estudos:marion:confronto-heidegger-descartes
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| + | ====== MOTIVO FENOMENOLÓGICO DA CONFRONTAÇÃO ORIGINÁRIA COM DESCARTES ====== | ||
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| + | //MARION, Jean-Luc. Réduction et donation: Recherches sur Husserl, Heidegger et la phénoménologie. Paris: PUF, 1989.// | ||
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| + | * A confrontação heideggériana com Descartes ocorre num contexto onde a fenomenologia husserliana já havia estabelecido uma ligação essencial com o pensador moderno, investindo-o de uma dignidade fenomenológica. | ||
| + | * Esta ligação é evidenciada pelo curso de Husserl no inverno de 1923/24, que via em Descartes um " | ||
| + | * O encontro entre fenomenologia e Descartes antecede Heidegger, remontando pelo menos às conferências de Göttingen de 1907. | ||
| + | * Consequentemente, | ||
| + | * Esta equivalência estabelecida por Husserl pode ser desdobrada em duas direções opostas. | ||
| + | * Uma direção positiva: Descartes é fenomenólogo porque antecipa Husserl. | ||
| + | * Uma direção crítica: a fenomenologia husserliana não é plenamente fenomenológica porque permanece prisioneira de decisões cartesianas não criticadas. | ||
| + | * Heidegger segue desde cedo a segunda direção, utilizando a crítica aos pressupostos cartesianos como via para se distanciar da interpretação husserliana da fenomenologia. | ||
| + | * Descartes torna-se, assim, o //motivo não-fenomenológico// | ||
| + | * A crítica imanente desenvolvida no verão de 1925 nos // | ||
| + | * A questão dirigida a Husserl sobre a determinação do ser da consciência pura é formalmente idêntica à questão dirigida a Descartes sobre o sentido do //sum// no //ego cogito//. | ||
| + | * Tanto em Descartes quanto em Husserl, o estabelecimento de uma prioridade epistêmica (do //ego// ou da consciência) é um feito que, no entanto, deixa na sombra a determinação do //modo de ser// desse termo primeiro. | ||
| + | * Husserl repete Descartes positivamente (na descoberta do fundamento da certeza) e negativamente (na esquiva da questão do ser desse fundamento). | ||
| + | * A tentativa de Husserl de determinar o ser da consciência através de uma citação modificada de Descartes revela a profundidade de sua dependência e os limites de sua análise ontológica. | ||
| + | * Husserl cita os //Principia Philosophiae// | ||
| + | * Esta adaptação (omissão de //alia//, //res// entre aspas) busca evitar estender a // | ||
| + | * Em Descartes, a substancialidade aplica-se tanto à //res cogitans// quanto à //res extensa//, contrariando o privilégio husserliano da consciência. | ||
| + | * Além disso, a substancialidade cartesiana é apenas relativa (depende de Deus), não absoluta como pretende Husserl. | ||
| + | * Estes desvios textuais e conceituais demonstram que a convergência fundamental entre Husserl e Descartes era mais poderosa que qualquer divergência de detalhe. | ||
| + | * Heidegger, ao analisar esta operação de Husserl, desmonta sua pretensão ontológica e revela o desvio fenomenológico que ela encobre. | ||
| + | * A determinação husserliana do ser da consciência como " | ||
| + | * Mais radicalmente, | ||
| + | * A questão primeira de Husserl não era o caráter de ser da consciência, | ||
| + | * Este ideal de uma ciência absoluta não é uma descoberta fenomenológica, | ||
| + | * Portanto, a elaboração do campo temático da fenomenologia não foi conquistada por um //retorno às coisas mesmas// (// | ||
| + | * A crítica atinge seu ápice ao identificar Descartes como o obstáculo que impede a realização plena da fenomenologia. | ||
| + | * A " | ||
| + | * Para que a fenomenologia permaneça fiel a si mesma e avance, ela deve superar este obstáculo, o que implica não apenas deixar Husserl, mas " | ||
| + | * A importância de Descartes para Heidegger deriva, portanto, da radicalidade fenomenológica da questão que ele //não// coloca. | ||
| + | * Pensar Descartes, para Heidegger, não significa repetir ou inverter a instauração do //ego//, mas // | ||
| + | * Destruir o //ego// cartesiano não é aboli-lo onticamente, | ||
| + | * Este gesto de destruição abre o acesso ao //Dasein//. | ||
| + | * O privilégio de Descartes no pensamento de Heidegger é, em última instância, o de ser o obstáculo por excelência que impede a realização ontológica da fenomenologia, | ||
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