas e abstratas, próprio dos racionalistas cartesianos, pós-cartesianos e kantianos.
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O pragmatismo se volta para o que está em curso de se fazer, chamando à alteridade — a si mesmo e aos outros campos disciplinares — como motor da pesquisa filosófica pela prática.
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A distinção entre teoria e prática não opõe uma atividade especulativa e científica a uma atividade utilitária e técnica, mas designa duas atitudes: uma retrospectiva, que vem depois da ação para pensá-la, outra prospectiva, que acompanha a ação a se fazer.
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O filósofo praticante toma os conceitos como guias e pontos de orientação da ação em curso.
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O fenomenólogo se apoia nos argumentos conceituais e textuais como suportes rigorosos de descrição de uma experiência que permanece o critério último da evidência.
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Se o conceito é o que faz agir, pensa-se um pensamento não por si mesmo, mas para engendrar outro, de modo que se pensa para agir, implicando sempre um momento em que se arrisca no indeterminado sem certeza sobre as conexões futuras.
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O próprio processo do conhecimento constitui uma prática por excelência, na medida em que se constrói em séries encadeadas e muitas vezes imprevisíveis de ideias, racionalizáveis apenas a posteriori.
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A fenomenologia acentua a descrição da gênese dos fenômenos, externos ou internos, e promove o método da epoché, diferenciado em conversão, suspensão e variação, acompanhando esse movimento de emergência do pensamento em ato.
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A passagem de uma ideia a outra constitui o foco de atenção do praticante fenomenólogo, não explicável apenas pela racionalidade como coerência interna.