estudos:marion:evento-fenomenologia-doacao
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Both sides previous revisionPrevious revisionNext revision | Previous revision | ||
| estudos:marion:evento-fenomenologia-doacao [21/01/2026 05:52] – removed - external edit (Unknown date) 127.0.0.1 | estudos:marion:evento-fenomenologia-doacao [10/02/2026 11:20] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== EVENTO NA FENOMENOLOGIA DA DOAÇÃO ====== | ||
| + | |||
| + | //FILIZ, Kadir. Event and Subjectivity: | ||
| + | |||
| + | === Introdução à fenomenologia da doação de Jean-Luc Marion === | ||
| + | * Embora temas como dom, doação, teologia e Descartes predominem na recepção de Jean-Luc Marion, sua contribuição para discussões sobre evento na fenomenologia contemporânea não foi totalmente negligenciada, | ||
| + | * Renovação da fenomenologia por Marion, a partir da perspectiva do evento, introduz nova categoria de fenomenalidade sob nome de “eventicidade” (// | ||
| + | * Conceito de evento desenvolve-se gradualmente no pensamento de Marion, desde obras iniciais até trabalho posterior //Negative Certainties//, | ||
| + | |||
| + | === A fenomenologia da doação: princípios e redução === | ||
| + | * Meta principal de Marion é liberar fenomenalidade de condições externas que não derivam do próprio fenômeno, afirmando primado da doação (// | ||
| + | * Doação torna-se ponto último para determinação da fenomenalidade, | ||
| + | * Centralidade da doação em Husserl evidencia-se em seu “princípio dos princípios”, | ||
| + | * Redução fenomenológica é redefinida por Marion como “operador da doação”, | ||
| + | * Redução transcendental de Husserl, método fundamental que visa correlacionar consciência e mundo e descrever estrutura intencional do ego, é modificada por Marion em sua “terceira redução”, | ||
| + | * Marion vê redução como fundamento da fenomenologia, | ||
| + | * Três princípios da fenomenologia husserliana (“tanto aparecer, tanto ser”, “Retorno às coisas mesmas” e “princípio dos princípios”) são considerados inadequados por Marion porque não garantem direito do fenômeno de aparecer a partir de si mesmo como dado, subordinando aparência a ser, negligenciando redução ou condicionando doação à intuição, ao ego e ao horizonte. | ||
| + | * Princípio final de Marion, “tanta redução, tanta doação”, | ||
| + | * Terceira redução, redução à doação, distingue-se de redução husserliana ao objeto e redução heideggeriana ao ser por não limitar fenomenalidade aos horizontes da objetidade (// | ||
| + | |||
| + | === As reduções de Husserl e Heidegger como modos limitados de doação === | ||
| + | * Redução transcendental de Husserl visa apreender objeto constituído pela consciência, | ||
| + | * Redução heideggeriana, | ||
| + | * Uso posterior de “//es gibt//” por Heidegger, embora sugira dado de ser e tempo, não destaca conceito de doação (// | ||
| + | * Ambas as reduções oferecem conta limitada da função central da doação, impondo condições de possibilidade sobre o dado; terceira redução de Marion busca desdobrar horizonte da doação para fenômenos, permitindo pluralidade de horizontes sem impor condições à auto-exibição. | ||
| + | |||
| + | === Determinações do fenômeno dado === | ||
| + | * Doação de um fenômeno é ilustrada por meio de “determinações do fenômeno dado”, que explicam caráter da doação no aparecimento: | ||
| + | * Determinações enfatizam novo modo de recepção dos fenômenos, originando-se em sua doação e sendo modos pelos quais fenômenos se manifestam, obrigando //adonné// a recebê-los de acordo com essas determinações. | ||
| + | * Anamorfose destaca como recepção de fenômeno dado provém de “distância (um alhures)” que orienta receptor para o recebido, indicando modo não subjetivo de aparecimento. | ||
| + | * Chegada imprevisível refere-se à chegada súbita e contingente do fenômeno, sublinhando sua individuação singular e não mediação pelos horizontes da objetidade ou sentido do ser. | ||
| + | * //Fait accompli// enfatiza facticidade do fenômeno, impondo finalidades de modo independente de qualquer causa, como exemplificado na amizade entre Montaigne e La Boétie. | ||
| + | * Incidente denota acontecimento na recepção do fenômeno, consistindo em puro surgimento imprevisível e não constituível, | ||
| + | * Evento, como determinação final, possui privilégio de reunir todas as determinações anteriores, sendo fenômeno dado que se mostra a partir de si mesmo com características de acontecimento, | ||
| + | |||
| + | === O dom na fenomenologia da doação === | ||
| + | * Dom é tratado por Marion como exemplo privilegiado de doação, entendido como “dado como dobra da doação”; | ||
| + | * Marion propõe redução ao dom que põe entre parênteses um ou dois de seus três aspectos (doador, presente e receptor), mostrando que dom é governado por regras diferentes das aplicadas a objeto ou ser. | ||
| + | * Derrida argumenta que dom, se identificado como tal, é cancelado ao ser reintroduzido em círculo de troca, afirmando sua impossibilidade fenomenológica, | ||
| + | * Divergência origina-se de diferentes compreensões da capacidade da fenomenologia; | ||
| + | |||
| + | === O fenômeno saturado === | ||
| + | * Fenômeno saturado é categoria central na fenomenologia da doação, visando gerar nova categoria de fenômenos como dados não regidos por horizonte ou ego, possibilitada pela liberação da fenomenalidade de estruturas metafísicas remanescentes em Husserl. | ||
| + | * Fenômenos saturados invertem relação entre intuição e intenção, apresentando excesso de intuição sobre conceito ou intenção, contradizendo definição metafísica de verdade como // | ||
| + | * Marion classifica contribuição da intuição em três níveis: fenômenos pobres (intuição superdeterminada pelo conceito), fenômenos de direito comum (intuição regulada adequadamente pelo conceito) e fenômenos saturados (intuição transborda o conceito). | ||
| + | * Intuição “doadora” é selo da doação, sendo excesso do fenômeno saturado proveniente de superabundância da intuição doadora que enfraquece capacidades intencionais. | ||
| + | * Definição comum de fenômenos como objetos, herdada de Kant e Husserl, subsume fenômenos sob horizonte de aparecimento e ego constituinte; | ||
| + | * Fenômeno saturado ecoa ideia estética kantiana e sublime, mas move centro da fenomenalidade além da objetidade, invertendo categorias kantianas do entendimento para mostrar excesso de intuição. | ||
| + | * Marion associa quatro tipos de fenômenos saturados a categorias kantianas de modo invertido: evento (quantidade), | ||
| + | * Quinto tipo, fenômeno da revelação (Jesus Cristo), é saturado em todos os quatro aspectos, denominado “paradoxo dos paradoxos”. | ||
| + | * Fenômeno saturado é definido como “contra-experiência”, | ||
| + | * Papel paradigmático do fenômeno saturado é atribuído à noção de evento em //Negative Certainties//, | ||
| + | |||
| + | === Fenomenalidade: | ||
| + | * Noção de evento gradualmente ganha importância na fenomenologia da doação, levando Marion a posição radical que entende eventicidade como novo modo de fenomenalidade, | ||
| + | * Tensão em obras anteriores entre evento como determinação da doação e como fenômeno saturado é resolvida com definição de eventicidade como modo de fenomenalidade. | ||
| + | * Papel da hermenêutica, | ||
| + | |||
| + | === Os dois usos do evento em obras iniciais === | ||
| + | * Em //Being Given//, evento aparece tanto como determinação da doação quanto como exemplo de fenômeno saturado, gerando questão sobre coerência dessas duas contas. | ||
| + | * Como determinação da doação, evento mostra “si” do fenômeno, caracterizado por capacidade de produzir-se e mostrar-se por iniciativa própria, suspendendo princípio de causalidade e sendo definido por irrepetibilidade, | ||
| + | * Evento reúne todas as outras determinações da doação, sendo característica da eventicidade agregá-las. | ||
| + | * Como fenômeno saturado, evento excede categoria de “quantidade” kantiana, não podendo ser previsto ou unificado em horizonte individual, exemplificado por batalha de Waterloo com múltiplos horizontes. | ||
| + | * Ausência de explicação abrangente desses dois entendimentos em //Being Given// é suprida em //Negative Certainties//, | ||
| + | |||
| + | === O evento como polo de fenomenalidade em Negative Certainties === | ||
| + | * Marion desenvolve características do evento em oposição às categorias kantianas do entendimento, | ||
| + | * Quanto à quantidade, evento não pode ser previsto, pois não consiste em partes quantificáveis cuja soma forme um todo previsível. | ||
| + | * Quanto à qualidade, evento não se conforma à regra de magnitude intensiva, pois seu grau não pode ser medido, diferindo de objetos tecnológicos redutíveis à forma. | ||
| + | * Quanto à relação, evento suspende princípio de razão suficiente e relação causal, pois seu surgimento imprevisível não depende de causa precedente, e causa só é conhecida posteriormente, | ||
| + | * Quanto à modalidade, evento suspende noção de possibilidade ligada a condições formais da experiência e ao ego transcendental, | ||
| + | * Temporalidade do evento é não apresentável e indisponível, | ||
| + | * Questão do tempo permanece periférica na fenomenologia da doação, com Marion afirmando que tempo é questão de doação, não de consciência. | ||
| + | * Exemplos de eventos fornecidos por Marion incluem passante de Baudelaire, nascimento, batalha de Waterloo e discurso em conferência, | ||
| + | |||
| + | === Eventicidade ou objetidade: o papel da hermenêutica === | ||
| + | * Distinção entre aparecimento de fenômeno como evento ou objeto resulta de decisão hermenêutica, | ||
| + | * Marion não adota distinção kantiana entre fenômenos e númenos baseada em tipos de intuição, mas diversifica intuição segundo relação com conceito, classificando fenômenos em pobres, de direito comum e saturados (eventos) com base no grau de intuição. | ||
| + | * Saturação e eventicidade vinculam-se mutuamente: fenômeno mostra-se mais saturado quanto mais se dá com maior eventicidade. | ||
| + | * Marion recorre à estrutura “como” (// | ||
| + | * Distingue, porém, sua hermenêutica da existencial heideggeriana, | ||
| + | * Hermenêutica dos horizontes proposta por Marion visa distinguir objeto de fenômenos dados primordialmente, | ||
| + | * Decisões hermenêuticas estão em jogo no aparecimento dos fenômenos, sendo possível decidir se fenômeno aparece como evento ou objeto, com eventicidade fazendo justiça à própria definição de fenômeno na fenomenologia da doação. | ||
| + | * Alargamento da fenomenalidade pela eventicidade rejeita autoridade paradigmática da objetidade e proclama prioridade da eventicidade, | ||
| + | |||
| + | === Conclusão: alargamento da fenomenalidade e transformação da subjetividade === | ||
| + | * Eventicidade como polo de fenomenalidade revela alargamento da fenomenalidade, | ||
| + | * Tal alargamento sugere nova racionalidade baseada na eventicidade que suspende qualquer regra a priori sobre fenomenalidade, | ||
| + | * Assim como objeto requer seu sujeito (ego transcendental) para constituição, | ||
| + | * Transformação da fenomenalidade leva diretamente à transformação da subjetividade, | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
