estudos:marion:si-do-fenomeno
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Both sides previous revisionPrevious revision | |||
| estudos:marion:si-do-fenomeno [22/01/2026 11:46] – removed - external edit (Unknown date) 127.0.0.1 | estudos:marion:si-do-fenomeno [22/01/2026 11:46] (current) – ↷ Page name changed from estudos:marion:marion-2010-40-43-objeto-fenomeno-acontecimento to estudos:marion:si-do-fenomeno mccastro | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== O Si do Fenômeno ====== | ||
| + | JLMS | ||
| + | |||
| + | * Esta análise, por rigorosa que se tenha querido torná-la, oferece todavia uma dificuldade ou ao menos uma estranheza | ||
| + | * Faz-nos considerar como um evento o que, de início, passa evidentemente por um objeto — no caso, esta sala | ||
| + | * De que direito interpretar assim um objeto como um evento — uma sala como uma " | ||
| + | * Prosseguindo segundo esta lógica, todo objeto não poderia ao fim descrever-se como um evento? | ||
| + | * Não conviria manter uma distinção mais razoável entre estes dois conceitos? | ||
| + | * E, aliás, o que se ganha com tal interpretação, | ||
| + | |||
| + | * A estas objeções de bom senso, sem dúvida é necessário responder invertendo a questão | ||
| + | * Perguntar, inversamente: | ||
| + | * Ao ponto de que não nos apareça mais que um objeto | ||
| + | * Não mais perguntar: até onde pode-se legitimamente pensar o fenômeno como um evento | ||
| + | * Mas por que: pode-se perder sua fenomenalidade rebaixando-a à objetividade? | ||
| + | * A esta questão em retorno, pode-se responder inspirando-se em Kant | ||
| + | |||
| + | * A primeira das quatro rubricas que organizam a categoria do entendimento e portanto impõem aos fenômenos o quádruplo selo da objetidade concerne a quantidade | ||
| + | * Todo fenômeno, indica Kant, deve possuir, a fim de tornar-se um objeto, uma quantidade, uma grandeza extensiva | ||
| + | * Segundo esta grandeza, a totalidade do fenômeno equivale a e resulta da soma de suas partes | ||
| + | * De onde segue outro caráter, decisivo: o objeto pode e deve prever-se segundo a soma das partes que o compõem | ||
| + | * De sorte que se encontra sempre " | ||
| + | * Isto significa certamente que a grandeza de um fenômeno pode sempre modelar-se em uma quantidade em direito finita | ||
| + | * Portanto inscrever-se em um espaço real ou transcrever-se (por modelos, parâmetros e operações de codificação) em um espaço imaginário | ||
| + | * Isto significa sobretudo que o fenômeno se inscreve em um espaço que podemos sempre conhecer de antemão operando a somação de suas partes | ||
| + | |||
| + | * Esta sala tem uma quantidade que resulta da soma de suas partes | ||
| + | * Seus muros definem seu volume | ||
| + | * Outros parâmetros não extensos (seu custo de fabricação e manutenção, | ||
| + | * Não resta em princípio mais nada nela para a menor surpresa | ||
| + | * O que aparece se inscreverá sempre na soma do que seus parâmetros permitem sempre já prever | ||
| + | * A sala se encontra prevista antes mesmo de ser vista | ||
| + | * Encerrada em sua quantidade, consignada a suas partes, detida por assim dizer por suas medidas que precedem e aguardam a efetividade empírica (a construção) | ||
| + | * Esta redução da sala à sua quantidade previsível faz dela um objeto | ||
| + | * Diante e no qual passamos como se não houvesse nada mais aí a ver | ||
| + | * Nada ao menos que não se possa prever desde o plano de sua concepção traçado | ||
| + | |||
| + | * Assim se dá para todos os objetos técnicos | ||
| + | * Não os vemos mais, não temos mesmo mais necessidade de vê-los, porque os prevemos de longa mão | ||
| + | * Chegamos mesmo tanto melhor a utilizá-los quanto os prevemos sem preocupar-nos de vê-los | ||
| + | * Começamos apenas a dever vê-los quando não podemos mais ou ainda não podemos prevê-los | ||
| + | * Isto é, quando não podemos mais (pane) ou ainda não podemos utilizá-los (aprendizagem) | ||
| + | * Em regime de uso técnico normal, não temos assim que ver os objetos | ||
| + | * Basta-nos prevê-los | ||
| + | * Reduzimo-los ao posto de fenômenos de segunda ordem, de direito comum | ||
| + | * Sem lhes conceder aparecer plenário, autônomo e desinteressado | ||
| + | * Aparecem-nos em transparência, | ||
| + | * Sem deter o olhar nem preenchê-lo | ||
| + | |||
| + | * De que se encontra assim decaído o fenômeno previsto e não visto, o objeto? | ||
| + | * Uma vez que o qualificamos como fenômeno previsto, não seria esta previsão que o desqualifica como fenômeno plenário? | ||
| + | * O que quer dizer aqui " | ||
| + | * Que no objeto tudo permanece de antemão previsto — que nada de imprevisto chega | ||
| + | * O objeto permanece um fenômeno decaído porque aparece como sempre já caído | ||
| + | * Nada mais de novo aí pode sobrevir, pois, mais radicalmente, | ||
| + | * O objeto aparece como a sombra do evento que denegamos nele | ||
| + | |||
| + | * Mas, de golpe, podemos inverter a análise e remontar do objeto, fenômeno em transparência, | ||
| + | * Governada de ponta a ponta pela propriedade de evento | ||
| + | * Conformemente à regra de essência de que o que se mostra verdadeiramente deve primeiramente dar-se | ||
| + | * Esta remontada do objeto ao evento, de fato já a cumprimos descrevendo um fenômeno de direito comum — esta " | ||
| + | * Como um triplo evento segundo o " | ||
| + | |||
| + | * Resta portanto retomar a descrição do caráter de evento da fenomenalidade em geral | ||
| + | * Apoiando-nos doravante sobre fenômenos indiscutivelmente tematizáveis como eventos | ||
| + | * Qualifica-se do título de evento em primeiro lugar os fenômenos coletivos (" | ||
| + | * Tais que satisfazem, ao mínimo, a três notas | ||
| + | * a) Não podem repetir-se identicamente e revelam-se assim precisamente idênticos apenas a si mesmos: irrepetibilidade, | ||
| + | * b) Não podem ver-se consignar uma causa única nem uma explicação exaustiva | ||
| + | * Mas exigem um número indefinido, sem cessar acrescido à medida da hermenêutica que os historiadores, | ||
| + | * Excesso dos efeitos e dos fatos consumados sobre todo sistema de causas | ||
| + | * c) Não podem prever-se, pois suas parciais causas não somente permanecem sempre insuficientes, | ||
| + | * De onde segue que sua possibilidade, | ||
| + | * Ponto decisivo: estas três notas do evento não concernem apenas aos fenômenos coletivos | ||
| + | * Caracterizam igualmente certos fenômenos privados ou intersubjetivos | ||
| + | |||
| + | * Análise de um caso ao mesmo tempo exemplar e em certo sentido banal: a amizade de Montaigne por La Boétie | ||
| + | * Reconhecem-se aí as determinações canônicas do fenômeno como evento | ||
| + | * A amizade com outrem impõe-me primeiramente portar sobre ele um olhar que não siga minha intencionalidade sobre ele | ||
| + | * Mas submeta-se ao ponto de vista que toma sobre mim | ||
| + | * Portanto me coloca no ponto exato onde sua própria visada espera que me exponha | ||
| + | * Esta anamorfose, Montaigne a descreve precisamente | ||
| + | * "Nós nos buscávamos antes de termos nos visto" | ||
| + | * Buscar-se significa que, como rivais se avaliam e se provocam, tentavam ambos situar-se no ponto onde o olhar do outro poderia, por conseguinte, | ||
| + | * Ou seja: "é não sei que quintessência de toda esta mistura, que, tendo tomado minha vontade, levou-a a mergulhar e perder-se na sua" | ||
| + | * Tomo para mim seu ponto de vista sobre mim, sem reduzi-lo a meu ponto de vista sobre ele | ||
| + | * E portanto ele me advém | ||
| + | |||
| + | * De onde, segundamente, | ||
| + | * Sem anúncio nem previsão, segundo uma chegada fora de espera e fora de ritmo | ||
| + | * "E em nosso primeiro encontro nos encontramos tão tomados, tão conhecidos, tão obrigados entre nós, que nada desde então nos foi tão próximo quanto um ao outro" | ||
| + | * Trata-se portanto de um fato sempre " | ||
| + | * Que sua facticidade "por acaso em uma grande festa e companhia de cidade" | ||
| + | |||
| + | * Terceiramente, | ||
| + | * Seu sentido último permanece inacessível porque se reduz a seu fato consumado, a sua incidência | ||
| + | * Esta sorte de acidente não remete mais a nenhuma substância | ||
| + | * Se deve significar mais que si mesmo, este excedente permanece tão inconhecível quanto esta " | ||
| + | * De onde o último traço, que caracteriza o mais perfeitamente a propriedade de evento do fenômeno | ||
| + | * Não podemos consignar-lhe nenhuma causa nem nenhuma razão | ||
| + | * Ou antes, nenhuma outra que si mesmo, na pura energia de sua advinda inquestionável | ||
| + | * "Se me pressionam a dizer por que o amava, sinto que isto não se pode exprimir senão respondendo: | ||
| + | * O fenômeno da amizade se mostra portanto apenas à medida que, como puro e perfeito evento, sua fenomenalidade se impõe no modo do evento tal como se dá sem contestação nem reserva | ||
| + | |||
| + | * Assim, a propriedade de evento que rege todo fenômeno, mesmo o mais objetivo em aparência, manifesta sem exceção que o que se mostra aí chega apenas em virtude de um si estritamente e eideticamente fenomenológico | ||
| + | * Que lhe assegura o único fato de que se dá | ||
| + | * E que, em retorno, prova que sua fenomenalização pressupõe sua doação enquanto tal e a partir de si mesmo | ||
