====== A figura de Descartes na trajetória de Heidegger ====== MarionRD * A confrontação com Descartes possui uma presença massiva e estruturante no percurso intelectual de Heidegger, contrariando a percepção de sua secundaridade na literatura secundária. * Esta presença é atestada por uma continuidade cronológica excepcional, com referências extremas que vão de 1921 a 1974. * Tal permanência textual exige uma compreensão conceitual, pois a mera abundância de referências só se torna inteligível pelas razões filosóficas que a motivam. * A primeira interpelação significativa ocorre no curso de inverno de 1921/22, onde Descartes é abordado no contexto de uma crítica à metafísica do eu. * Heidegger identifica em Descartes uma dupla deficiência fundacional. * Apesar de reconhecer a primariedade do //sum//, Descartes não se detém nela. * Ele interpreta previamente o sentido do ser (//Sein//) sob o modo da mera constatação indubitável (//Feststellung//, //Unbezweifelbaren//). * Esta dupla deficiência gera duas consequências históricas e sistemáticas. * O desvio para uma questão de teoria do conhecimento é possibilitado e inaugurado. * O sentido da palavra //sum// permanece para Descartes em um sentido indiferente, formalmente objetivo (//formal gegenständlich//) e não criticamente elucidado. * O cerro da crítica heideggériana inicial reside na inversão da prioridade questionadora. * O peso da questão é colocado tradicionalmente sobre o //ego//, cujo sentido permanece indeterminado (//unbestimmt//). * O peso deveria ser colocado sobre o sentido do //suis//, ou seja, sobre o modo de ser do //sum//. * A determinação do //eu// no //ego cogito// deve derivar do sentido do ser, e não o inverso. * O período de Marburgo é enquadrado por cursos explicitamente dedicados a Descartes, o que sinaliza sua importância decisiva na gênese de //Sein und Zeit//. * O primeiro semestre em Marburgo (1923/24) foi consagrado a uma tomada de posição frente a Descartes, trabalho que posteriormente foi incorporado aos parágrafos 19-21 de //Sein und Zeit//. * O último curso em Marburgo (verão de 1928), sobre Leibniz, confirma esta leitura genealógica e conceitual. * Tanto Descartes quanto Leibniz buscam na dimensão do //ego cogito// a fonte de todos os conceitos metafísicos fundamentais. * Esta via tenta resolver o problema do ser (//Sein//) como problema fundamental através do retorno ao sujeito. * Contudo, este retorno ao //Eu// permanece ambíguo (//zweideutig//), pois o //Eu// não é apreendido em sua estrutura essencial e em seu modo de ser específico. * A interpretação heideggeriana de Descartes opera, portanto, uma inversão radical da leitura tradicional. * A importância determinante de Descartes não reside no estabelecimento do //ego// como princípio, mas no que este gesto dissimula. * A dissimulação primordial é a indeterminação (//Unbestimmtheit//) do modo de ser (//Seinsweise//) desse //ego//. * O //esse// do //sum// é tão indeterminado que cai sob a égide do modo de ser dos objetos. * A interrogação fenomenológica de Heidegger desloca-se assim do proclamado para o oculto. * Ele não interroga o //ego cogito// sobre a origem cogitativa de sua primazia. * Ele interroga primeiramente a indeterminação ontológica do //esse// nele contido. * Esta orientação para o não-manifesto constitui o ponto de partida estritamente fenomenológico do confronto com Descartes. * A presença de Descartes persiste como uma preocupação essencial até os últimos escritos de Heidegger, confirmando uma confrontação conceitual constante. * Em 1969, no Seminário de Thor, Descartes é situado como a figura histórica (//geschichtliche//) decisiva entre os gregos e Hegel, e seu //cogito// é visto como absolutizado por Fichte. * Em 1973, no Seminário de Zähringen, a subjetividade cartesiana é definida como o obstáculo (//Barriere//) ao questionamento do ser. * A subjetividade, como //fundamentum inconcussum// desde Descartes, não é posta em questão quanto ao seu ser. * Ela constitui assim um dique contra o início da pergunta que busca o ser. * Em 1974, em um dos últimos textos, a posição inaugural de Descartes no início do pensamento moderno é reafirmada através de seus tratados metodológicos. * A permanência e a abundância das referências cartesianas exigem, portanto, a elucidação de uma razão conceitual identificável. * A questão que se impõe é qual motivo conceitual conduz e obriga Heidegger, do início ao fim de seu itinerário, a discutir com Descartes. * A resposta a esta questão reside no cerro da crítica inicial: o tratamento cartesiano do //ego// como //fundamentum// que, ao mesmo tempo que inaugura uma era, encobre a questão do ser do ente que somos.