FILIZ, Kadir. Event and Subjectivity: The Question of Phenomenology in Claude Romano and Jean-Luc Marion. Leiden Boston: Brill, 2024.
Eventos possuem poder transformador atestado na literatura, história, cinema, tragédia e na memória pessoal, mas receberam insuficiente atenção na história da filosofia ocidental até o século XX.
A diversidade de abordagens sobre o evento atesta seu caráter elusivo e a necessidade de um novo quadro de pensamento, pois discursos filosóficos tradicionais, ao racionalizá-lo via causalidade ou substancialidade, neutralizam sua peculiaridade e caráter excepcional.
Delimitação do estudo: fenomenologia do evento em Marion e Romano
Este estudo foca fenomenologia do evento no trabalho de Jean-Luc Marion e Claude Romano, pensadores que operam nas margens do discurso fenomenológico e para os quais evento possui importância central em suas respectivas compreensões da fenomenologia.
Escolha não é arbitrária, pois literatura secundária existente falhou em fazer justiça ao pensamento de ambos, especialmente de Romano.
Objetivo principal é responder duas questões: o que é evento e quem o experiencia.
Primeira questão explora fenomenalidade do evento, seu modo de mostrar-se e sua distinção de outros modos de fenomenalidade.
Segunda questão investiga como evento mostra-se e é experienciado pelo ser humano, exigindo nova compreensão de subjetividade, distinta da ideia típica de sujeito na fenomenologia.
Razões para focar em Marion e Romano
Ambos propõem versão fenomenológica do evento que não transgride limites da fenomenologia, mas a expande para fazer justiça à fenomenalidade do evento, tratando-o como fenômeno.
Distinguem sistematicamente fenomenalidade do evento de outros modos de fenomenalidade, não identificando toda ocorrência como evento.
Engajamento com fenômeno do evento não é acidental, mas constitui cerne de sua compreensão da fenomenologia; para Marion, evento é paradigma para fenomenalidade, enquanto para Romano é fonte de todo fenômeno.
Ambos reconsideram subjetividade à luz do evento, propondo novos nomes para sujeito (adonné, advenant) e concebendo que “subjetivação” torna-se possível através do evento.
Essas abordagens fornecem elaboração mais radical do evento no movimento fenomenológico, justificando foco do estudo.
Desencontro com a noção heideggeriana de Ereignis
Na filosofia continental, opinião predominante associa tema do evento à noção heideggeriana de Ereignis, mas esta não será abordagem adotada neste estudo.
Análises como as de Tengelyi e Gondek, que tomam Sinnereignis como noção unificadora da nova fenomenologia francesa, arriscam perder novidade qualitativa e reduzir discussão ao topos de Husserl e Heidegger.
Christian Sommer também interpreta modificação do conceito de fenômeno na nova fenomenologia francesa a partir de sua compreensão como evento (Ereignis), reforçando associação com Heidegger.
Defende-se que noção heideggeriana de Ereignis não é pedra angular nem ponto de origem para Marion e Romano.
Ereignis heideggeriano é compreendido como singulare tantum ahistórico, enquanto evento em Marion e Romano é sempre plural e refere-se a acontecimentos na história pessoal de seres humanos finitos.
Conceito de evento neste estudo aproxima-se mais do alemão Geschehen do que de Ereignis.
Lacunas na literatura secundária sobre evento e fenomenologia
Livro Neue Phänomenologie in Frankreich omite completamente fenomenologia do evento de Claude Romano, e noção de Sinnereignis não resume adequadamente projetos de Marion ou Henry devido ao papel da hermenêutica.
François Raffoul, em Thinking the Event, oferece contribuição importante, mas desconsidera trabalho de Romano, perdendo oportunidade de diálogo, pois sua abordagem geral parece bem adequada à concepção romaniana.
Gert-Jan van der Heiden, em Ontology after Ontotheology, é primeiro estudo a dar lugar adequado a Marion e Romano no contexto da noção de evento, sem reduzi-la à Ereignis heideggeriana, servindo como inspiração e guia.
Lasma Pirkina, em Das Ereignis, trata Heidegger como fonte primária de inspiração para filosofia subsequente do evento, avaliação considerada inválida para Marion e Romano, pois examinar seu pensamento através da lente da Ereignis heideggeriana desorienta e distorce ideia de fenomenalidade do evento.
Relação com Heidegger: “com e contra Heidegger”
Distância entre concepções de Marion e Romano e a Ereignis heideggeriana é estabelecida para evitar reduzir contribuições originais a uma série de notas de rodapé a Heidegger.
Filosofia de Heidegger exerce papel vital na formação das contas de fenomenalidade e subjetividade de ambos, mas influência deriva principalmente de trabalhos anteriores a Contribuições à Filosofia (Do Acontecimento), não da noção de Ereignis.
Marion e Romano lidam com definição heideggeriana do fenômeno em suas concepções de evento; paralelamente ao uso de Dasein, Marion sugere adonné e Romano propõe advenant para ser humano.
Compreensão da fenomenalidade do evento e concepções do sujeito podem ser descritas como estando “com e contra Heidegger”; estudo engajará com legado heideggeriano e sua recepção por Marion e Romano em detalhe, sem apelar para ideia de Ereignis.
Abordagens fenomenológicas contemporâneas ao evento: Dastur e Barbaras
Françoise Dastur, em “Phenomenology of the Event: Waiting and Surprise”, pergunta o que nas fenomenologias husserliana e heideggeriana torna possível uma “fenomenologia do evento”, argumentando que não há pensamento possível do evento que não seja também pensamento da fenomenalidade.
Dastur prefere considerar fenomenalidade do evento a partir de modelos husserliano e heideggeriano, sem buscar ir além deles.
Marion e Romano, em contraste, buscam fenomenalidade do evento fora dessas versões da fenomenologia, oferecendo contas alternativas que reconfiguram compreensão da própria fenomenologia.
Renaud Barbaras aborda noção do evento em termos de correlação entre sujeito e mundo, propondo conceito de “arquievento” (archi-événement) como fonte de manifestação e subjetivação, que nasce do arqui-movimento do mundo.
Barbaras afirma que, com arquievento, cruza-se limiar da metafísica, posicionando-o além da correlação fenomenológica e, portanto, além da fenomenologia; sua noção de evento fica fora do escopo da investigação fenomenológica aqui apresentada.
Questões metodológicas e hermenêuticas
Estudo oferece compreensão fenomenológica do evento, considerando-o como fenômeno e abordando eventos que acontecem a seres humanos finitos no mundo (nascimento, morte, amor, doença, acidente, perda).
Foco em Marion e Romano justifica-se por quatro razões principais:
Proposta de versão fenomenológica do evento que expande fenomenologia sem transgredi-la.
Distinção estrita e sistemática da fenomenalidade do evento de outros modos de fenomenalidade.
Engajamento com fenômeno do evento como cerne de seus projetos fenomenológicos.
Reconsideração da subjetividade à luz do evento, com novos nomes para sujeito (adonné, advenant) e compreensão de que “subjetivação” torna-se possível através do evento.
Abordagem não é comparativa; pensamento de Marion e Romano será discutido separadamente para dar conta justa de cada um, embora haja momentos comparativos quando referem trabalhos um do outro.
Fenomenologia é entendida como possibilidade (segundo Heidegger), não como versão atualizada absoluta; “nova fenomenologia francesa” é resultado de tais transformações, e encontro filosófico de Marion e Romano com evento traz transformação radical da fenomenologia.
Estrutura da obra e objetivos dos capítulos
Primeira parte (capítulos 1 e 2) aborda questão “O que é evento?”, explorando fenomenalidade do evento.
Capítulo 1: evento na fenomenologia da doação de Jean-Luc Marion.
Apresenta contornos da fenomenologia da doação e discute papel e lugar do evento.
Evento é fenômeno paradigmático, estabelecendo polo de fenomenalidade (eventicidade) contra outro polo (objetidade).
Marion amplia e muda critérios de fenomenalidade em relação a Husserl e Heidegger, destacando papel crítico da hermenêutica para decidir entre modo de eventicidade ou objetidade.
Capítulo 2: fenomenalidade do evento em Claude Romano.
Inicia com distanciamento de Romano da ontologia fundamental heideggeriana e sua transformação em hermenêutica eventual.
Distingue eventos de fatos, descrevendo características do evento.
Fenomenalidade do evento leva a reconsiderar problemas da fenomenologia (mundo, possibilidade, temporalidade, experiência) sob nova perspectiva.
Segunda parte (capítulos 3 e 4) aborda questão “Quem experiencia o evento?”, investigando transformação da subjetividade.
Discute crítica de Marion a concepções anteriores de subjetividade e foca na “subjetivação” do adonné pelo evento.
Adonné fornece conta não transcendental do sujeito, que só se torna si mesmo através da recepção do evento.
Aborda conta de Marion da redução em relação à superação do transcendentalismo, incluindo crítica de Romano ao método da redução na fenomenologia da doação.
Romano cunha termo advenant para falar de ser humano, abandonando perspectiva transcendental.
Engaja criticamente com outros modelos de sujeito, especialmente Dasein heideggeriano, por não permitirem que eventos se mostrem.
Foca na “subjetivação” do advenant pelo evento, colocando evento do nascimento no centro de sua configuração.
Utiliza noção de ipseidade para indicar transformação do advenant diante do evento, desenvolvendo realismo fenomenológico por meio de abordagem não transcendental.
Uso dos conceitos de sujeito e subjetividade no estudo
Marion e Romano propõem novos nomes (adonné, advenant) para substituir noção de sujeito, resultado de crítica à formação mesma da subjetividade na fenomenologia e necessidade de transformar papel e função do que antes era “sujeito” na experiência de eventos.
Advenant e adonné não são sujeitos e não incluem mais qualquer forma de subjetividade; podem ser chamados de pós-subjetividades, respondendo à questão de Nancy “Quem vem depois do sujeito?”.
Novos termos ocupam lugar do sujeito, tentando superá-lo e descentrá-lo, oferecendo novo modo de pensar papel do ser humano fenomenologicamente; ainda assim, não estão totalmente fora da tradição do sujeito.
Uso dos termos “sujeito” e “subjetividade” refere-se principalmente a essas noções como emergiram e foram reformuladas na tradição da filosofia moderna e na fenomenologia husserliana.
Par de termos “self” e “ipseidade” também são discutidos; “ipseidade” (tradução de Selbstheit e ipséité) adquire significado filosófico no século XX, principalmente com Heidegger, oferecendo alternativa a “sujeito” e “subjetividade”.
Conclusões prospectivas sobre impacto da fenomenologia do evento
Fenomenologias do evento permitem articular concepção mais realista do fenômeno, pois descentramento do sujeito resultante da fenomenalidade do evento retira seu papel constitutivo frente ao fenômeno.
Fenomenalidade do evento não pode ser regulada por nada além do próprio fenômeno; acontecimento do evento não depende do sujeito, pavimentando caminho para entendimento realista do fenômeno.
Fenomenologia do evento amplia concepção de racionalidade na fenomenologia, pois razão fenomenológica é moldada pela compreensão da fenomenalidade e subjetividade.
Tematização de eventos nas fronteiras da fenomenologia leva à transformação da razão fenomenológica; evento re-estabelece logos dos fenômenos e traz novo logos.
Nesta nova concepção de razão, eventos não são mais excluídos do pensamento e sujeito não é mais entendido como força central e autárquica na constituição do mundo.
Estudo busca contribuir para discussões sobre fenomenalidade do evento e suas pós-“subjetividades” na nova fenomenologia francesa, focando em Marion e Romano, que ampliam logos dos fenômenos e traçam novo modo de compreender ser humano à luz do evento.