====== INTERPRETAÇÕES DA RUPTURA E SUA UNIDADE NAS INVESTIGAÇÕES LÓGICAS ====== * A designação de "obra de ruptura" (Werk des Durchbruchs) para as Investigações Lógicas por Husserl em 1913 oculta uma depreciação sob o elogio, indicando que a ruptura é reconhecida apenas como um começo para a fenomenologia posterior. * Este reconhecimento tardio situa o significado da ruptura não em si mesma, mas em relação ao desenvolvimento posterior da fenomenologia, gerando um paradoxo interpretativo. * O paradoxo reside no fato de que o alcance teórico da ruptura de 1900-1901 só é compreendido em referência ao que ela ainda não enunciou, seja para criticar esse deslocamento como uma deriva, seja para afirmá-lo como o caminho correto. * A leitura autêntica da ruptura exige que ela seja lida de acordo com o discurso único das próprias Investigações, independentemente da ortodoxia fenomenológica posterior. * A tarefa interpretativa não consiste primariamente em identificar as teses e os autores criticados, pois os adversários de Husserl permanecem inconscientes da situação metafísica que os determina. * Estudos meramente doxográficos são insuficientes; a ruptura só pode receber sua dignidade propriamente metafísica a partir de uma interpretação já despertada para a essência da metafísica. * Duas problemáticas principais e opostas tentaram situar metafisicamente a ruptura das Investigações, radicalizando-a de modo a abolir o enjeu de uma real colocação em situação. * A primeira interpretação, de Heidegger, focaliza a VIª Investigação e a intuição categorial do ser. * Heidegger vê na intuição categorial husserliana a conquista da doação do ser, uma superação da dissimulação neokantiana e uma abertura para a questão do sentido do ser (Sinn des Seins). * Esta leitura estabelece uma filiação direta, ainda que implícita, entre a ruptura das Investigações e //Sein und Zeit//, na medida em que a primeira possibilitaria a segunda. * Nesta tópica, a ruptura antecipa a destruição da ontologia e realiza o fim da metafísica, perfurando para além dela. * A segunda interpretação, de Derrida, focaliza a Iª Investigação e o primado da presença. * Derrida argumenta que Husserl, ao reconduzir a significação ideal a uma intuição de preenchimento, teria perpetuado o primado da presença. * A fenomenologia, contra sua própria intenção, se abismaria em uma última "aventura da metafísica da presença", pertencendo à ontologia clássica. * A superação da metafísica como "metafísica da presença" exigiria, portanto, superar a fenomenologia, jogando o //Anzeichen// (índice) contra o signo significativo. * Nesta tópica, a ruptura não ultrapassa a metafísica, mas a reconduz, prorrogando o primado ontológico da presença. * O conflito entre essas duas interpretações orienta as Investigações em direções opostas, levantando duas questões principais. * A primeira questão concerne o motivo husserliano consciente da ruptura: em que consiste, para Husserl, a ruptura das Investigações, e diz ela respeito direta ou indiretamente à metafísica? * A segunda questão concerne a relação entre as duas leituras: a distinção entre a doação categorial do ser (Heidegger) e a intuição presentificadora (Derrida) oferece uma portada conceitual suficiente para que as leituras se organizem de modo mais sutil, em vez de se confrontarem? * Subjaz a esta questão um problema conceitual fundamental: a característica da doação equivale à característica da presença por intuição? * A resposta à primeira questão exige examinar a autointerpretação de Husserl sobre a ruptura, que reside na exigência de um "hábito anti-natural da reflexão". * A fonte das dificuldades da análise fenomenológica pura está na orientação anti-natural do pensamento e da intuição que ela exige. * Este hábito exige não considerar os objetos como efetivos, mas os atos que os sustentam, reconduzindo as concepções à intuição que lhes corresponde. * O "retorno às coisas mesmas" (//auf die “Sachen selbst” zurückgehen//) se realiza precisamente por meio de intuições completamente desenvolvidas (//vollentfalteten Anschauungen//), que tornam evidente o dado na abstração atual. * A verificação dos enunciados exige sua repetição a partir da intuição efetivamente performada, a partir dos atos, em uma remontagem intuitiva às necessidades essenciais. * A regra do retorno à intuição se aplica universalmente, pois todo pensamento coerente pode se tornar intuitivo. * A autointerpretação tardia de Husserl, no ensaio de Prefácio de 1913, explicita a ruptura como sendo estritamente "intuitiva" (//intuitiv//) em um sentido radical e ampliado, o que constituiria a diferença profunda de seu racionalismo. * Já em 1901, Husserl via a pedra angular (//Grund- und Eckstein//) da fenomenologia em um "alargamento fundamental" (//fundamentale Erweiterung//) dos conceitos de percepção e intuição. * Conclui-se, portanto, que a ruptura consiste na elevação da intuição, como operadora da evidência, ao posto de justificação fenomenológica adequada e determinante (//massgebend//) para todos os enunciados. * Esta conclusão sobre o papel central da intuição suscita duas confirmações que consolidam a interpretação. * A primeira confirmação demonstra a continuidade entre o "retorno às coisas mesmas" e o "princípio de todos os princípios" das //Ideen//. * O ensaio de Prefácio de 1913 afirma que as próprias Investigações professam radicalmente o princípio que concede o direito (//Recht//) àquilo que é visto claramente, à percepção doadora originária. * Este princípio não limita, mas constitui o acabamento e a verdade do retorno às coisas mesmas, pois retornar dos objetos aos atos implica que a intuição originariamente doadora seja uma fonte de direito do conhecimento. * Textos das próprias Investigações, como um argumento da Vª Investigação, antecipam este princípio ao afirmar que o mais certo (//das Allersicherste//) é que o ser-objeto consiste fenomenologicamente em certos atos intencionais. * A introdução ao Tomo II sob o título "Princípio da ausência de pressuposição" (//Prinzip der Voraussetzungslosigkeit//) exige que a meditação se realize como pura intuição de essência, situando a intuição como origem doadora que precede todas as teorias. * A segunda confirmação identifica que a realização deste retorno intuitivo exige um novo conceito de intuição, submetido a um "alargamento fundamental". * A intuição só pode ser o recurso principial de todo conceito se for ela mesma reformada fenomenologicamente, libertando-se dos limites do conceito habitual de intuição sensível. * Embora anunciado desde a IIª Investigação, este redesenho se realiza plenamente apenas na VIª Investigação, que promove um alargamento (//Erweiterung//) inevitável dos conceitos, permitindo falar de intuição categorial e universal. * A realização definitiva deste alargamento ocorre apenas na segunda parte da VIª Investigação, no §45 explicitamente intitulado "Alargamento do conceito de intuição" (//Erweiterung des Begriffes Anschauung//). * Esta estrutura revela a unidade profunda da obra: a Iª Investigação tem um caráter preparatório (//vorbereitenden Charakter//) ao postular o princípio, enquanto a VIª Investigação, a mais madura e rica em resultados, fornece o conceito alargado de intuição que o torna realizável. * A ordem "em ziguezague" da exposição fenomenológica, onde conceitos a serem elucidados são já utilizados, é uma imperfeição irremissível mas necessária, exigindo constante retorno (//zurückkehren//) e confirmação recíproca das análises. * A resposta à questão inicial sobre a essência da ruptura pode, portanto, ser formulada com precisão. * A ruptura das Investigações Lógicas consiste em reconduzir todos os conceitos e objetos à intuição, o que implica um alargamento radical da própria portada da intuição. * A ruptura fenomenológica significa que a intuição, em seu sentido ampliado, dá a ver mais do que parece para um olhar natural, tornando-se a fonte de direito para todo fenêmeno que se apresenta à reflexão anti-natural. {{tag>Marion}}