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estudos:marion:figura-descartes-em-heidegger

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 +====== FIGURA DE DESCARTES NA TRAJETÓRIA DE HEIDEGGER ======
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 +//MARION, Jean-Luc. Réduction et donation: Recherches sur Husserl, Heidegger et la phénoménologie. Paris: PUF, 1989.//
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 +  * A confrontação com Descartes possui uma presença massiva e estruturante no percurso intelectual de Heidegger, contrariando a percepção de sua secundaridade na literatura secundária.
 +    * Esta presença é atestada por uma continuidade cronológica excepcional, com referências extremas que vão de 1921 a 1974.
 +    * Tal permanência textual exige uma compreensão conceitual, pois a mera abundância de referências só se torna inteligível pelas razões filosóficas que a motivam.
 +  * A primeira interpelação significativa ocorre no curso de inverno de 1921/22, onde Descartes é abordado no contexto de uma crítica à metafísica do eu.
 +    * Heidegger identifica em Descartes uma dupla deficiência fundacional.
 +      * Apesar de reconhecer a primariedade do //sum//, Descartes não se detém nela.
 +      * Ele interpreta previamente o sentido do ser (//Sein//) sob o modo da mera constatação indubitável (//Feststellung//, //Unbezweifelbaren//).
 +    * Esta dupla deficiência gera duas consequências históricas e sistemáticas.
 +      * O desvio para uma questão de teoria do conhecimento é possibilitado e inaugurado.
 +      * O sentido da palavra //sum// permanece para Descartes em um sentido indiferente, formalmente objetivo (//formal gegenständlich//) e não criticamente elucidado.
 +    * O cerro da crítica heideggériana inicial reside na inversão da prioridade questionadora.
 +      * O peso da questão é colocado tradicionalmente sobre o //ego//, cujo sentido permanece indeterminado (//unbestimmt//).
 +      * O peso deveria ser colocado sobre o sentido do //suis//, ou seja, sobre o modo de ser do //sum//.
 +      * A determinação do //eu// no //ego cogito// deve derivar do sentido do ser, e não o inverso.
 +  * O período de Marburgo é enquadrado por cursos explicitamente dedicados a Descartes, o que sinaliza sua importância decisiva na gênese de //Sein und Zeit//.
 +    * O primeiro semestre em Marburgo (1923/24) foi consagrado a uma tomada de posição frente a Descartes, trabalho que posteriormente foi incorporado aos parágrafos 19-21 de //Sein und Zeit//.
 +    * O último curso em Marburgo (verão de 1928), sobre Leibniz, confirma esta leitura genealógica e conceitual.
 +      * Tanto Descartes quanto Leibniz buscam na dimensão do //ego cogito// a fonte de todos os conceitos metafísicos fundamentais.
 +      * Esta via tenta resolver o problema do ser (//Sein//) como problema fundamental através do retorno ao sujeito.
 +      * Contudo, este retorno ao //Eu// permanece ambíguo (//zweideutig//), pois o //Eu// não é apreendido em sua estrutura essencial e em seu modo de ser específico.
 +  * A interpretação heideggeriana de Descartes opera, portanto, uma inversão radical da leitura tradicional.
 +    * A importância determinante de Descartes não reside no estabelecimento do //ego// como princípio, mas no que este gesto dissimula.
 +    * A dissimulação primordial é a indeterminação (//Unbestimmtheit//) do modo de ser (//Seinsweise//) desse //ego//.
 +      * O //esse// do //sum// é tão indeterminado que cai sob a égide do modo de ser dos objetos.
 +    * A interrogação fenomenológica de Heidegger desloca-se assim do proclamado para o oculto.
 +      * Ele não interroga o //ego cogito// sobre a origem cogitativa de sua primazia.
 +      * Ele interroga primeiramente a indeterminação ontológica do //esse// nele contido.
 +    * Esta orientação para o não-manifesto constitui o ponto de partida estritamente fenomenológico do confronto com Descartes.
 +  * A presença de Descartes persiste como uma preocupação essencial até os últimos escritos de Heidegger, confirmando uma confrontação conceitual constante.
 +    * Em 1969, no Seminário de Thor, Descartes é situado como a figura histórica (//geschichtliche//) decisiva entre os gregos e Hegel, e seu //cogito// é visto como absolutizado por Fichte.
 +    * Em 1973, no Seminário de Zähringen, a subjetividade cartesiana é definida como o obstáculo (//Barriere//) ao questionamento do ser.
 +      * A subjetividade, como //fundamentum inconcussum// desde Descartes, não é posta em questão quanto ao seu ser.
 +      * Ela constitui assim um dique contra o início da pergunta que busca o ser.
 +    * Em 1974, em um dos últimos textos, a posição inaugural de Descartes no início do pensamento moderno é reafirmada através de seus tratados metodológicos.
 +  * A permanência e a abundância das referências cartesianas exigem, portanto, a elucidação de uma razão conceitual identificável.
 +    * A questão que se impõe é qual motivo conceitual conduz e obriga Heidegger, do início ao fim de seu itinerário, a discutir com Descartes.
 +    * A resposta a esta questão reside no cerro da crítica inicial: o tratamento cartesiano do //ego// como //fundamentum// que, ao mesmo tempo que inaugura uma era, encobre a questão do ser do ente que somos.
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 +{{tag>Marion}}