A interpretação de
Derrida, ao identificar a fenomenologia com a metafísica da presença, argumenta que
Husserl, apesar de ter reconhecido a autonomia da significação em relação à intuição, recua diante das consequências desse reconhecimento e subordina a significação ao telos da visão, mantendo-a, assim, no horizonte da presença.
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No entanto, a leitura derridiana parece negligenciar que a significação, nas Investigações, é pensada como uma unidade ideal que pode ser plenamente efetiva sem a necessidade de qualquer preenchimento intuitivo, e que
Husserl critica explicitamente a confusão entre significação e intuição, distinguindo a intenção de significação do seu preenchimento eventual.
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A autonomia da significação é atestada por sua independência em relação à intuição, e
Husserl afirma que toda expressão tem sua intenção e constitui sua significação independentemente de um preenchimento intuitivo, o que contradiz a tese de que a significação seria limitada pelo telos da visão.
5 - A presença sem intuição
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As Investigações Lógicas estabelecem uma diferença fenomenologicamente irredutível entre intuição e significação, e a significação, como uma unidade ideal, se apresenta como uma objetidade efetiva que não depende da intuição para existir, sendo caracterizada por sua independência e por sua evidência própria.
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Husserl afirma que as significações matemáticas, por exemplo, são pensadas com plena evidência sem a necessidade de uma intuição adequada, e que a evidência não se reduz à intuição, mas também se manifesta na apreensão de significações ideais que se impõem como objetos em si mesmos.
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O texto da Primeira Investigação que
Derrida utiliza para argumentar a favor da subordinação da significação à intuição é, na verdade, uma crítica à opinião da consciência natural, e
Husserl afirma explicitamente que toda expressão tem sua intenção e constitui sua significação, mesmo sem um preenchimento intuitivo, mostrando que a significação é autônoma em relação à intuição.
6 - A evidência da doação
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A “percepção” fenomenológica, ao reconhecer a autonomia da significação e a universalidade da intuição, não se limita a um ou outro desses polos, mas remete a uma instância mais originária: a doação, que é o princípio que torna possível tanto a intuição quanto a significação, uma vez que tudo o que aparece é dado.
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A doação, como Selbstgebung, é o “último termo” da fenomenologia, e o princípio dos princípios não privilegia a intuição como tal, mas a intuição como “doadora originária”, de modo que a presença, na fenomenologia husserliana, não se reduz à intuição, mas se fundamenta na doação universal do fenômeno.
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A doação, ao preceder e condicionar tanto a intuição quanto a significação, constitui a verdadeira “percepção” transcendental, e a metafísica da presença se consuma quando a doação é elevada ao princípio universal, de modo que ser, para a fenomenologia, equivale a ser dado em pessoa.
7 - A doação como questão
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Heidegger, ao reconhecer nas Investigações Lógicas o “solo” para a questão do ser, enfatiza que o decisivo não é a intuição categorial em si, mas o fato de que o ser é dado, e que
Husserl, embora tenha alcançado a doação do ser como fenômeno, não a interrogou em sua essência, permanecendo aquém de uma verdadeira questão sobre a doação.
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A intuição categorial, para Heidegger, é apenas uma indicação da doação do ser, e a fenomenologia husserliana, ao nomear essa doação como intuição, cobre o abismo da doação com um conceito tradicional, sem perceber que a doação é aquilo que deve ser pensado, e não apenas constatado.
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A doação, para Heidegger, abre a possibilidade de pensar o ser para além da metafísica da presença, pois ela não se reduz à presença, mas é o que torna a presença possível, e a questão da doação se torna a questão do próprio ser, na medida em que o ser se dá como fenômeno.