Essa doação se entende como envio destinal, um clarear que se manifesta como o oferecimento clareante da região quadridimensional, o Quadripartido, que conjuga divindades e mortais, céu e terra, de modo que o doar não admite doador algum além do próprio Quadripartido — tal como o pintor, diante da tela, não busca nela nenhum doador, mas apenas o que a tela mesma “dá” ao aparecer
-
Nesse modelo, próprio da Ereignis, o dom se confunde com a apropriação de Tempo a Ser, e portanto de ente a Ser, sem distância alguma
Na segunda acepção, o dom se entende a partir da doação tal como a realiza o doador, preservando não a apropriação, mas a distância — esse afastamento que só separa definitivamente na medida em que unifica, pois o que a distância dá consiste no próprio afastamento, percorrido pela doação ao remeter incessantemente o dado a um doador que o dispensa como um envio destinado a um reenvio
A distância organiza o afastamento íntimo entre o doador e o dom, de modo que o próprio recuo do doador no dom se lê sobre o dom, que se reporta absolutamente ao doador, num jogo sem trégua de envio e reenvio em que os termos se unem tanto mais quanto jamais se confundem, pois a distância que os separa constitui também o que eles trocam
Esse outro modelo do dom pode deslocar o Ser/ente ao despropriar nele o que a Ereignis apropria — o ente permanece em sua apropriação ao Ser, mas a distância o inclui, além disso, noutra circulação, noutra doação, de sorte que o ente, e portanto também a ousia, se descobrem retomados a partir de outra mira
Poder-se-ia objetar que essa inclusão do Ser/ente na distância regride até fazer do outro termo da distância uma causa ou um ente “criador” — objeção que só se sustenta se não se pensa a distância propriamente, a qual implica um afastamento irredutível, uma despropriação, que separa totalmente os termos que nela jogam envio e reenvio
Assim, com a ousia do filho pródigo, nada menos que o Ser/ente entra na distância e na doação, enquanto o outro termo, “enigmático”, permanece para sempre estranho, sem receber o nome de Ser nem de nenhum ente, ainda que se possa nomeá-lo Du, cruzando-o com a cruz que só o revela no desaparecimento de sua morte e ressurreição
O outro termo da distância não precisa ser nem receber nome algum de ente, pois Du dá — a doação, ao deixar entrever como “isso doa”, oferece o único traço acessível daquele que doa, restando saber apenas qual modelo de dom se adota, apropriação ou distância
Somente na distância a agape pode pôr em doação toda coisa na terra, nos infernos e nos céus, porque só a agape, por definição, não se conhece, não é — mas (se) doa, e no fluxo da agape, como se segue uma correnteza demasiado violenta para remontá-la, tudo segue ao longo da doação, indicando, sem nada apreender, o sentido da distância — mesmo, eventualmente, o Ser/ente
Por isso Du não se diz como ente, nem como Ser, nem por uma essência, sendo espantoso que a metafísica, a partir de
Descartes, tenha podido pensar Du a partir da causalidade eficiente, impondo-lhe como primeiro nome causa sui, ao passo que, tanto por Dionísio o Místico quanto por
Nietzsche, redescobre-se que não é evidente que uma ousia ou um conceito possa determinar Du seja no que for
Resta entrever, se não com Heidegger ao menos à sua leitura e, se necessário, contra ele, que Du não releva do Ser/ente, e que o próprio Ser/ente releva da distância — relevar não significando abolição nem continuação, mas retomada que ao mesmo tempo ultrapassa e mantém — de modo que nenhum dos nomes divinos esgota Du, cabendo à predicação ceder lugar ao louvor, que também sustenta discurso
O longo percurso permite enfim esboçar uma resposta à pergunta inicial sobre a dignidade do silêncio diante de Du — todo silêncio que permanece inscrito na banalidade, na metafísica ou mesmo no Ser/ente, e até numa teologia esquecida dos nomes divinos, oferece apenas ídolos mudos, pois não basta calar-se para escapar à idolatria, já que ao próprio ídolo pertence calar-se e deixar os homens emudecerem quando já não têm nada a dizer
O silêncio conveniente ao Du que se revela como agape em Cristo consiste em calar-se por e para a agape, concebendo que, se Du doa, dizer Du impõe receber o dom e, uma vez que este só advém na distância, restituí-lo, pois restituir o dom, jogar em redundância a doação impensável, não se diz, mas se faz — o amor, ao fim, não se diz, se faz, e só então pode renascer o discurso, mas como um júbilo, um louvor
Mais modestamente, o silêncio conveniente a Du impõe saber calar-se, não por agnosticismo — o apelido polido do ateísmo impossível — nem por humilhação, mas simplesmente por respeito, devendo-se, mesmo contra si, preservar essa impotência como o rastro de um possível, guardando o silêncio como um tesouro ainda preso na ganga que lhe ofusca o esplendor, mas que não lhe compromete o brilho futuro
Esse silêncio, e nenhum outro, sabe onde se encontra, a quem cala e por que deve, ainda por algum tempo, preservar uma decência muda para se libertar da idolatria, e se fosse possível entrever ao menos o esboço daquilo por que a agape excede tudo, inclusive o Ser/ente, então o silêncio poderia fazer tornarmo-nos, um pouco, “enviados, arautos do silêncio divino”