Heidegger, negligência do corpo

AHO, Kevin. Heidegger’s neglect of the body. Albany: SUNY Press, 2009.

Introdução

O problema do corpo

Visão geral do capítulo

Capítulo 1 O projeto de Heidegger

Capítulo 2 O diálogo ausente entre Heidegger e Merleau-Ponty

Capítulo 3 Gênero e tempo: sobre a questão da neutralidade do Dasein

Capítulo 4 Vida, logos e a pobreza dos animais

Capítulo 5 O corpo acelerado

Capítulo 6 Recuperando o jogo: sobre autenticidade e habitação

Conclusão: habitação corporificada


O problema do corpo

1. Há mais de cinquenta anos, filósofos franceses vêm criticando o ponto de partida (Ausgang) de Ser e Tempo, especialmente a descrição heideggeriana das práticas cotidianas como acesso (Zugang) inicial à questão do sentido do ser, argumentando que essa análise negligencia quase inteiramente o papel fundamental da percepção e do corpo na compreensão ordinária das coisas.

2. Entre os primeiros fenomenólogos franceses, Merleau-Ponty desenvolveu a crítica mais influente ao estabelecer a primazia da percepção corporal e mostrar que orientação espacial e direcionalidade sensível constituem condições prévias para o manejo dos instrumentos do mundo.

3. A objeção de Krell concentra-se justamente na aparente ausência, em Heidegger, do corpo cotidiano que ergue o braço, dirige o olhar, conduz um automóvel e se põe continuamente em movimento, suscitando a questão das consequências filosóficas dessa omissão para a análise da existência.

4. Ser e Tempo dedica pouca atenção explícita ao corpo vivido (Leib) que se orienta pré-reflexivamente no mundo, alcança instrumentos e se posiciona direcionalmente diante de coisas e pessoas, limitando-se a reconhecer que a espacialização do Dasein possui uma dimensão corporal cujo problema permanece sem desenvolvimento.

5. Heidegger admite que a espacialização do Dasein em sua natureza corporal acompanha determinadas direções, mas reconhece que essa corporeidade encerra uma problemática própria que Ser e Tempo não pretende desenvolver.

6. A crítica merleau-pontyana foi ampliada por interpretações feministas que questionam a neutralidade ou assexualidade (geschlechtslos) atribuída ao Dasein e defendem que as práticas concretas da existência já são atravessadas pela diferença sexual.

7. Outra linha de crítica concentra-se na relação entre seres humanos e animais, sobretudo a partir dos cursos de 1929–1930, nos quais Heidegger distingue comportamento animal (Benehmen) e comportamento ou conduta humana (Verhalten), atribuindo ao animal pobreza de mundo (weltarm) e ao ser humano capacidade de formação de mundo (weltbildend).

8. Essas críticas convergem na ideia de que Heidegger não reconhece explicitamente como o corpo participa da constituição da compreensão cotidiana, o que levaria a concebê-lo como possível existencial (Existenzial), isto é, como estrutura essencial de toda existência do Dasein.

9. A crítica à ausência do corpo depende, contudo, em grande medida, de uma interpretação específica do termo Dasein, pois, em Heidegger, ele não designaria simplesmente existência humana cotidiana ou agência corporal, mas um horizonte histórico de significação que já está aí (Da) antes da emergência do corpo humano e de suas capacidades particulares.

10. O Da de Dasein não significa uma posição espacial de um ente, mas a abertura na qual os entes podem tornar-se presentes para o ser humano e na qual o próprio ser humano pode aparecer para si, sendo essa abertura aquilo que distingue propriamente sua humanidade.

11. Corpo físico (Körper), corpo vivido (Leib) e suas diferentes manifestações só podem ser compreendidos a partir de um horizonte de sentido previamente aberto pelo Dasein.

12. Heidegger parece ter reconhecido progressivamente a dificuldade específica do problema corporal e sua própria incapacidade inicial de tratá-lo adequadamente.

Visão geral dos capítulos

1. O primeiro capítulo apresenta o projeto inicial de Heidegger, introduz conceitos fundamentais retomados ao longo da obra e procura mostrar a continuidade e a coerência de temas presentes em diferentes períodos de seu pensamento.

2. Os capítulos 2, 3 e 4 examinam três críticas centrais relacionadas ao problema do corpo.

3. Apesar de raramente desenvolver uma teoria direta do corpo, Heidegger pode oferecer contribuições relevantes para uma fenomenologia da corporeidade, especialmente por meio da análise dos instrumentos à mão (zuhanden) e dos estados de ânimo que caracterizam a existência moderna.

4. O capítulo 6 procura reconciliar duas concepções aparentemente divergentes de autenticidade em Heidegger: a resolução (Entschlossenheit) de Ser e Tempo e a serenidade (Gelassenheit) desenvolvida posteriormente.

5. O objetivo central não é reconstruir Heidegger como teórico da agência corporal, mas mostrar que suas descrições das práticas concretas funcionam primordialmente como indicações (anzeigen) de estruturas mais originárias de significação.