User Tools

Site Tools


estudos:marion:metodo-ontologia

Differences

This shows you the differences between two versions of the page.

Link to this comparison view

Both sides previous revisionPrevious revision
Next revision
Previous revision
estudos:marion:metodo-ontologia [21/01/2026 19:03] – removed - external edit (Unknown date) 127.0.0.1estudos:marion:metodo-ontologia [10/02/2026 11:26] (current) – external edit 127.0.0.1
Line 1: Line 1:
 +====== MÉTODO DA ONTOLOGIA ======
 +
 +//MARION, Jean-Luc. Réduction et donation: Recherches sur Husserl, Heidegger et la phénoménologie. Paris: PUF, 1989.//
 +
 +  * O projeto inaugural do pensamento heideggeriano consiste em um //parricídio// fiel que subverte a interdição husserliana, preocupando-se precisamente com a articulação última entre fenomenologia e ontologia proposta nas //Ideen//.
 +    * A relação recíproca é estabelecida em 1927: a ontologia só é possível como fenomenologia, mas a fenomenologia, tomada //sachlich//, é a ciência do ser do ente.
 +    * O curso de verão de 1927 articula três termos: fenomenologia, ontologia e filosofia científica.
 +      * A filosofia busca sua cientificidade como ontologia universal.
 +      * A ontologia, por sua vez, só se torna acessível à filosofia através de um método, que é a fenomenologia.
 +      * A fenomenologia é, portanto, o conceito do método que permite à filosofia realizar-se como ontologia fenomenológica universal.
 +    * Esta operação implica uma dupla inversão em relação a Husserl.
 +      * A fenomenologia perde o estatuto de ciência autônoma e final, regredindo a um estatuto ancilar de método.
 +      * Esta regressão metódica serve à restauração da ontologia como tarefa fundamental da filosofia.
 +  * A atribuição de uma carga ontológica à fenomenologia decorre de uma transformação em seu foco de investigação, decisiva já em 1925.
 +    * A pesquisa fenomenológica é definida como interpretação do ente //em direção ao seu ser//.
 +      * Ela estabelece um ente como tema, mas não se detém nele.
 +      * Ela o questiona na //Hinsicht// (consideração do //rapport//), direcionando o olhar (//Vor-sicht//) para o ser que deve ser lido a partir do ente.
 +    * A "coisa mesma" (//Sache//) da fenomenologia deixa de ser o ente para tornar-se o ente em vista de seu ser.
 +      * A fenomenologia torna-se, assim, um caminho de autotranscendência metodológica, um "caminho através da fenomenologia até o pensamento do ser".
 +  * O critério último do fenomenológico reside não no trato com fenômenos, mas no modo de exposição da sua fenomenalidade.
 +    * Ser fenomenológico significa pertencer ao modo de exibição (//Aufweisung//) das estruturas fenomenais e à sua conceitualidade.
 +    * Consequentemente, a fenomenologia nunca tem a ver com fenômenos simples, mas com a sua fenomenalidade (//Phänomenalität//).
 +    * Esta redefinição levanta duas questões interligadas.
 +      * O deslocamento do ente para o ser coincide com o deslocamento do fenômeno para a fenomenalidade.
 +      * A fenomenologia husserliana satisfaz plenamente a esta definição, dado que ignora aquele primeiro deslocamento.
 +  * A resposta à segunda questão revela o núcleo da crítica heideggériana a Husserl: um //Versäumnis// (//ratage//, omissão) da questão do ser, que tem sua origem em um //Versäumnis// do ser do intencional.
 +    * Husserl retrocede dos objetos transcendentes aos atos imanentes via intencionalidade e //epokhē//, visando a doação absoluta nos vividos da consciência.
 +      * No entanto, os atos funcionam como meio para este fim, sem que seu próprio modo de ser se torne tema de questionamento.
 +      * A maneira de ser dos atos permanece indeterminada.
 +    * A razão para esta omissão é que a questão prioritária para Husserl não é o caráter de ser da consciência, mas a sua constituição como região de uma ciência absoluta.
 +      * Esta ideia diretriz não é uma descoberta fenomenológica, mas herda o ideal filosófico moderno desde Descartes.
 +      * A elaboração da consciência pura como campo temático não resulta de um //Rückgang auf die Sachen selbst//, mas de um retorno à ideia tradicional de filosofia.
 +    * O tratamento do ser da consciência como uma //Urregion// impede o questionamento sobre seu modo de ser não-objetivo.
 +      * Definir a consciência como "esfera da posição absoluta" a compreende a partir da posição, da presença permanente e da subsistência objetiva.
 +      * A distinção regional entre o ser da consciência e o ser do mundo não é uma diferença ontológica de modos de ser, mas uma oposição dentro de uma compreensão comum do ser como objetividade (//Gegenstandsein//).
 +  * Aplicando o critério do verdadeiramente fenomenológico, deve-se concluir que a fenomenologia de Husserl permanece não-fenomenológica em seu fundamento.
 +    * Ao determinar seu próprio campo, ela é //unphänomenologisch//, ou seja, apenas intencionalmente fenomenológica (//vermeintlich phänomenologisch//).
 +    * Para tornar-se radicalmente ela mesma, a fenomenologia deve tornar-se método para si mesma, em direção à sua própria intenção mais própria: o ser do intencional.
 +  * O //tournant// da fenomenologia de Husserl para Heidegger é, portanto, identificável por um índice e sustentado por um deslocamento fundamental.
 +    * O índice é a inversão da relação com a ontologia: de sua abolição para seu acesso via método.
 +    * O deslocamento subjacente é a reorientação do fenômeno para a fenomenalidade.
 +    * A compreensão plena deste giro, no entanto, exige elucidar como o pensamento pode transgredir o fenômeno em direção à sua fenomenalidade, interrogando as definições concorrentes do fenômeno que opõem Husserl e Heidegger.
 +
 +{{tag>Marion}}