estudos:marion:o-que-se-mostra
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| + | ====== QUE SE MOSTRA E O QUE SE DÁ ====== | ||
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| + | //MARION, Jean-Luc. De surcroît: études sur les phénomènes saturés. Paris: PUF, 2010.// | ||
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| + | * Todo fenômeno aparece, mas aparece apenas à medida que se mostra | ||
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| + | * Definição do fenômeno como o que se mostra em si e a partir de si | ||
| + | * Heidegger estabeleceu e fez admitir: "o que-se-mostra-em-si-mesmo" | ||
| + | * Deixou largamente indeterminada a maneira pela qual pode pensar-se o si em obra no que se mostra | ||
| + | * Questão: como pode um fenômeno reivindicar desdobrar-se por si mesmo e em si mesmo, se um Eu transcendental o constitui como um objeto? | ||
| + | * Objeto posto à disposição para e pelo pensamento que o governa exaustivamente | ||
| + | * Em tal mundo — o dos objetos técnicos, o nosso em sua maior parte — os fenômenos atingem apenas o posto de objetos | ||
| + | * Sua fenomenalidade permanece assim de empréstimo, | ||
| + | * Para admitir ao contrário que um fenômeno se mostra, seria necessário poder reconhecer-lhe um si | ||
| + | * Tal que tome a iniciativa de sua manifestação | ||
| + | |||
| + | * A questão torna-se desde então saber se e como tal iniciativa de manifestação pode caber a um fenômeno | ||
| + | * Resposta proposta: um fenômeno se mostra apenas à medida que primeiramente se dá | ||
| + | * Tudo o que se mostra deve, para alcançá-lo, | ||
| + | * Todavia, a recíproca não vale exatamente | ||
| + | * Tudo o que se dá não se mostra por isso | ||
| + | * A doação não se fenomenaliza sempre | ||
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| + | * Como localizar o que se dá? | ||
| + | * A doação de si não pode de fato ver-se diretamente | ||
| + | * Pois vê-se apenas o que já se mostra ou, ao menos, no caso dos objetos, é mostrado | ||
| + | * Se a manifestação resulta talvez da doação, a doação deve precedê-la | ||
| + | * Permanece-lhe portanto anterior, ou seja não ainda engajada no espaço da visibilidade | ||
| + | * Por conseguinte, | ||
| + | * Não poderíamos portanto acessar a doação, ao movimento pelo qual o fenômeno se dá, contornando a visibilidade do que eventualmente se mostra aí | ||
| + | * Supondo, certamente, que uma fenomenalidade não objetiva possa assim atestar-se | ||
| + | * Resta portanto apenas uma única via | ||
| + | * Tentar cercar, no espaço da manifestação, | ||
| + | * Ou ainda, liberar as regiões onde o si do que se mostra atesta indiscutivelmente a impulsão, a pressão e por assim dizer o impacto do que se dá | ||
| + | * O si do que se mostra manifestaria indiretamente que se dá mais essencialmente | ||
| + | * O mesmo si, que se localizaria no fenômeno mostrando-se, | ||
| + | * Mais nitidamente, | ||
| + | * Porque este o operaria e, ao fim, faria apenas um com ele | ||
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| + | * Pode-se detectar tal remontada do si fenomenalizante ao si doante? | ||
| + | * Quais fenômenos guardam neles o traço de sua doação? | ||
| + | * Ao ponto de que seu modo de fenomenalização não somente abriria tal acesso ao seu si originário, | ||
| + | * Hipótese propõe-se: tratar-se-ia dos fenômenos do tipo do evento | ||
| + | * O evento aparece bem como outros fenômenos | ||
| + | * Distingue-se dos fenômenos objetivos em que, ele, não resulta de uma produção | ||
| + | * Que o entregaria como um produto, decidido e previsto | ||
| + | * Previsível segundo suas causas e por conseguinte reprodutível segundo a repetição de tais causas | ||
| + | * Ao contrário, advindo, atesta uma origem imprevisível | ||
| + | * Surgindo de causas frequentemente desconhecidas, | ||
| + | * Que não se saberia portanto reproduzir, porque sua constituição não teria nenhum sentido | ||
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| + | * Objeção: tais eventos permanecem raros | ||
| + | * Sua imprevisibilidade os torna precisamente impróprios à análise da manifestação | ||
| + | * Em suma, não oferecem nenhum terreno seguro à investigação sobre a doação | ||
| + | * Podemos colocar em questão este julgamento em aparência evidente? | ||
| + | * Tentativa ao menos, tomando o exemplo de uma indiscutível factualidade | ||
| + | * Desta sala — a Sala dos Atos, onde se realiza, hoje, esta sessão acadêmica | ||
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| + | * Mesmo esta sala aparece, com efeito, no modo do evento | ||
| + | * Objeção: ela se oferece a ver como um objeto | ||
| + | * Quatro muros, um falso teto mascarando uma varanda, um pódio, um certo número de assentos | ||
| + | * Disponíveis como tantos entes permanentes e subsistentes | ||
| + | * Permanecem, aguardando que os habitemos utilizando-os ou que constatemos sua subsistência | ||
| + | * Mas esta permanência em espera significa aqui curiosamente o contrário da disponibilidade objetiva | ||
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| + | * Primeiramente, | ||
| + | * Pois, enquanto sempre já lá, disponível à nossa entrada e nosso uso, esta sala impõe-se a nós como prévia a nós | ||
| + | * Sendo sem nós, embora para nós, que portanto surge à nossa vista como um fato inesperado, imprevisível | ||
| + | * Vindo de um passado incontrolável | ||
| + | * Esta surpresa não surge somente às salas de tal palácio romano | ||
| + | * Frequentemente margeado durante os passeios exteriores de turistas ignorantes ou marchas apressadas de um habitante blasé da Cidade eterna | ||
| + | * Mas das quais, às vezes excepcionalmente convidados a penetrar, descobrimos de um golpe o esplendor imprevisível e permanecido até então não-visto | ||
| + | * Esta surpresa desencadeia-se de fato igualmente para a Sala dos Atos | ||
| + | * Já lá, surgida de um passado que ignoramos | ||
| + | * Restaurada muitas vezes por iniciativas esquecidas | ||
| + | * Carregada de uma história excedendo a memória (trata-se de um antigo claustro arranjado?) | ||
| + | * Impõe-se a mim aparecendo-me | ||
| + | * Entro menos nela do que ela me advém dela mesma, engloba-me e impõe-se a mim | ||
| + | * Este " | ||
| + | |||
| + | * Em seguida, segundo o presente | ||
| + | * Aqui, a natureza de evento do fenômeno desta sala revela-se indiscutivelmente | ||
| + | * Pois não se trata mais da Sala dos Atos enquanto tal, em geral | ||
| + | * Tal como subsistiria, | ||
| + | * Trata-se desta Sala esta noite, preenchida para tal ocasião | ||
| + | * Ouvir tais oradores, sobre tal tema | ||
| + | * A Sala dos Atos torna-se assim uma " | ||
| + | * Ergue também uma cena, que tal ou tal ator pode primeiramente investir, para em seguida reter a atenção | ||
| + | * De uma sala enfim, onde o que advém não são nem os muros e as pedras, nem os assistentes, | ||
| + | * Mas o impalpável evento, do qual sua palavra vai apoderar-se, | ||
| + | * E isto em um momento que, certamente, se intercalará em outras ocasiões | ||
| + | * Outras sessões acadêmicas, | ||
| + | * Mas que não se reproduzirá jamais como tal identicamente | ||
| + | * Esta noite, sobre este tema e nenhum outro, entre nós e nenhum outro, joga-se um evento absolutamente único, irrepetível e, em grande parte, imprevisível | ||
| + | * Pois, neste momento preciso onde digo " | ||
| + | * O que aparece neste momento dado sob nossos olhos escapa assim a toda constituição | ||
| + | * Embora tenha sido organizado, seguindo intenções claras e amigáveis, intelectuais e sociais | ||
| + | * Mostra-se de si mesmo a partir de si mesmo | ||
| + | * E no se de sua fenomenalidade pressionam — melhor, anuncia-se — o si do que se dá | ||
| + | * O "esta vez, uma vez por todas" atesta portanto também o si do fenômeno | ||
| + | |||
| + | * Enfim, no futuro, nenhuma testemunha, por instruída, atenta e documentada que seja, poderá, mesmo depois, descrever o que se passa no instante presente | ||
| + | * Pois o evento desta tomada de palavra concedida por um público consentindo e uma instituição benevolente não mobiliza evidentemente apenas um quadro material | ||
| + | * Ele mesmo impossível de descrever exaustivamente, | ||
| + | * Mas também um quadro intelectual indefinido | ||
| + | * Seria necessário explicar o que digo e o que quero dizer | ||
| + | * De onde o digo, a partir de quais pressupostos, | ||
| + | * Seria necessário também descrever as motivações de cada ouvinte | ||
| + | * Suas esperas, suas decepções, | ||
| + | * Mais, para descrever o que a sala desta Sala dos Atos acolhe hoje como evento | ||
| + | * Seria necessário poder — o que permanece felizmente impossível — seguir as consequências na evolução individual e coletiva de todos os participantes, | ||
| + | * Tal hermenêutica deveria desdobrar-se sem fim e em uma rede indefinida | ||
| + | * Nenhuma constituição de objeto, exaustiva e repetível, saberia ter lugar aqui | ||
| + | * Por conseguinte o "sem fim" atesta que o evento adveio a partir de si mesmo | ||
| + | * Que sua fenomenalidade surgia do si de sua doação | ||
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| + | * Desta primeira análise, precisamente porque se apoia sobre um fenômeno de início simples e banal | ||
| + | * Ressalta que o fato de mostrar-se pode abrir indiretamente um acesso ao si do que se dá | ||
| + | * Pois o evento da " | ||
| + | * Nem responde à nossa espera nem poderá jamais reproduzir-se | ||
| + | * Mas sobretudo que se dá a nós a partir de seu si | ||
| + | * Ao ponto de que nos afeta, nos modifica, quase nos produz | ||
| + | * O evento, não o colocamos jamais em cena | ||
| + | * Nada mais ridiculamente contraditório que a pretensa " | ||
| + | * Mas, ele, na iniciativa de seu si, coloca-nos em cena dando-se a nós | ||
| + | * Coloca-nos em cena na cena que abre sua doação | ||
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