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estudos:marion:verdade-dada

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 +====== A Verdade Dada ======
  
 +Marion2012
 +
 +  * Resposta evidentemente disponível a esta questão
 +    * Em 1913, Husserl, recordando a distinção entre a "lógica apofântica", encarregada das categorias de significação, e a "lógica formal"
 +    * Consigna a esta última "a objetidade originária", ou a "região lógica do objeto em geral"
 +      * Em suma, o "objeto como tal, um qualquer coisa qualquer"
 +    * Esta resposta levanta quase tantas dificuldades quanto resolve
 +      * O que se deve entender por objeto?
 +      * Como pode-se acessar em geral ao objeto?
 +      * Em que um simples "qualquer coisa qualquer" basta para fornecer uma objetidade correta?
 +    * Que a imprecisão patente dos conceitos de "ser" e de "objeto" proceda precisamente de Husserl
 +      * Ou que este último se limite a herdar da indeterminação mais originária onde a metafísica os deixou (ou antes graças à qual a //ontologia// os construiu)
 +      * Não temos de decidir aqui
 +    * Para nosso propósito, basta notar que atendo-se a estas definições vazias de "ser" e de "objeto", não se chega a estabelecer uma distinção séria e inteligível entre a apofântica (a lógica das significações) e a ontologia formal
 +      * Nem portanto a definir o que, segundo o próprio Husserl, fazia das //Investigações Lógicas// uma "obra de abertura"
 +
 +  * Resta todavia uma outra via
 +    * Sua dificuldade prende-se todavia a que não segue o fio condutor do "ser", nem do "objeto"
 +    * Mas assume-os contornando um e outro graças a uma instância mais radical
 +    * Antes de nomeá-la, apliquemo-nos primeiramente a atingi-la em toda sua evidência paradoxal
 +    * Evidência — justamente, assinala-se de maneira exemplar no célebre § 39 da VI//ª Investigação Lógica//, sob o título "Evidência e verdade"
 +      * Trata-se aí de nada menos que definir a verdade
 +    * Assumindo a dupla herança da metafísica desde os medievais até Kant (a verdade como //Uebereinstimmung//, como //adequatio rei et intellectus//) e de Descartes em particular (a verdade como evidência, portanto como percepção do //ego//)
 +      * Husserl franqueia um passo a mais, decisivo
 +
 +  * Distinção de quatro acepções da evidência, desta percepção da verdade que a fenomenaliza para mim
 +    * Segundo seu próprio comentário, é necessário mesmo distinguir entre estas quatro, dois grupos de duas acepções
 +    * No primeiro grupo, duas privilegiam "o lado dos atos eles mesmos" em benefício do "conceito estreito de verdade"
 +      * A verdade como adequação e a verdade como retidão
 +      * A adequação consiste aqui (sentido n.2) na "relação ideal" ou na "ideia da adequação absoluta" das essências concernidas
 +        * Além do ato empírico contingente de evidência
 +      * A retidão (n. 4) define a propriedade, ao menos ideal, para uma intencionalidade de regular-se sobre a coisa mesma
 +        * Ou ainda de conformar-se estritamente a uma essência
 +      * Estas duas acepções, que permanecem unicamente voltadas para os atos, não dizem ainda o essencial
 +    * Ao contrário, no outro grupo de acepções, trata-se dos "conceitos de ser (ser-verdadeiramente) reportando-se aos correlatos objetivos aos quais pertencem"
 +      * Ou seja, do "ser no sentido da verdade a determinar segundo então [as acepções] 1 e 3, como a identidade do objeto ao mesmo tempo visado e dado (//gemeinten und gegebenen//) na adequação"
 +
 +  * Esta simples equivalência entre o ser (mesmo tomado aqui "no sentido restrito") e a verdade basta já para marcar a grandeza da "abertura" cumprida pelas //Investigações Lógicas//
 +    * Husserl aí renova com efeito com uma tese exemplar de Aristóteles: //to de kyriotata on alethes//
 +    * A verdade não consiste apenas nem primeiramente no juízo sobre o estado de coisas
 +      * Nem por conseguinte no entendimento que julga dele
 +    * Consiste sobretudo, como transpondo o enunciado, no estado de coisas ele mesmo
 +      * Ou seja, no ente, sua disposição e sua manifestação
 +      * Em suma, a verdade se decide decidindo do ente em seu ser
 +    * "A evidência ela mesma é, dissemos, o ato desta síntese de coincidência a mais perfeita. Como toda identificação, é um ato objetivante, seu correlato objetivo chama-se ser no sentido da verdade, ou também verdade (//Sein im Sinne der Wahrheit oder auch Wahrheit//)"
 +    * Pode-se apenas subscrever aqui à leitura que Heidegger impôs desta equivalência
 +      * O ser mesmo se fenomenaliza como tal em um ente dado
 +    * Com efeito, sublinha Husserl, "o ser que (enquanto primeiro sentido objetivo da verdade) entra aqui em linha de conta não deve confundir-se com o ser da cópula no enunciado 'afirmativo' categórico"
 +    * Ora, uma vez que no enunciado predicativo "o ser no sentido da verdade do juízo é vivido e não expresso (//erlebt, aber nicht ausgedrückt//)"
 +      * Deve-se inferir que o ser no sentido da verdade (e não no sentido da cópula), se encontra ao contrário, ele, vivido e também expresso como tal — portanto fenomenalizado
 +
 +  * Entretanto a "abertura" a mais radical não se encontra ainda aqui
 +    * Pois resta justificar que o verdadeiro transite e emigre por assim dizer da cópula até instalar-se na posição de ser
 +    * Ou seja, que o verdadeiro não porte apenas sobre o juízo a propósito do objeto (ou melhor do ente, como não o diz todavia Husserl)
 +      * Mas sobre o objeto (o ente) do juízo
 +    * Em suma, como admitir e compreender que a coisa mesma não somente suporta um juízo verdadeiro, mas torne-se ela mesma verdadeira enquanto é?
 +    * Aqui Husserl franqueia um outro passo, mais decisivo que o primeiro (da verdade como verdade do juízo e dos atos à verdade como ser do objeto)
 +      * Este passo conduz do objeto, verdadeiro enquanto ente, ao objeto — verdadeiro enquanto dado
 +
 +  * As duas acepções da verdade privilegiadas por Husserl a título do "conceito de ser reportado aos correlatos objetivos correspondentes" oferecem o traço comum de substituir à noção mesma de objeto (ou de ente), a de dado
 +    * Assim na primeira (n. 1): "Se nos atermos, inicialmente, ao conceito da verdade que acabamos de indicar, a verdade é, enquanto correlato de um ato identificante, um estado de coisas e, enquanto correlato de uma identificação por coincidência, uma identidade: a plena concordância entre o visado e o dado (//die volle Uebereinstimmung zwischen Gemeintem und Gegebenem//)"
 +    * A verdade atinge o estado de coisas por uma identificação não apenas entre uma representação e seu objeto
 +      * Mas doravante entre o visado de uma intencionalidade e o dado
 +      * Mais exatamente a doação (//Gegebenheit//) deste visado, seu ser como ser-dado
 +    * Não é necessário apenas dizer aqui: o ser-dado, como se o ser permitisse ao dado aparecer e o tornasse possível, depois efetivo
 +    * É necessário dizer inversamente o dado antes do ser e mesmo em seu lugar (de onde a omissão de uma menção do ente)
 +      * Porque o ser ele mesmo não se cumpre radicalmente o bastante para impor-se como um fenômeno senão porque se encontra desde logo dado
 +      * Entregue e depositado pela doação, que portanto o precede e o concede
 +
 +  * Na outra definição concernida (n. 3), a mesma substituição tem também lugar
 +    * "Experimentamos (//erleben//) ademais, do lado do ato que dá (//gebendes Aktes//) a plenitude, em [plena] evidência, o objeto dado (//den gegebenen Gegenstand//) no modo do [objeto] visado: ele é o preenchimento ele mesmo"
 +    * Com efeito, o objeto no modo do visado, enquanto objeto de uma intencionalidade, pode chegar à plenitude de preenchimento de um objeto verdadeiro no sentido de ser
 +      * "Ele também pode ser chamado o ser, a verdade, o verdadeiro e isto enquanto é vivido, não como em uma simples percepção [mesmo] adequada, mas a título de plenitude ideal de uma intuição, enquanto objeto verificante"
 +    * Mas precisamente, a esta plenitude da intuição, só acede enquanto se encontra finalmente dado, enquanto um "objeto dado"
 +    * Paradoxalmente, a verdade chega a fenomenalizar o ser (do "ser no sentido da verdade") apenas porque primeiramente o ser mesmo do objeto se encontra retomado diretamente sob a autoridade da doação
 +      * Ao ponto de desaparecer em proveito do "dado"