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estudos:zarader:zarader-2000129-131-erklarung-erlauterung-erorterung [16/01/2026 14:40] – created - external edit 127.0.0.1estudos:zarader:zarader-2000129-131-erklarung-erlauterung-erorterung [18/01/2026 18:15] (current) mccastro
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-===== ZARADER (2000:129-131) – Erklärung - Erläuterung - Erörterung ===== +====== Ruptura com a História ======
-Primeiro a definição. É balizada por três vocábulos chave, que só encontram a sua ressonância no alemão: die Erklärung (a explicação), die Erläuterung (a elucidação ou o esclarecimento), die Erörterung (a situação).+
  
-A explicação é o modo de pensamento dominado pelo princípio da razão, modo de pensamento que encontra o seu pleno desenvolvimento na ciência moderna, mas que já reina secretamente na metafísica. Na medida em que está como onto-teo-logia, funde o sendo no seu ser, e o ser num sendo supremo, é toda a procura metafísica do fundamento que pode estar, a bem dizer, assente na explicação ôntica: torna-se «uma técnica de explicação das causas supremas».+MZDI
  
-Mas é com certeza explicação que visa dar conta e razão de tudo, só pode por isso mesmo — falhar naquilo que essencialmente se revela ao qual não saberíamos dar razão: aquilo que escapa qualquer «fundamento».+  * A estrutura cindida da história do Ocidente em Heidegger 
 +    * A história do Ocidente organiza-se partir de uma cisão fundamental entre aquilo que foi efetivamente pensado pela tradição metafísica e aquilo que, permanecendo impensado, condiciona silenciosamente essa mesma tradição. 
 +    * Essa cisão não constitui um déficit contingente do pensamento histórico, mas o princípio estrutural que governa narrativa heideggeriana da história do ser.
  
-É a razão pela qual, Heidegger opõe-se a este pensamento explicativopróprio da metafísica, um outro pensamento que não pretende — subindo cadeia das causas e dos efeitos — dominar a coisa, mas sim recebê-la, deixá-la vir E visto que só vem na sua (129) palavraeste outro pensamento irá necessariamente estender-se sob forma de escutairá então apresentar-se como uma hermenêutica. É ela que designa os dois termos Erläuterung e Erörterung.+  * Origem e início como momentos não coincidentes 
 +    * A origem do pensamento do ser não se identifica com um início histórico cronologicamente determinávelmas com uma experiência originária de doação que jamais foi tematizada conceitualmente. 
 +    * O início da metafísica, situado na Grécia clássica, corresponde à transformação dessa doação originária em objeto de pensamento, inaugurando primazia do ente em detrimento do ser. 
 +    * A metafísica nasceassimnão como desenvolvimento da origem, mas como sua ocultação inaugural.
  
-Porquê dois termos? Porque linguagem oferece-nos num só gesto duas coisas: aquilo que diz aquilo que não diz; o formulado e o não formulado. A interpretação que tenta esclarecer o formulado na sua diversidade, irá chamar-se Erläuterung. Aquela que pretende situar o não-formulado na sua unidade (que está sempre protegida pela diversidade do dito) chama-se ErörterungOs dois modos de interpretação não estão então, em relação de sucessão (como se um abolisse o outro), mas relembrariam sobretudo as duas faces de uma medalhaou as duas vertentes de um vinco: supõem-se uma à outratal como o diz o reenvio ao não dito e o pensamento ao impensável.+  * A duplicação da história: metafísica e história do ser 
 +    * A história do Ocidente desdobra-se em dois planos heterogêneos: história manifesta da metafísica a história não tematizada do ser enquanto retraimento. 
 +    * primeira apresenta-se como sequência de sistemas conceituais progressivamente determinados pela lógica da presença e da representabilidade. 
 +    * A segunda não segue uma linearidade cronológicamanifestando-se apenas como traçovestígio ou eco no interior da tradição metafísica.
  
-Essas relações entre Erörterung e Erläuterung estão claramente expostas pelo próprio Heidegger. Relembramos o contexto desta exposição. Desde a primeira página da conferência sobre Trakl — justamente chamada «eine Erörterung seines Gedichtes» —, Heidegger distingue entre os poemas especiais (einzelme Dichtungen), na sua rica diversidade e o Poema único (das einzige Gedicht) que permanece por formular, mas que não deixa de ser a «origem da onda», a verdade daquilo que reconhecemos como «ritmo». É este não formulado, que uma vez recolhido constitui o «local» (Ort) para o qual situação irá tender (Erörterung)Como ascender a esse local? partir de poemas especiais. O Erläuterung permitirá esclarecê-losenquanto Erörterung irá questionar unidade secreta que está reservada neles.+  * O esquecimento do ser como destino histórico 
 +    * O esquecimento do ser não constitui um erro pontual ou corrigívelmas o próprio destino que governa história da metafísica desde sua instauração. 
 +    * culminação desse destino encontra-se no pensamento moderno e em Nietzscheonde ser se reduz definitivamente valor, vontade ou disponibilidade técnica.
  
-Isso quer dizerque local (do Poema) é por direito anterior aos lugares que concede (os poemas na sua diversidade); mas o intérprete, esse não pode poupar um movimento de vai vem entre ambos. «Uma boa elucidação pressupõe já situação. É só a partir do local do Poema, que resplandecem e ressoam os poemas especiaisInversamente, uma situação do Poema necessita já de um percurso precursor através de uma primeira elucidação sobre poemas especiais.» E nesse «jogo de trocas», entre Erläuterung e Erörterung que Heidegger vê o essencial do «diálogo» entre pensamento e poesia — pensamento reconduzindo o dito do poeta ao não dito, que é o seu «local» e que só elecomo pensamento pode «situar»(130)+  * A posição liminar do pensamento heideggeriano 
 +    * O pensamento de Heidegger não se inscreve simplesmente como mais um momento da história da metafísicamas ocupa uma posição liminar entre pensamento do ente e a escuta do ser. 
 +    * Essa posição implica uma relação essencial com impensado, que não pode ser tematizado diretamentemas apenas indicado por meio de uma rememoração pensante [Andenken].
  
-Mas se os dois modos de interpretação são por direito indissociáveiso acento (o esforço) de Heidegger serão sempre mais no segundo (Erörterung), na medida certa onde seu pensamento procura sempre mais destacar o não dito e esclarecer o impensávelNesse sentido, o Erörterung, pode de facto aparecer como sendo a última palavra da interpretação. Como entender exactamente aquilo que se desempenha nesta palavra?+  * A delimitação histórica da metafísica 
 +    * A metafísica é concebida como um episódio historicamente determinadocom um início específico a possibilidade de um término. 
 +    * Tal delimitação supõe a existência de um antes e de um depois da metafísica, que não podem ser compreendidos segundo os mesmos critérios conceituais que regem o pensamento metafísico.
  
 +  * As margens não metafísicas da história
 +    * Antes da metafísica, encontra-se uma experiência originária do ser que não assume forma conceitual nem sistemática.
 +    * Após a metafísica, esboça-se a possibilidade de um outro começo, não como superação dialética, mas como transformação do modo de pensar.
 +    * Essas margens não são zonas vazias, mas regiões de resistência ao pensamento objetivante.
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 +  * A insuficiência da genealogia exclusivamente grega
 +    * A narrativa heideggeriana da história do Ocidente concentra-se quase exclusivamente no legado grego, tanto em seu pensamento quanto em seu impensado.
 +    * Essa concentração deixa na sombra outras possíveis fontes originárias que não se deixam reconduzir à matriz helênica.
 +    * A exclusão dessas fontes não se apresenta como mera omissão empírica, mas como limite estrutural do próprio esquema interpretativo.
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 +  * Emergência do problema da herança não grega
 +    * A própria lógica da distinção entre pensado e impensado exige a consideração de um impensado que não pertença à linhagem grega.
 +    * A questão de uma herança não grega surge, assim, não como adição externa, mas como problema imanente à construção heideggeriana da história do ser.
 +    * É nesse ponto que se abre o espaço para a investigação da dívida impensada em relação à herança hebraica.
  
  
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