estudos:marion:tanta-reducao-tanta-dacao
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| + | ===== TANTO MAIS REDUÇÃO, TANTO MAIS DAÇÃO ===== | ||
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| + | //MARION, Jean-Luc. Étant donné: essai d’une phénoménologie de la donation. 2e. ed. Paris: PUF, 1998.// | ||
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| + | * Incoerência interna da terceira formulação e unilateralidade das duas primeiras: os enunciados que a fenomenologia privilegia explicitamente não lhe fornecem seu princípio próprio | ||
| + | * Não se encontraria então nenhum? Ou antes não permaneceria implícito? | ||
| + | * Husserl parece sugerir os dois ao mesmo tempo, quando postula que "é preciso tomar os fenômenos como eles se dão" | ||
| + | * Dar-se-iam então? Neste caso, que significa fenomenologicamente que eles se dão? E se eles se dão, pedem ainda um princípio? | ||
| + | * A menos que esta auto-doação de si não defina precisamente o que lhes serve de princípio | ||
| + | * Para esclarecer esta hipótese, ou ao menos fixar-lhe a instância e os recursos, introdução de uma quarta formulação de um princípio de fenomenologia: | ||
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| + | * Justificação em dois tempos: primeiro pelos textos, em seguida por seu conceito | ||
| + | * A regra que liga por princípio redução e doação, mesmo se não se formula como tal senão hoje, não se repara menos literalmente desde Husserl | ||
| + | * Melhor, o primeiro texto onde a redução se impõe impõe também sua conjunção com a doação: //A Ideia da Fenomenologia//, | ||
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| + | * Enunciados que testemunham a ligação entre redução e doação em Husserl | ||
| + | * "Não é o fenômeno psicológico na apercepção e na objetivação psicológica que é uma doação (// | ||
| + | * O que valida fenomenologicamente um fenômeno como um dado absolutamente não é então seu simples aparecer, mas seu caráter reduzido: somente a redução faz aceder à doação absoluta e não tem outro fim senão ela | ||
| + | * "Em consequência, | ||
| + | * O transcendente se define assim menos por sua transcendência real, que por aquilo que a redução nele mantém ou não de doação: o critério da imanência não reside mais em uma inerência real à consciência segundo uma relação psicológica, | ||
| + | * "Não é senão através de uma redução (// | ||
| + | * As transcendências "nulas [e não ocorridas] para a teoria do conhecimento" | ||
| + | * Mais nitidamente ainda: "... a doação de um fenômeno reduzido (//die Gegebenheit eines reduzierten Phänomens// | ||
| + | * Entre o fenômeno reduzido e sua indubitabilidade, | ||
| + | * Ligação entre redução e doação se encontra então estabelecida, | ||
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| + | * Conceitos de redução e doação corroboram sua ligação: a conquista da redução admite por corolário imediato o desdobramento da doação; a redução só reduz jamais senão à doação, só reconduz senão a ela e sobretudo em seu proveito | ||
| + | * A redução exerce assim perfeitamente os dois sentidos que se pode nela entender: primeiro porque a redução restringe o aparecer ao que nele atinge uma verdadeira doação; em seguida porque ela reconduz o aparecer que se trata de dar até o absolutamente aparecente, o dado absoluto | ||
| + | * A redução exerce como o ofício de um batedor do visível em direção à doação: ela traz de volta os visíveis esparsos, potenciais, confusos e incertos (aparências, | ||
| + | * A redução mede o teor em doação de cada aparência, de modo a estabelecer o direito de aparecer, ou não | ||
| + | * Assim as duas operações de reconduzir ao Eu da consciência e de retornar às coisas mesmas, longe de se contradizerem, | ||
| + | * Mais uma vez, não há doação que não passe ao filtro de uma redução, não há redução que não trabalhe para uma doação | ||
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| + | * Princípio " | ||
| + | * Se se admite, segundo o último princípio, que o fenômeno aparece tanto mais quanto se dá perfeitamente a ver e receber; mas também que ele só pode se dar assim dando-se ao Eu da consciência, | ||
| + | * A redução permite somente reconduzir à instância que recebe a doação | ||
| + | * Assim a ambiguidade do segundo princípio — " | ||
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| + | * A redução, ao reconduzir a aparição ao destinatário ao qual seu aparecer só pode se dar, portanto ao se ordenar à doação, suspende e coloca entre parênteses tudo o que, na aparência, não chega de fato a se dar ou somente se acrescenta ao dado como seu parasita | ||
| + | * A redução separa o que aparece do que não aparece de fato, faz acreditar sua aparição, mima o aparecer nele ligando fraudulentamente uma obscuridade fundamental, | ||
| + | * Este princípio exclui então também a assunção de toda transcendência real, longe de restabelecer algum dogmatismo | ||
| + | * Pois, sempre, a redução só traz de volta o aparecer a ele mesmo, limitando-o estritamente ao que ele dá a ver | ||
| + | * Assim desaparece a ambivalência do primeiro princípio — "Tanto aparecer, tanto ser": aparecer só equivale a ser enquanto este aparecer se reduz precisamente a ele mesmo, portanto enquanto, como aparecer plenário, já cumpre uma doação | ||
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| + | * A redução, ao reconduzir a aparição ao Eu da consciência e ao aparecer ele mesmo, a traz de volta ao seu puro dado; ora este dado se define sem necessariamente recorrer a qualquer intermediário que seja, que diferiria dele | ||
| + | * Em particular, o puro dado se dando não depende, uma vez reduzido, senão de si: a intuição em particular, portanto também a transcendência da intencionalidade que ela preenche, pode nele intervir por vezes, mas não o define | ||
| + | * Pois certas aparições se dão sem intencionalidade de objeto, portanto sem intuição de preenchimento | ||
| + | * E mesmo aquelas que passam por estes intermediários não se resumem a eles | ||
| + | * Com efeito, se a intuição merece um privilégio, | ||
| + | * Somente a lugartenência da doação permite à intuição exercer uma regência da verdade; como tal, a intuição não poderia nada fazer ver, nem perceber, nem mesmo decepcionar, | ||
| + | * Que nos importaria uma intuição e que autoridade lhe reconheceríamos, | ||
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| + | * Limite do " | ||
| + | * A doação passaria então fora da intuição, porque em tais casos esta não poderia mais assegurar a função doadora, contudo indispensável | ||
| + | * A doação só se mede então à sua medida própria, não à da intuição | ||
| + | * Restrição final da terceira formulação — "... sem tampouco ultrapassar os limites nos quais ele se dá" — confessa de fato uma ambiguidade e uma contradição | ||
| + | * Uma ambiguidade porque Husserl nela invoca não os limites da doação, mas os da intuição: a aparição deve ser admitida nos estritos limites de sua intuição | ||
| + | * Donde uma contradição: | ||
| + | * O que se dá, enquanto dado por doação reduzida, se dá por definição absolutamente | ||
| + | * Dar-se não admite nenhum compromisso, | ||
| + | * Ao contrário da intuição, a doação só se reduz a ela mesma e se exerce então absolutamente | ||
| + | * Reduzir a doação significa liberá-la dos limites de toda outra instância, incluindo os da intuição | ||
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| + | * Quarta formulação se erige finalmente em princípio porque fixa que a doação se cumpre pela redução: a operação fenomenológica essencial da redução resulta desta vez, para além da objetidade e da entidade, na pura doação | ||
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