====== A repetição do "ego" ====== MarionRD * A "destruição" da //res cogitans// em //Sein und Zeit// adquire sua urgência porque o //Dasein// nela reconhece sua própria deficiência e um perigo fascinante ao qual se deve resistir. * A confrontação incessante com o //ego cogito// para demarcar o //Dasein// gera uma rivalidade mimética, onde o vencedor parece, por vezes, marcado pelo vencido. * O //ego cogito//, justamente por ser incessantemente recusado, aparece como enigmático em si mesmo e intimamente ligado ao //Dasein//. * A analítica existencial deste, ao avançar apenas com a "destruição" daquele, confirma sua validade indecisa. * O próprio Heidegger, após a analítica preparatória, esboça a possibilidade de uma retranscrição positiva do //cogito sum//. * Para servir como ponto de partida, o //cogito sum// necessitaria não apenas de uma inversão (//Umkehrung//), mas de uma nova confirmação ontológico-fenomenal (//ontologisch-phänomenale Bewährung//) de seu teor. * O primeiro enunciado seria então: "sum", no sentido de "eu-sou-em-um-mundo". Sendo assim, o "eu sou" na possibilidade de ser em atitude (//cogitationes//) como modos de ser junto ao ente intramundano. * Esta possibilidade indica uma fascinação histórica (//geschichtlich//) da figura cartesiana, que sobrevive à crítica e demanda uma referência. * O projeto de uma //repetição// não-cartesiana do //ego cogito sum// percorre o pensamento heideggériano, de //Sein und Zeit// aos últimos seminários. * Em //Sein und Zeit//, os parágrafos sobre Descartes constituem a primeira tentativa de sair da "prisão da consciência", não para restaurar o realismo, mas para pensar o sentido grego do //ego// (ἐγὼ). * Trata-se de ultrapassar o //ego// em direção ao ἑγὼ, gesto já esboçado no comentário a Protágoras e radicalizado na analítica do //Dasein//. * Esta repetição implica que, na "destruição" da acepção cartesiana, o //ego// não desaparece, mas nasce para sua figura fenomenológica autêntica. * O "novo início" se inaugura com a declinação do //ego// segundo as exigências existenciais, e não metafísicas, da analítica do //Dasein//. * A questão torna-se, então, como a egoidade (//Ichheit//) do //ego// pode atingir sua legitimidade fenomenológica. * A diferença ontológica do //Dasein// funda a possibilidade do pronome pessoal "eu sou". * O //Dasein// é o ente para o qual, em seu ser, está em jogo esse seu ser, que é em cada caso //meu// (//je meines//). * Portanto, a interpretação do //Dasein// deve sempre dizer também o pronome pessoal: "eu sou", "tu és". * O "eu sou" resulta da propriedade do //Dasein// de se colocar em pessoa no jogo de seu próprio ser. * No entanto, o //Eu// (//Ich//) só tem legitimidade como determinação existencial se interpretado a partir da //ipsidade// (//Selbstheit//). * O //Si-mesmo// (//Selbst//) que a resolução reticente desvela é o solo fenomênico originário para a questão do ser do "Eu". * Somente a orientação fenomenal sobre o sentido de ser do poder-ser-Si-mesmo (//Selbstseinkönnen//) autêntico pode elucidar o direito ontológico de caracteres como substancialidade, simplicidade e personalidade. * O //Si-mesmo// torna possível que qualquer pronome pessoal, inclusive o "Eu", possa se dizer autenticamente. * Inversamente, o //Dasein// na postura do //Man// pretende apegar-se ao //Eu//, que é então uma "aparência de um Si-mesmo" (//scheinbare Selbst//). * O fenômeno do //Si-mesmo// torna-se visível na fenomenalidade do //cuidado// (//Sorge//). * A expressão "cuidado de si" (//Selbstsorge//) seria uma tautologia, pois em todo cuidado é precisamente de //si// que o //Dasein// cuida. * Neste contexto, o "eu sou" encontra seu lugar fenomenológico correto: ele põe em obra o cuidado de si do //Si//, conforme o cuidado como ser do //Dasein//. * O "eu sou" intervêm em momentos-chave da analítica para marcar a //minhidade// (//Jemeinigkeit//), o fenômeno da //dívida// (//Schuld//) e a //abertura// (//Erschlossenheit//) do //Dasein// na resolução. * Ele marca a minhidade: "o ente que denominamos //Dasein//, eu o sou em cada caso mesmo (//bin ich je selbst//)". * Ele é o predicado do "ser-culpado": "o essencial aqui é que o 'ser-culpado' surge como predicado do 'eu sou' (//ich bin//)". * Ele expressa a abertura autêntica na resolução: "o Si-mesmo que este ente é enquanto 'eu sou' (//als 'ich bin'//)". * O //Eu// único pode se desdobrar fenomenologicamente de duas maneiras opostas, correspondendo às posturas autêntica e inautêntica do //Dasein//. * De modo inautêntico (cartesiano): como a identidade e constância (//Selbigkeit und Beständigkeit//) de um ente //à mão// (//vorhanden//), caracterizado pelo conceito ontológico de //substância//. * De modo autêntico (existencial): como e a partir do //Si-mesmo// (//Selbst//), portanto, da minhidade que põe em jogo o //Dasein// em seu ser. * O acesso do //Eu// ao seu estatuto não-cartesiano se dá na oposição entre a irresolução inautêntica e a //ipsidade// (//Selbstheit//) lida existentialmente sobre o poder-ser-si-mesmo autêntico. * A "constância do Si-mesmo" (//Ständigkeit des Selbst//) e a "constância-de-si" (//Selbst-Ständigkeit//) não significam um fundamento constantemente //à mão//, mas a //resolução antecipadora// (//vorlaufende Entschlossenheit//). * Conclui-se que o //Eu// pode tanto precisar ser "destruído" quanto poder ser "confirmado", dependendo de qual determinação do //Dasein// o repete. * Inautenticamente, à maneira cartesiana da //res cogitans// persistente. * Autenticamente, à maneira da resolução antecipadora, da estrutura do cuidado, da minhidade do //Dasein//. * O //ego cogito// deixa de ser uma tese metafísica a refutar para tornar-se o //território mesmo// que o //Dasein// deve conquistar e reinterpretar. * A relação entre //ego// e //Dasein// revela-se, portanto, como uma luta pela interpretação de um mesmo fenômeno: "eu penso", "eu sou". * Esta luta coloca Descartes e Heidegger como intérpretes um do outro, mais do que como intérprete e interpretado. * Esta nivelamento suscita novas interrogações sobre a determinação do //Eu// e da //ipsidade//. * Questões internas a //Sein und Zeit//: A determinação do "eu sou" pela //ipsidade// é completa? A //ipsidade// define-se suficientemente pela estrutura do cuidado? Ela atinge todos os entes ou apenas o //Dasein//? * Questões que ultrapassam //Sein und Zeit//: O //Eu// atesta sua última base na função de "eu sou", fenomenologicamente realizado como //Da-sein//? O que se põe em jogo no //Eu// esgota-se necessariamente em termos de //ser//? No //Eu//, está em jogo primeiramente seu //ser//, ou, mais originariamente, uma //mise en jeu// anterior? É permitido, apesar do silêncio de //Sein und Zeit//, colocar esta questão?