Heidegger

STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.

Uma introdução à Filosofia de Heidegger

O filósofo e seu tempo

1. Nascido em 1889 em Messkirch, no sul da Alemanha, filho do sacristão e tanoeiro local, Heidegger cresceu numa região dividida entre velhos católicos, que recusavam o dogma da infalibilidade papal, e católicos ortodoxos, sofrendo discriminação social e escolar por pertencer à família pobre destes últimos, até ser acolhido por instituições católicas que desejavam vê-lo sacerdote.

2. A inadaptação aos internatos jesuíta e dominicano em Freiburg levou-o a abandonar a Teologia pela Filosofia medieval, o neokantismo, os neoaristotélicos e a fenomenologia, ainda que a Igreja mantivesse a esperança de vê-lo ocupar a cátedra da concordata em Freiburg como especialista em Filosofia grega e medieval.

3. O casamento com uma protestante formada em Economia e a inclinação para Husserl e a fenomenologia afastaram definitivamente Heidegger da cátedra sob controle romano, somando-se a isso as querelas provincianas e a rigidez católica da Floresta Negra, sem que, contudo, o filósofo se tornasse um ressentido, chegando a ser chamado de apóstata no fim dos anos 20.

4. Como docente, Heidegger desenvolveu, a partir de sólida formação clássica e medieval, novos campos fenomenológicos como o conceito de mundo, a categoria de vida e a hermenêutica do Dasein, tornando-se assistente de Husserl a partir de 1920 num contexto marcado pela leitura de Kant e Aristóteles.

5. A publicação de Ser e tempo em 1927 surpreendeu o público filosófico ao apresentar, na primeira parte, as seções Ser-aí e cotidianidade e Ser-aí e temporalidade, permanecendo não publicada a terceira seção, Tempo e ser, projeto do qual o filósofo posteriormente desistiu, restando a obra sem outras publicações relevantes até Kant e o problema da metafísica (1929).

6. Segundo Tugendhat, Ser e tempo trazia, de um lado, a inclinação a construir um fosso intransponível entre suas novas concepções e a tradição e, de outro, reunia o maior número de questões filosóficas relevantes de qualquer obra do século, evidenciando-se nos primeiros anos as posições provocativas do filósofo como ontólogo contra as ontologias, como pensador transcendental contra Kant e os neokantianos, como fenomenólogo hermenêutico contra a fenomenologia transcendental husserliana, e como pensador da analítica existencial contra as antropologias de seu tempo.

7. Transferido para a cátedra de Husserl em Freiburg em 1928, Heidegger participou ativamente dos debates universitários, revelando no confronto com o neokantiano Cassirer, em Davos (1929), postura autossuficiente e agressiva contra a Filosofia acadêmica e a cultura ocidental, sinal de sua ambição de participar da reforma universitária.

8. Nomeado reitor de Freiburg em 1933, Heidegger demitiu-se dez meses depois em protesto às exigências do regime nazista, movendo-se nos anos seguintes numa ambiguidade entre crítica ao regime e esforço de compreender seu sentido profundo, como evidenciado na conferência de 1936 no centenário da Universidade de Heidelberg, em que lamentou a ausência de Hitler, e nos volumes sobre Nietzsche, que trazem crítica sutil e indireta ao regime, a ponto de seus cursos serem vigiados pelo serviço secreto.

9. Dedicado intensamente à escrita a partir de 1936, Heidegger ocupou-se em pôr a limpo seus manuscritos com o irmão Fritz, tendo salvo, em 1945, dois baús de ferro com mais de cem volumes numa gruta do Alto Danúbio diante do bombardeio aliado.

10. Ocupada sua casa em 1946, quando Karl Jaspers chegou a sugerir a desmontagem de sua biblioteca e sua proibição de contato com a juventude, Heidegger sofreu mal-estar durante a entrevista de desnazificação e foi internado por meses num sanatório próximo a Freiburg, lutando até 1949 pela aposentadoria como professor emérito.

11. Retomando conferências públicas a partir de 1950 na Academia de Ciências de Munique, com a publicação de Sendas perdidas, Heidegger manteve intensa correspondência com filósofos e cientistas, destacando-se a relação com Jean Beaufret e seu grupo francês, particularmente na Carta sobre o Humanismo.

12. A organização de sua obra conjunta, iniciada nos anos 60 e editada a partir de meados dos anos 70, inaugurou a chamada era Heidegger, falecendo o filósofo em Freiburg em 26 de maio de 1976.

Ensaio sobre o filósofo

13. A base de toda a extensa obra heideggeriana encontra-se em Ser e tempo e numa dezena de livros correlatos, situando-se na primeira seção, Ser-aí e cotidianidade, a pergunta pelo sentido do ser articulada com a análise do modo de ser humano, revelando-se a insuficiência da ontologia tradicional diante da constatação de que o homem existe segundo existência, faticidade e decaída, compreendendo-se sempre em direção ao passado e ao futuro.

14. A ontologia tradicional pensava tudo como presença, opondo ser e tempo, ao passo que no ser humano esses conceitos se encontram sob outro sentido, constituindo-se o ser do ser-aí como cuidado, estruturado pelo ser-adiante-de-si-mesmo, já-ser-em e junto-das-coisas, sendo a temporalidade o sentido do ser do ser-aí.

15. Distinguem-se as categorias, próprias das coisas, dos existenciais, próprios do ser humano enquanto ser-aí, cujo modo de ser não é um “quê”, mas um “quem”, analisado em seu modo cotidiano inautêntico do “a gente” (das Man), ao qual Heidegger opõe o modo autêntico de projeção em direção às próprias possibilidades, descrito na segunda seção, Ser-aí e temporalidade.

16. A terceira seção da primeira parte, Tempo e ser, destinada a mostrar o tempo como horizonte do sentido do ser, jamais foi escrita, permanecendo questão viva ao longo de toda a obra heideggeriana, ainda que esboçada nos Problemas fundamentais da fenomenologia (GA24).

17. A retomada do horizonte do sentido do ser como história do ser produziu Contribuições à Filosofia (Do acontecimento-apropriação) (GA65 1936-1938), obra que revisa Ser e tempo e marca a viravolta (Kehre) entre o Heidegger I e o Heidegger II, voltado à interpretação da tradição como história do esquecimento do ser.

18. A superação da metafísica no Heidegger II não significa seu fim, mas reinterpretação, exemplificada no conceito de transcendência, que deixa de significar ultrapassagem em direção a um ente eterno para constituir-se como condição fundamental do Dasein, jogado na existência e dotado de faticidade, interligando-se transcendência, temporalidade e liberdade.

19. Segundo Heidegger, essa unidade entre temporalidade e finitude também teria sido alcançada por Kant na Crítica da razão pura, que, contudo, recuara ao ver a possibilidade de fundamentar a razão na temporalidade, renunciando ao primado da razão como pilar da metafísica ocidental.

20. Ao apresentar o homem como ser-no-mundo, Heidegger conclui que a Filosofia é tarefa humana e que a questão do ser é questão do homem finito, resumida na afirmação “tão finitos somos nós que necessitamos do conceito de ser para pensar”.

21. A libertação proporcionada por essa compreensão não implica abandono da lógica, da racionalidade ou da verdade, mas exige partir do que já sempre se é, situando o ser humano entre um não-mais e um ainda-não, como navegante de alto-mar sem porto de origem ou destino certos.

22. A transformação heideggeriana pode ser interpretada como revolução paradigmática que atinge os lugares centrais da tradição filosófica, criticando a fundamentação ontológica, o objetivismo greco-medieval, as teorias da relação sujeito-objeto e a busca de condições de possibilidade na subjetividade.

23. A analítica existencial supera a entificação do ser, antes confundido com um ente determinado em cada época metafísica (Ideia, substância, cogito, eu transcendental, saber absoluto), passando-se a falar da compreensão do ser vinculada ao ser-aí, segundo a fórmula “só há ser enquanto há Dasein”.

24. Heidegger introduz a diferença ontológica entre ser e ente, articulada com o círculo hermenêutico, não havendo fundamentação em nível ontológico, mas uma boa circularidade da qual decorrem os dois teoremas da finitude: a diferença ontológica e o círculo hermenêutico.

25. Ao lado da verdade dos enunciados, Heidegger introduz a verdade existencial como desvelamento (Unverborgenheit), condição de possibilidade da união sujeito-objeto, afirmando que não é o enunciado o lugar último da verdade, mas a verdade como abertura o lugar do enunciado.

26. Distinguem-se três modos de pensar — o da Psicologia, o da Lógica e o da Filosofia —, sendo este último condição de possibilidade dos demais por antecipar e abrir o espaço do pensar do ser, produzindo o encontro entre ser e ser-aí onde ocorre a verdade existencial.

27. Supera-se, assim, a objetivação e entificação hegemônicas, descobrindo-se o acontecer como fato primeiro do encontro humano com os entes, mediante método fenomenológico-hermenêutico voltado ao compreender e não ao fundamentar.

28. A ontologia fundamental resultante da analítica existencial constitui o projeto dessas mudanças paradigmáticas, aprendendo-se nela a diferença entre ser, enquanto acontecer, e ente, enquanto fundar, tendo os anos 30 conduzido à interpretação da tradição como história do esquecimento do ser, culminando em Contribuições à Filosofia, e o período pós-guerra inaugurando uma terceira etapa, a do Heidegger III, dedicada à aplicação da Filosofia à arte, poesia, ciência, técnica e cultura contemporâneas.

29. A formação escolástica sólida de Heidegger impediu construções filosóficas aleatórias, tendo a descoberta da fenomenologia husserliana, aliada a impulsos vindos de Aristóteles, da literatura e das epístolas paulinas, conduzido-o a superar os limites metafísicos ainda presentes no método de Husserl.

30. Inspirado pelos pré-socráticos e por termos gregos como physis, alétheia, ousia, lógos e eínai, Heidegger descobriu um desvelamento anterior à objetivação dos entes, exigindo da fenomenologia o exercício de mostrar aquilo que, de si, não se mostra primeiramente e o mais das vezes.

31. A metafísica, ao subsumir tudo sob o enunciado (apóphansis), não percebera o espaço prévio dessa relação enunciativa — o ser —, levando Heidegger a exigir da fenomenologia a tarefa de mostrar esse espaço mediante a compreensão do ser, complementada pela hermenêutica.

32. Essa fenomenologia hermenêutica revela-se tal porque, no mesmo movimento de compreensão do ser, o ser humano compreende seu próprio modo de ser, seu ter-que-ser, assumindo-se como jogado na existência, denominando-se por isso o ser humano como ser-aí (Dasein), lugar de manifestação do ser no mundo de modo prático.

33. A analítica existencial revela a temporalidade como sentido do ser do ser-aí, vinculando-se assim o ser ao tempo, e a finitude torna-se o lugar do ser enquanto ens qua transcendens, concentrando-se a questão do sentido do ser no horizonte temporal.

34. A distinção entre apofântico e hermenêutico estabelece dupla estrutura do algo enquanto algo: o apofântico refere-se ao enunciado, o hermenêutico à compreensão antecipadora, constituindo o antepredicativo a estrutura prévia do compreender e a condição de possibilidade, o a priori, de todo enunciado sobre o ente.

35. Com essa dupla estrutura, Heidegger substitui o esquema sujeito-objeto e a distinção sensível/suprassensível da metafísica por um modo de fundamentação circular, evitando o regresso ao infinito que, segundo a formulação análoga a Wittgenstein, tornaria o fundamentado incapaz de ser verdadeiro ou falso caso fundamentado por outro ente da mesma ordem.

36. A compreensão do ser, que se vela e desvela no ente, constitui condição antepredicativa de acesso ao significado do enunciado, superando as teorias da consciência e da representação e estabelecendo o círculo hermenêutico como lugar de sustentação da diferença ontológica entre ser e ente.

Conceitos-chave

37. À sucessão histórica de conceitos centrais não empíricos da metafísica — idéa em Platão, ousia em Aristóteles, esse em Tomás de Aquino, cogito ergo sum em Descartes, sujeito transcendental em Kant, lógos em Hegel, vontade de poder em Nietzsche —, denominados princípios epocais, Heidegger opõe o ser-em, ser-no-mundo e ser-aí, devendo o conceito de mundo tomar o lugar de noûs, anima, spiritus, ratio e consciência.

38. Substituída a questão do ser pela compreensão do ser, vinculada ao ser-aí como modo do compreender, origina-se o conceito de Dasein, sendo o ser humano o lugar da compreensão do ser, introduzindo Heidegger assim um modo finito de fundação filosófica que substitui a razão como fundamento da tradição.

39. A partir da finitude do ser-aí, e não o contrário, articula-se a transcendência, introduzindo a analítica existencial um modo não clássico de transcendental por meio dos existenciais de afecção ou sentimento de situação (Befindlichkeit) e compreensão (Verstehen), que antecipam a sensibilidade e a inteligibilidade da tradição.

40. Desse novo modo de fundamentação decorreria a segunda parte projetada para Ser e tempo, dedicada à destruição das ontologias tradicionais de Descartes, Kant e Aristóteles, estabelecendo-se, pela analítica existencial, o círculo hermenêutico como teorema essencial do primeiro Heidegger e a diferença ontológica como teorema dominante do segundo Heidegger em Contribuições à Filosofia.

41. As teses centrais de Ser e tempo resumem-se na questão do sentido do ser, resolvida a partir do ser-aí capaz de compreendê-lo; o ser-aí como ser-no-mundo; o ser-no-mundo como cuidado; a estrutura do cuidado revelada na temporalidade; a temporalidade construída ecstaticamente sobre existência, faticidade e decaída (futuro, passado, presente); e o tempo assim entendido como tempo humano, distinto do tempo físico da sucessão de agoras.

Percursos e influências

42. A dificuldade e radicalidade das posições heideggerianas, somadas à publicação fragmentária e solitária de seus manuscritos, impediram a formação de uma escola heideggeriana ortodoxa, ainda que sua influência tenha se estendido amplamente pelo pensamento do século 20.

43. Entre os alunos diretamente influenciados destacam-se Gadamer, autor de Verdade e método (1960), Wilhelm Szilasi, autor de Força e fraqueza do espírito (1946), Hans Jonas, orientado também por Bultmann, e Hannah Arendt, além de Simon Moser, Volkmann-Schluck e Karl Löwith, entre outros nomes como Fink, Landgrebe e Rahner.

44. Entre os ouvintes de seminários do fim dos anos 20 encontram-se Emmanuel Lévinas, José Gaos e professores japoneses como Nishida, tendo Herbert Marcuse escrito sob sua orientação em 1929 sua tese sobre Hegel, e Helene Weiss compilado anotações enviadas a seu sobrinho Ernst Tugendhat.

45. A difusão de Ser e tempo influenciou diretamente Gilbert Ryle, autor de The Concept of Mind, e provocou uma virada no pensamento de Wittgenstein após o Tractatus, tendo Karl Jaspers colaborado pessoalmente na revisão das provas da obra em 1925-1926.

46. Nos anos 30, Sartre escreveu O ser e o nada sob impacto direto de Ser e tempo, e Jean Beaufret tornou-se o principal intérprete de Heidegger na França do pós-guerra, estendendo-se sua influência a Camus, Marcel, Merleau-Ponty e aos pós-modernos Foucault, Derrida, Lyotard, Vattimo e Sloterdijk, além do diálogo crítico com Lévinas e Ricoeur.

47. A analítica existencial impactou também a Psiquiatria e a Psicanálise, por meio de Binswanger, Weizsäcker, Telenbach, Medard Boss (de cuja colaboração surgiu Zollikoner Seminare), Maldiney, Fédida, Lacan e De Waelhens.

48. Na América Latina, a obra foi recebida inicialmente como renovadora da ontologia e do tomismo, depois aplicada à interpretação da arte e da literatura, passando a ser levada a sério, a partir dos anos 60, o método fenomenológico e as questões centrais da analítica existencial.

49. A preocupação heideggeriana com a ciência e a técnica, desenvolvida a partir dos anos 30 e aprofundada após a guerra, contribuiu para o surgimento da deep ecology nos Estados Unidos, ao buscar compreender como ciência e técnica levaram à europeização do mundo e à exploração da natureza como fundo inesgotável de reserva (Bestand).

Bibliografia

50. A edição da obra conjunta de Heidegger, organizada desde os anos 40 e iniciada nos anos 60, dispensou intencionalmente o aparato filológico e os registros críticos por vontade do próprio autor, tendo sido publicado em 1975 o primeiro volume, Os problemas fundamentais da fenomenologia (volume 24).

51. As obras avulsas publicadas fragmentariamente após Ser e tempo foram traduzidas em diversas línguas e países, permanecendo oscilante a qualidade das traduções em língua portuguesa, carentes ainda de um glossário específico, ao contrário do que já existe em inglês, destacando-se, no Brasil, o dicionário traduzido de Inwood como a melhor referência disponível.