estudos:marion:cogitatio
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| + | ====== Cogitatio ====== | ||
| + | //MARION, Jean-Luc. On Descartes’ metaphysical prism: the constitution and the limits of onto-theo-logy in Cartesian thought. Chicago: Univ. of Chicago Press, 1999.// | ||
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| + | **§8. O Primeiro Pronunciamento sobre o Ser dos Entes: Cogitatio** | ||
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| + | 1. A extração de uma ontologia cartesiana retoma-se a partir do ens notum, resíduo plenamente cognoscível que antecipa o ens cogitabile de Clauberg e possibilita uma ontologia; a redução epistemológica de tudo que ocorre ao que pode ser conhecido repete, com um leve deslocamento, | ||
| + | * Descartes é citado quanto ao modo de ser objetivo de uma coisa no entendimento por meio de uma ideia, imperfeito mas não nulo, nem proveniente do nada | ||
| + | * a tradução francesa do mesmo trecho é trazida como desenvolvimento particularmente feliz | ||
| + | * um segundo texto de Descartes reafirma que esse modo de ser, embora bem menos perfeito que o das coisas exteriores ao entendimento, | ||
| + | * a realidade objetiva permanece assim como um esse objectivum | ||
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| + | 2. Ao responder a Burman, Descartes assimila o objeto total da Mathesis a um ente verdadeiro e real, no mesmo sentido em que atribui à física um objeto igualmente verdadeiro e real, pois para ele o ente não se define pela relação com a Φύσις, mas unicamente pela objetividade; | ||
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| + | 3. Alcançada a objetividade, | ||
| + | * outra passagem cartesiana reforça que há sempre uma coisa tomada como sujeito de minha cogitação | ||
| + | * a Regulae permanece operante nas Meditationes, | ||
| + | * a fórmula meae cogitationis, | ||
| + | * é mencionada a formulação de Heidegger cogito me cogitare como desenvolvimento do ego cogito, sem que se busque aqui debater sua autenticidade | ||
| + | * a cogitatio, ao contrário do pensamento simples, não reproduz nem representa puramente o que cognosce, mas o reflete como um espelho convergente que concentra seus raios num único ponto | ||
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| + | 4. Descartes enfatiza que a cogitatio converte em si mesma aquilo que vê, e o ponto único que ela ao mesmo tempo visa e produz recebe o nome de objeto; a curva do pensamento cognitivo implica uma apropriação refletora cuja implicação última é nomeada ego, não como especificação adjunta, mas como o próprio nome próprio da cogitatio. | ||
| + | * sem ego a cogitatio se tornaria pensamento simples, apaziguado e incapaz de produzir um objeto | ||
| + | * o chamado cogito cartesiano — ego cogito, ergo sum — aparece diretamente no exercício de toda cogitatio, na recondução de cada coisa ao estatuto de objectum, sem exigir nova operação de pensamento | ||
| + | * o objeto só se torna ens como cogitatum, e o cogitatum implica por sua vez o ego cogitans | ||
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| + | 5. A tese de que todo objeto como tal, isto é como cogitatum, implica a existência do ego antes e mais essencialmente que qualquer outro ente estabelece uma relação recíproca de fundamentação entre a via do ser dos entes (onto-logia) e a existência do ente por excelência (teo-logia), | ||
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| + | 6. Duas objeções internas ao pensamento cartesiano são levantadas contra essa conclusão: a análise pareceria deduzir a existência do ego a partir da natureza dos objetos, contradizendo a ordem fundamental do método cartesiano que parte de algo mínimo certo e inabalável sem passar pela dúvida nem por um raciocínio discursivo explícito. | ||
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| + | 7. Uma segunda objeção se soma: tal leitura onto-teo-lógica identificaria o ente por excelência com o ego finito, e não com Deus, o que contradiz a intenção teísta explícita de Descartes e o uso recorrente da expressão summum ens, sempre reservada a Deus, nunca ao ego; ensaia-se então uma primeira resposta segundo a qual o modo de pensar que reconduz os objetos diretamente ao ego não deveria surpreender, | ||
| + | * a análise do pedaço de cera é trazida como confirmação clássica: a cera aparece a princípio mais distinta que o cogitans indeterminável, | ||
| + | * essa inversão decorre da redução gradual da cera, e de toda e qualquer coisa, primeiro ao estatuto de objectum e depois ao de cogitatum, obtida pela sola inspectio mentis | ||
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| + | 8. O cogito é extraído da análise do objectum como cogitatum quid, objetivo visado por uma intenção compreendida apenas pela faculdade do juízo; essa implicação estrita do cogito em todo cogitatum não contradiz a demonstração específica da existência do ego que precede, na Meditatio II, a análise da cera, pois ambas permanecem estritamente paralelas. | ||
| + | * a demonstração do ego apoia-se na fórmula ego sum, ego existo, mas este enunciado deve seu privilégio à antecipação do resultado — o que existe tem um nome, ego — e não a alguma relevância particular | ||
| + | * toda operação da cogitatio (duvidar, entender, afirmar, negar, querer, não querer, imaginar e sentir), e mesmo operações do corpo ainda duvidoso como caminhar, permitem alcançar a existência do ego, desde que reconduzidas, | ||
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| + | 9. Os textos clássicos da Meditatio II não fazem depender a existência do ego do enunciado particular ego sum, ego existo, mas do pensamento que efetivamente cogita esse enunciado, introduzindo o performativo cognitivo segundo o qual essa proposição é necessariamente verdadeira sempre que proferida ou concebida pela mente; assim, o pedaço de cera e o ego sum, ego existo, embora diferentes em significado, | ||
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| + | 10. Retoma-se a segunda dificuldade: | ||
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| + | 11. Se Descartes define o ente por excelência da cogitatio como o ego, talvez o faça por razão fundamental relativa à essência do divino: Deus não é definido pelo entendimento nem pela cogitatio, mas pela potência incompreensível; | ||
| + | * objeta-se que Descartes por vezes reconhece uma cogitatio em Deus que ele mesmo exerceria, e cita-se a Principia Philosophiae I, §54, sobre as ideias claras e distintas de substância pensante criada e de substância corpórea, das quais se infere uma ideia igualmente clara de substância pensante incriada e independente, | ||
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| + | 12. A ideia de Deus como substantia cogitans permanece correta apenas se não se supõe que ela represente adequadamente tudo o que há em Deus, restrição que se soma à advertência geral de que o termo substância não convém univocamente a Deus e às criaturas; do mesmo modo a cogitatio aplicada a Deus torna-se inadequada em relação à cogitatio finita, podendo esta, por refletir-se num espelho convexo, ser apenas finita — ainda que outros textos, de 1637 e de 1641, afirmem uma cogitatio comum a Deus e ao ego, ao infinito e ao finito, pela noção de natureza intelectual em geral. | ||
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| + | 13. Ainda assim esses mesmos textos trabalham para excluir Deus da cogitatio, pois a continuidade entre natureza intelectual finita e infinita sempre se dá sob equivocidade, | ||
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| + | 14. Um terceiro indício confirma que Descartes recusou conscientemente pensar Deus por meio de uma definição pela cogitatio, ao recontar as posições de Suárez sobre o ens rationis: a ideia de Deus em nós pode ser chamada entidade conceitual apenas no sentido em que toda operação do intelecto o é, e o universo inteiro pode dizer-se entidade originada no pensamento divino. | ||
| + | * se essa posição suareziana tivesse sido adotada, teria dissolvido a discrepância entre Deus e o ente por excelência cognoscente, | ||
| + | * assim a cogitatio sui de um ente por excelência não cabe a Deus, mas apenas ao ego; Deus a transgride, como o infinito transgride o finito, pois ela oferece pouco demais para designá-lo, | ||
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| + | 15. Não convém diminuir a discrepância, | ||
| + | * essa constituição, | ||
| + | * essa limitação sugere que a cogitatio, enquanto traço fundamental do ser, deixa de fora ao menos uma região do ente — não a menor, mas a primeira: Deus, sob o nome do infinito, que excede a onto-teo-logia da cogitatio | ||
| + | * essa exorbitância abre a questão de saber se esse primeiro traço fundamental dos entes pode ser superado por um traço ainda mais fundamental, | ||
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