Emergência e indeterminação conceitual da fenomenologia crítica
Nos últimos anos, consolidou-se o nome “fenomenologia crítica” para designar uma nova orientação de trabalhos fenomenológicos, mas permanece controverso o que exatamente ela é e em que difere da fenomenologia clássica.
Um motivo decisivo do “giro crítico” consiste no desejo explícito de transformação social e política, de modo que a fenomenologia não se limite a descrever, mas contribua para uma ordem social mais justa e inclusiva.
A fenomenologia crítica se apresenta como uma forma de teoria crítica voltada a iluminar, analisar e opor-se a injustiças estruturais, como marginalização, racismo, colonialismo, capacitismo, homofobia e práticas correlatas.
Uma questão imediatamente aberta é se a fenomenologia crítica é apenas crítica do mundo social ou também crítica da própria fenomenologia clássica.
Controvérsias inaugurais e o papel de Lisa Guenther
Referências recentes ao termo são frequentemente vinculadas a um texto de 2013 de Lisa Guenther, que descreve a fenomenologia crítica como continuidade da tradição fenomenológica de tomar a experiência em primeira pessoa como ponto de partida, ao mesmo tempo em que resiste à tendência de privilegiar a subjetividade transcendental em detrimento da intersubjetividade transcendental.
Em sua própria elaboração, Guenther recorre a Maurice Merleau-Ponty e Emmanuel Levinas, e tende a identificar Edmund Husserl como o principal alvo quando contrapõe “clássico” e “crítico”.
As objeções centrais atribuídas por Guenther a Husserl são:
O privilégio unilateral da subjetividade individual.
Uma teoria da constituição em que a consciência constituiria o mundo sem reciprocidade.
A insuficiente tematização do modo como estruturas históricas e sociais contingentes moldam o sentido e a forma da experiência.
A relutância em engajar-se em crítica normativa e transformação de normas do mundo da vida.
Contestação da leitura crítica de Husserl
A crítica a Husserl é contestada por razões filosóficas internas à própria fenomenologia husserliana.
Husserl não sustenta que o “eu” singular seja absolutamente anterior à intersubjetividade, pois afirma que certas dimensões da subjetividade pessoal emergem na relação eu-tu.
A intersubjetividade é crucial, em Husserl, para a constituição da objetividade mundana, o que desloca a imagem de uma subjetividade isolada e soberana.
Husserl enfatiza facticidade e passividade, tratando a subjetividade como princípio constitutivo necessário, mas não suficiente.
A fenomenologia genética husserliana explicita uma reciprocidade temporal:
Estruturas intencionais têm devir temporal.
Sedimentações da experiência passada moldam o presente da vida intencional.
Elementos como generatividade, tradição, historicidade e normalidade cultural ganham peso constitutivo.
A linguagem escrita é exemplificada como fator historicamente contingente com impacto constitutivo:
A objetividade científica depende da transmissibilidade intergeracional do sentido escrito.
A escrita opera como reservatório de conhecimento, tornando possíveis teorias científicas complexas que reconfiguram a vida cotidiana.
A acusação de ausência de crítica normativa também é relativizada:
Husserl escreveu sobre ética social e se preocupou com uma renovação cultural capaz de reparar uma atitude “menschenverachtende” [inhumana] observada na sociedade europeia e alemã.
Problema do contraste “clássico” versus “crítico”
Se os traços críticos reivindicados já podem ser encontrados em um autor tão paradigmático quanto Husserl, perde-se a força de uma distinção rígida entre fenomenologia clássica e fenomenologia crítica.
O uso do termo “crítica” como termo contrastivo sugere que a fenomenologia clássica seria “acrítica”, mas a fenomenologia, desde Husserl, Martin Heidegger e Merleau-Ponty, inclui a crítica de estilos de pensamento não interrogados, como naturalismo e objetivismo.
Merleau-Ponty caracteriza a fenomenologia como reflexão crítica permanente, que não toma nada como dado, nem a si própria.
Uma resposta comum é distinguir estilos de crítica:
A fenomenologia clássica teria sido crítica de pressupostos epistemológicos e metafísicos, mas insuficientemente crítica de práticas sociopolíticas específicas.
Contudo, essa resposta incorre em erro histórico, pois há uma politização já na fenomenologia alemã inicial, intensificada após a Primeira Guerra Mundial.
Historicidade política da fenomenologia e diversidade de posições
A tradição fenomenológica inicial inclui análises de comunidade, Estado e direito, e engajamentos com nacionalismo, liberalismo e capitalismo.
A pluralidade de posições políticas entre fenomenólogos é incontornável:
Há críticas à modernidade capitalista-consumista e desejos de renascimento social.
Há também adesões divergentes, indo de socialismo a conservadorismo católico e, infamemente, ao nacional-socialismo em alguns casos.
No pós-guerra francês, a orientação crítica se torna mais explícita:
Jean-Paul Sartre examina o antissemitismo e oferece uma das primeiras abordagens filosóficas do Holocausto.
Simone de Beauvoir formula uma análise fenomenológica do corpo generificado.
Frantz Fanon critica colonialismo e racismo e analisa fenomenologicamente o corpo racializado.
A passagem de Husserl do a-histórico ao historicamente situado é continuada por Sartre e Merleau-Ponty e radicalizada por Beauvoir e Fanon.
Fenomenologia crítica como continuidade e expansão
Diante dessa genealogia, a distinção rígida entre “clássico” e “crítico” torna-se metodologicamente suspeita.
A tese de que “o que há de crítico na fenomenologia crítica já estava lá desde o início” sugere que se trata menos de ruptura e mais de reconfiguração de ênfases.
Uma leitura hoje crescente sustenta que Husserl, Beauvoir e Fanon podem ser tomados como pensadores centrais para a fenomenologia crítica, ao lado de autores mais recentes.
A fenomenologia aparece, assim, como tradição em evolução, cujos recursos podem ser reempregados para finalidades diversas, inclusive a crítica social.
Experiências marginalizadas e enriquecimento das análises da corporeidade
Uma marca da fenomenologia crítica recente é o compromisso com uma descrição mais abrangente da diversidade das experiências vividas.
Análises clássicas da corporeidade frequentemente operaram em nível alto de abstração, omitindo idade, sexo, gênero, raça e posição social.
O que se apresentava como universal pode ser interpretado como universalização de uma perspectiva particular: masculina, branca e capacitista.
Uma fenomenologia abrangente da corporeidade deve tematizar:
Como intencionalidade corporal é modulada por gênero, raça, sexualidade e classe.
Como práticas sociais e culturais conformam postura, gesto e horizonte do “eu posso” corporal.
Exemplificação por episódio narrado por Elizabeth Anderson:
A interação em um posto de gasolina evidencia como estereótipos raciais moldam não apenas interpretações, mas a própria intencionalidade corporal do homem negro, compelido a gerir a legibilidade de seus gestos sob o olhar branco.
Fanon oferece um modelo clássico de análise da opressão racial como modificação do ser-no-mundo:
A internalização do olhar branco restringe, inibe e objetifica a existência corporal.
Sara Ahmed sintetiza essa modulação como passagem do “eu posso” para o “eu não posso”, caracterizando restrição, incerteza e bloqueio.
Iris Marion Young, em “Throwing like a girl”, descreve modalidades de comportar-se corporalmente sob patriarcado:
Mulheres são frequentemente definidas como corpos-objeto e internalizam componentes de auto-objetificação.
Normas de socialização instalam timidez e hesitação, deslocando o “eu posso” para um “eu não posso” ou “eu não deveria”.
Essas modalidades não decorrem de essência feminina, mas de estilos culturalmente formados.
A extensão contemporânea dessas análises abrange outras formas de opressão e influencia campos como estudos críticos da deficiência, estudos trans e queer, e estudos pós-coloniais.
Essa produção é mais bem compreendida como continuidade e ampliação de linhas já abertas a partir do fim dos anos 1940 e início dos anos 1950, e não como ruptura absoluta.
O problema do método na fenomenologia crítica
Discute-se se um uso crítico da fenomenologia exige repensar ou abandonar ferramentas e métodos clássicos.
Guenther sustenta que a fenomenologia crítica deve reconsiderar os métodos eidético e transcendental e ir além do que a fenomenologia clássica oferece para engajar-se com história e poder.
A contextualização sociocultural levanta questões metodológicas estruturais:
Análises do corpo racializado e generificado substituem ou suplementam análises genéricas de corporeidade?
Ainda é possível uma análise eidética da corporeidade, isto é, uma investigação de estruturas invariantes da existência corporificada?
Ou só existem corpos particulares, de modo que o máximo seria descrever “um corpo de mulher, um corpo latino, um corpo materno, um corpo envelhecente, um corpo judeu”, e assim por diante?
Proibir qualquer referência a estruturas universais ameaça a própria possibilidade de uma análise filosófica da corporeidade.
Distinções formais como corpo vivido e corpo objetificado, ou consciência corporal pré-reflexiva e reflexiva, podem permanecer válidas como estruturas básicas, ainda que precisem de especificação contextual.
É uma coisa afirmar que a análise genérica é incompleta; é outra, muito mais forte, declará-la inútil ou perigosamente enganosa.
Young sustenta explicitamente a via suplementar:
A descrição merleau-pontyana da relação corpo-mundo vale em nível básico geral.
Em nível específico, há estilos típicos de comportar-se que modulam essas estruturas gerais.
Redução fenomenológica, transcendentalidade e crítica social
A atenção a estruturas históricas contingentes levou alguns a questionar o estatuto transcendental da fenomenologia e a relevância da redução fenomenológica.
Em contraste, Johanna Oksala defende que a crítica social fundamental exige a redução para mostrar que o mundo social não é dado natural, mas produto de constituição e sedimentação.
A crítica filosófica visa desfazer crenças naturalizadas que operam como “fatos ontológicos”, quando são preconceitos profundamente enraizados.
Pluralismo metodológico e risco de indeterminação do “fenomenológico”
Guenther compreende a fenomenologia crítica como prática aberta, próxima do ativismo, e propõe recorrer a recursos de teorias pós-coloniais, feminismo, teoria racial crítica, marxismo, Escola de Frankfurt, psicanálise, teoria queer, genealogia foucaultiana, desconstrução e estudos críticos da deficiência.
O pluralismo pode ser justificável, mas, se a fenomenologia crítica se distancia tanto da redução transcendental quanto da redução eidética, torna-se urgente esclarecer o que ainda a torna fenomenologia.
Um apelo genérico à “experiência vivida” pode não ser suficiente para delimitar o campo.
Discussões análogas reaparecem no debate sobre fenomenologia aplicada, onde a utilidade prática frequentemente compete com a exigência de método e identidade disciplinar.