Françoise Dastur, em “Phenomenology of the Event: Waiting and Surprise”, pergunta o que nas fenomenologias husserliana e heideggeriana torna possível uma “fenomenologia do evento”, argumentando que não há pensamento possível do evento que não seja também pensamento da fenomenalidade.
Marion e Romano, em contraste, buscam fenomenalidade do evento fora dessas versões da fenomenologia, oferecendo contas alternativas que reconfiguram compreensão da própria fenomenologia.
Renaud Barbaras aborda noção do evento em termos de correlação entre sujeito e mundo, propondo conceito de “arquievento” (
archi-événement) como fonte de manifestação e subjetivação, que nasce do arqui-movimento do mundo.
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Barbaras afirma que, com arquievento, cruza-se limiar da metafísica, posicionando-o além da correlação fenomenológica e, portanto, além da fenomenologia; sua noção de evento fica fora do escopo da investigação fenomenológica aqui apresentada.
Questões metodológicas e hermenêuticas
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Estudo oferece compreensão fenomenológica do evento, considerando-o como fenômeno e abordando eventos que acontecem a seres humanos finitos no mundo (nascimento, morte, amor, doença, acidente, perda).
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Foco em Marion e Romano justifica-se por quatro razões principais:
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Proposta de versão fenomenológica do evento que expande fenomenologia sem transgredi-la.
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Distinção estrita e sistemática da fenomenalidade do evento de outros modos de fenomenalidade.
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Engajamento com fenômeno do evento como cerne de seus projetos fenomenológicos.
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Reconsideração da subjetividade à luz do evento, com novos nomes para sujeito (adonné, advenant) e compreensão de que “subjetivação” torna-se possível através do evento.
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Abordagem não é comparativa; pensamento de Marion e Romano será discutido separadamente para dar conta justa de cada um, embora haja momentos comparativos quando referem trabalhos um do outro.
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Fenomenologia é entendida como possibilidade (segundo Heidegger), não como versão atualizada absoluta; “nova fenomenologia francesa” é resultado de tais transformações, e encontro filosófico de Marion e Romano com evento traz transformação radical da fenomenologia.
Estrutura da obra e objetivos dos capítulos
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Primeira parte (capítulos 1 e 2) aborda questão “O que é evento?”, explorando fenomenalidade do evento.
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Capítulo 1: evento na fenomenologia da doação de Jean-Luc Marion.
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Apresenta contornos da fenomenologia da doação e discute papel e lugar do evento.
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Evento é fenômeno paradigmático, estabelecendo polo de fenomenalidade (eventicidade) contra outro polo (objetidade).
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Marion amplia e muda critérios de fenomenalidade em relação a Husserl e Heidegger, destacando papel crítico da hermenêutica para decidir entre modo de eventicidade ou objetidade.
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Capítulo 2: fenomenalidade do evento em Claude Romano.
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Inicia com distanciamento de Romano da ontologia fundamental heideggeriana e sua transformação em hermenêutica eventual.
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Distingue eventos de fatos, descrevendo características do evento.
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Fenomenalidade do evento leva a reconsiderar problemas da fenomenologia (mundo, possibilidade, temporalidade, experiência) sob nova perspectiva.
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Segunda parte (capítulos 3 e 4) aborda questão “Quem experiencia o evento?”, investigando transformação da subjetividade.
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Capítulo 3: noção de
adonné em Marion.
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Discute crítica de Marion a concepções anteriores de subjetividade e foca na “subjetivação” do adonné pelo evento.
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Adonné fornece conta não transcendental do sujeito, que só se torna si mesmo através da recepção do evento.
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Aborda conta de Marion da redução em relação à superação do transcendentalismo, incluindo crítica de Romano ao método da redução na fenomenologia da doação.
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Capítulo 4: noção de
advenant em Romano.
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Romano cunha termo advenant para falar de ser humano, abandonando perspectiva transcendental.
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Engaja criticamente com outros modelos de sujeito, especialmente Dasein heideggeriano, por não permitirem que eventos se mostrem.
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Foca na “subjetivação” do advenant pelo evento, colocando evento do nascimento no centro de sua configuração.
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Utiliza noção de ipseidade para indicar transformação do advenant diante do evento, desenvolvendo realismo fenomenológico por meio de abordagem não transcendental.
Uso dos conceitos de sujeito e subjetividade no estudo
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Marion e Romano propõem novos nomes (adonné, advenant) para substituir noção de sujeito, resultado de crítica à formação mesma da subjetividade na fenomenologia e necessidade de transformar papel e função do que antes era “sujeito” na experiência de eventos.
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Advenant e adonné não são sujeitos e não incluem mais qualquer forma de subjetividade; podem ser chamados de pós-subjetividades, respondendo à questão de Nancy “Quem vem depois do sujeito?”.
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Novos termos ocupam lugar do sujeito, tentando superá-lo e descentrá-lo, oferecendo novo modo de pensar papel do ser humano fenomenologicamente; ainda assim, não estão totalmente fora da tradição do sujeito.
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Uso dos termos “sujeito” e “subjetividade” refere-se principalmente a essas noções como emergiram e foram reformuladas na tradição da filosofia moderna e na fenomenologia husserliana.
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Par de termos “self” e “ipseidade” também são discutidos; “ipseidade” (tradução de Selbstheit e ipséité) adquire significado filosófico no século XX, principalmente com Heidegger, oferecendo alternativa a “sujeito” e “subjetividade”.
Conclusões prospectivas sobre impacto da fenomenologia do evento
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Fenomenologias do evento permitem articular concepção mais realista do fenômeno, pois descentramento do sujeito resultante da fenomenalidade do evento retira seu papel constitutivo frente ao fenômeno.
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Fenomenologia do evento amplia concepção de racionalidade na fenomenologia, pois razão fenomenológica é moldada pela compreensão da fenomenalidade e subjetividade.
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Tematização de eventos nas fronteiras da fenomenologia leva à transformação da razão fenomenológica; evento re-estabelece logos dos fenômenos e traz novo logos.
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Nesta nova concepção de razão, eventos não são mais excluídos do pensamento e sujeito não é mais entendido como força central e autárquica na constituição do mundo.
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Estudo busca contribuir para discussões sobre fenomenalidade do evento e suas pós-“subjetividades” na nova fenomenologia francesa, focando em Marion e Romano, que ampliam logos dos fenômenos e traçam novo modo de compreender ser humano à luz do evento.