User Tools

Site Tools


estudos:marion:o-doado-de-marion

Differences

This shows you the differences between two versions of the page.

Link to this comparison view

Both sides previous revisionPrevious revision
estudos:marion:o-doado-de-marion [21/01/2026 14:22] – removed - external edit (Unknown date) 127.0.0.1estudos:marion:o-doado-de-marion [21/01/2026 14:22] (current) – ↷ Page name changed from estudos:marion:o-doado to estudos:marion:o-doado-de-marion mccastro
Line 1: Line 1:
 +====== O "Doado" de Marion ======
  
 +//FILIZ, Kadir. Event and Subjectivity: The Question of Phenomenology in Claude Romano and Jean-Luc Marion. Leiden Boston: Brill, 2024.//
 +
 +  * Reconfiguração da subjetividade fenomenológica por Jean-Luc Marion guiada pela análise da fenomenalidade do evento.
 +    * Apresentação de l'//adonné// [o doado] como concepção alternativa de sujeito para sua fenomenologia.
 +    * Transformação do papel do sujeito reflete compreensão de fenomenalidade: modo como fenômenos aparecem determina modo como sujeito os experiencia e a si mesmo.
 +    * Caráter específico da relação entre fenômeno e aquele que o experiencia em cada abordagem fenomenológica molda ideia de fenomenalidade e de seu sujeito.
 +  * Interpretação marioniana da fenomenalidade situa o //adonné//.
 +    * Dois modos de fenomenalidade: //objectness// e //eventness//.
 +    * Status fenomenológico do evento foi desprezado, critérios para ser fenômeno tenderam a seguir condições da //objectness//.
 +    * //Eventness// como modo próprio de fenomenalidade estende alcance da fenomenalidade a fenômenos dados sem condições determinantes prévias.
 +    * Primado do fenômeno dado sobre qualquer outro princípio: doação (//givenness//) como base da auto-exibição de todos os fenômenos.
 +    * Fenômeno definido por doação garante que nada externo a ele desempenhe papel central em seu aparecer.
 +  * Dois modos gerais de fenomenalidade ancorados na ideia de fenômeno como auto-dado, com aspiração de mudar critérios para ser fenômeno, antes configurados pelas regras da //objectness//.
 +    * Regras da //objectness// pressupõem existência de sujeito transcendental para aparecimento do fenômeno.
 +    * Objeto só aparece na medida em que sujeito o constitui; auto-exibição do fenômeno é condicionada por autoridade externa a ele.
 +    * Objeto assume "status alienado" ao ser submetido à regra de um eu constituinte que o define e produz de fora.
 +  * Projeto de remover qualquer autoridade externa da auto-exibição do fenômeno relaciona-se diretamente à compreensão de subjetividade.
 +    * Fenômeno se dá e se mostra apenas confirmando-se como um "si" (//self//), atestado contra toda pretensão transcendental exclusiva do eu.
 +    * Para mostrar-se de modo incondicionado, o "si" do fenômeno requer novo tipo de sujeito.
 +    * Novo sujeito exibiria nova forma de subjetividade, despojada das características que lhe conferiam estatuto transcendental.
 +  * Problematização da noção de "si" (//soi//) do fenômeno em Marion, conforme Shane Mackinlay.
 +    * Uso frequente da noção de "si" do fenômeno para expressar auto-doar-se (//Selbst-gebung//, //donation de soi//) dos fenômenos.
 +    * Ausência de discussão detalhada sobre essa noção na obra de Marion.
 +    * Atribuição de um "si" aos fenômenos funciona como modo de excluir alegações sobre papel da subjetividade na fenomenalidade.
 +    * Referências ao "si" do fenômeno servem para destacar a auto-doação (//self-givenness//) dos fenômenos.
 +  * Fenômeno saturado (//saturated phenomenon//) exemplifica como fenômeno é dado sem condições e não limitado por autoridade além dele mesmo.
 +    * Definido como excesso de intuição sobre intencionalidade, situação em que capacidades subjetivas não são capazes de constituir fenômenos como objetos.
 +    * Modo excessivo de aparecer do fenômeno saturado contradiz condições subjetivas da experiência por não admitir constituição como objeto.
 +    * Marion usa categorias kantianas para destacar caráter dado dos fenômenos saturados, cuja exposição implica reversão de cada categoria.
 +    * Reviravolta do poder determinante das categorias kantianas descreve cada fenômeno saturado como contra-fenomenalidade à //objectness//.
 +    * Condições de possibilidade da //objectness// vêm da ideia da subjetividade transcendental.
 +    * Fenômenos saturados, por não serem objetos, traçam novo alcance de fenomenalidade com base na doação.
 +  * Evento como fenômeno saturado descrito como "fenômeno não-objetivo ou, mais exatamente, não objetificável".
 +    * Além de exemplo de fenômeno saturado, evento tem função paradigmática.
 +    * //Eventness// é modo de fenomenalidade em geral que define "cada tipo de fenômeno saturado" e "o fenômeno como dado em geral".
 +    * Relação etimológica entre palavras alemãs "Begebenheit" (evento) e "Gegebenheit" (doação) sugere considerar se fenomenalidade do evento é paradigmática para fenomenologia da doação.
 +  * Prioridade do evento em relação a outros fenômenos saturados devido à sua perfeita concordância com o caráter dado do fenômeno descrito por Marion.
 +    * Doação sobrepõe tanto o dado quanto o receptor no próprio evento.
 +    * Não há a priori, nem mesmo a priori passivo, nem aquele do eu transcendental, nem do eu empírico.
 +    * Fenômeno saturado mais original é o evento, que realiza destruição do a priori.
 +    * Evento acontece como único a priori autoimpositivo, de modo que tudo mais acontece através dele.
 +    * Acontecer é, por definição, acontecer a posteriori.
 +    * Único a priori correto reside no a posteriori universal do evento.
 +  * Ênfase de Marion no evento em sua explicação do caráter dado dos fenômenos é crucial em dois aspectos.
 +    * Caracterização do status do evento como "mais original" devido à sua realização paradigmática da doação.
 +    * Modo como evento aparece também é modo de fenomenalidade em geral.
 +    * Seu caráter a posteriori contrasta o modo da //eventness// com o outro modo de fenomenalidade, a //objectness//.
 +    * Evento tem papel central na "subjetivação" (//subjectivation//) do sujeito para Marion.
 +  * Como evento acontece sem condições a priori, papel constituinte do sujeito em seu aparecer não está mais em questão.
 +    * Aposterioridade significa que aquele que experiencia evento torna-se //adonné// porque //adonné// "recebe a si mesmo daquilo que recebe".
 +    * Passagem vai do evento para a subjetivação, não o inverso: ponto de partida para o //adonné// é o evento, não o sujeito.
 +    * Tal compreensão do sujeito contradiz ideia da subjetividade do "eu transcendental" por não ser um lócus do aparecer dos fenômenos.
 +  * Noção de evento como fenômeno saturado mais importante e modo de fenomenalidade com papel vital na subjetivação do //adonné//.
 +    * Evento não permite que compreensão a priori do sujeito – eu transcendental – esteja envolvida em sua ocorrência.
 +    * Por aparecer excessiva e imprevisivelmente, evento não pode ser governado por poderes subjetivos de síntese, constituição ou objetificação.
 +    * Marion critica e desmonta compreensões fenomenológicas anteriores da subjetividade com sua concepção do //adonné//.
 +    * Assim como sua análise da //eventness// implica crítica da //objectness//, sua análise do //adonné// implica crítica de seu oposto, subjetividade transcendental.
 +  * Toda análise da fenomenalidade requer sua própria configuração do sujeito; essa abordagem deriva da transformação heideggeriana do sujeito.
 +    * Heidegger, com //Dasein//, facilita destruição do ego cartesiano e da subjetividade transcendental.
 +    * //Dasein// visa ir além dos limites impostos pela noção de sujeito, pois cada ideia de sujeito implica compreensão ontológica de //hypokeimenon// (//subjectum//).
 +    * Heidegger emprega noção de //Dasein// em vez de pensar ser humano como sujeito, por considerá-la livre de herança ontológica do ego cartesiano ou da subjetividade transcendental.
 +    * Problema da noção de //subjectum// vem de sua origem na noção grega de //hypokeimenon// (subjacente), identificada desde início com conceito de //substantia// ou substância (//ousia//).
 +    * Descartes permitiu que essa noção ontológica se aplicasse a uma existência particular, ao "ego" ou "eu" como "res cogitans".
 +    * Ego torna-se sujeito como ser substancial entre outros seres; privilégio do ego como coisa pensante (//res cogitans//) estabelece sua prioridade ontológica sobre outros seres, coisas extensas (//res extensa//).
 +    * Descartes realiza reflexões fundamentais de suas //Meditações// aplicando ontologia medieval a esse ser (//Seiende//) que posiciona como //fundamentum inconcussum// (fundamento inabalável).
 +  * Definição e função egológica do sujeito servem para determinar concepção filosófica do ser humano de Descartes a Husserl.
 +    * Torna-se "fundamento ontológico" e serve como ponto de partida metodológico para Husserl.
 +    * Heidegger introduz //Dasein// como alternativa ao ego cartesiano e às formas que assume em Kant e Husserl.
 +    * Como novo ponto de partida para ontologia, //Dasein// possibilita questionar sentido do ser (//Sein//), negligenciado na história da filosofia.
 +    * Em vez de ser sujeito e substância, //Dasein// à luz de sua análise existencial guiará investigação sobre sentido do ser que compõe sua ontologia fundamental.
 +    * Análise existencial heideggeriana do //Dasein// pretende ser mais fundamental que compreensão do ser humano encontrada na antropologia, psicologia e biologia.
 +  * Definição do ser humano nessas disciplinas idêntica à definição de sujeito como substância, sem objetivo de alcançar compreensão ontológica desse ser.
 +    * Análise de Marion do //adonné// pode ser vista como continuação do projeto heideggeriano de superar subjetividade e reformular sujeito, embora objetivos sejam diferentes e muitas vezes conflitantes.
 +  * Christian Sommer interpreta //adonné// de Marion como resultado da "virada teológica" na fenomenologia francesa.
 +    * Relaciona concepção de subjetividade de Marion, como herdeiro de Heidegger e Husserl, com "antropologia fenomenológica", termo emprestado de Hans Blumenberg.
 +    * Blumenberg buscou desenvolver essa noção em contraste com atitudes críticas de Husserl e Heidegger em relação à noção de antropologia.
 +    * //Adonné//, como "sujeito sem subjetividade", fornece nova analítica fenomenológica do sujeito – subjetividade "descentrada" – de modo similar à análise heideggeriana do //Dasein//, mas também envolve tentativa de superar Heidegger e Husserl.
 +  * Objetivo de Marion de superar metafísica e "aproximar-se precisamente de fenômenos de 'outro modo que ser'" abre figura pós-metafísica do sujeito, oposta tanto ao sujeito transcendental quanto ao //Dasein//.
 +    * Projeto de Marion visto como adequado à noção blumenberguiana de "antropologia fenomenológica" como retorno ao pensamento antropológico na fenomenologia através de "dupla releitura crítica de Husserl e Heidegger".
 +    * //Adonné// pode ser pensado em relação à ideia de antropologia fenomenológica de Blumenberg, mas objetivo aqui não é relacioná-los, mas abordar como Sommer vincula //adonné// ao projeto heideggeriano de reinterpretar o sujeito fenomenológico como sujeito pós-metafísico.
 +  * //Dasein// como destruição da subjetividade metafísica e análise de Marion do //adonné// como sujeito descentrado são tematicamente similares.
 +    * Como o //Dasein// de Heidegger, o //adonné// de Marion é uma análise pós-metafísica da subjetividade por não ser mais um //hypokeimenon// e não ter papel constitutivo ou função a priori.
 +    * Crítica do sujeito metafísico moderno e reconfiguração pós-metafísica da subjetividade servirão para guiar compreensão da subjetivação do //adonné// por meio do evento.
 +  * Sequência da análise: primeiro engajar-se com análise de Marion das aporias do sujeito transcendental em Kant e Husserl; depois focar em sua compreensão da nova subjetividade do //adonné//.
 +    * Examinar crítica de Marion à subjetividade; elaborar sua reformulação da "subjetividade" como //adonné//.