estudos:marion:aparencia-cogito
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| + | ====== APARÊNCIA DE UM COGITO ====== | ||
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| + | //MARION, Jean-Luc. Au lieu de soi: l’approche de saint Augustin. Paris: Presses universitaires de France, 2008.// | ||
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| + | * // | ||
| + | * Na // | ||
| + | * //Ego// torna-se ele mesmo na medida precisa em que responde a apelo sempre já lançado, mas jamais inteiramente recebido | ||
| + | * Por louvor (da santidade de Deus) | ||
| + | * Indissoluvelmente por confissão (das faltas que atentam contra santidade de Deus) | ||
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| + | * Questão: pode //ego//, em situação de dupla // | ||
| + | * // | ||
| + | * //Deum et animam scire cupio. Nihil ne plus? Nihil omnino// — desejo saber alma e Deus. Nada mais? Absolutamente nada mais | ||
| + | * Dificuldade não reside tanto em conhecimento dos dois termos do desejo | ||
| + | * //Nunc autem nihil aliud amo quam Deum et animam quorum neutrum scio// — não amo senão Deus e alma, que ignoro um e outro | ||
| + | * Dificuldade reside em compreensão de sua relação | ||
| + | * Acesso a Deus faz um com acesso da alma a si | ||
| + | * Mais radicalmente: | ||
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| + | * Como conhecer-se se isso implica primeiramente conhecer Deus? | ||
| + | * Santo Agostinho não assegura que seja possível, mas duvida evidentemente | ||
| + | * Não pede a Deus conhecimento que Deus tem do //ego// (incomunicável por princípio) | ||
| + | * Pede conhecimento do //ego// por si mesmo (já impraticável por meios próprios) | ||
| + | * Pedido feito por prece de onde procederá toda pesquisa conceitual futura | ||
| + | * //Potestas nostra, ipse est. Itaque ora brevissime ac perfectissime, | ||
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| + | * Prece e desejo não bastam para assegurar conhecimento de si por si, menos ainda conhecimento certo | ||
| + | * Para atingi-lo, seria necessário argumento conceitual estrito | ||
| + | * Argumento permitindo aceder a partir de si ao si mesmo | ||
| + | * Argumento comparável ao que, desde Descartes, entende-se sob título de //cogito//: " | ||
| + | * Verdade firme e assegurada | ||
| + | * Abriria acesso de si a si pelo pensamento | ||
| + | * Basta exercer pensamento para entrar no lugar onde se encontra o si | ||
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| + | * Aproximação doutrinal com Santo Agostinho parece inevitável | ||
| + | * Desde vida de Descartes, já parecia evidente a muitos | ||
| + | * 1637: segundo testemunho do próprio Descartes, Mersenne aproximou espontaneamente tese do //Discours de la méthode// de texto de //De Civitate Dei// | ||
| + | * //Nulla Academicorum argumenta formido dicentium: "Quid si falleris?" | ||
| + | * 1641: publicação das // | ||
| + | * //Quare prius abs te quaero, ut de manifestissimis capiamus exordium: utrum tu ipse sis. An fortasse metuis, ne in hac interrogatione fallaris, cum utique si non esses, falli omnino non posses?// — Te perguntaria primeiramente de começar pelas coisas mais manifestas: tu mesmo, és? A menos que temas enganar-te sobre esta questão, sendo que, se não fosses, não poderias absolutamente enganar-te | ||
| + | * 1648: Arnauld, tornado cartesiano convicto, confirma citando //De Trinitate// | ||
| + | * //Mentem nosse se etiam cum quaerit se [...] cum se mens se novit, substantiam suam novit; et cum de se certa est, de substantia sua certa est. Nec omnino certa est, utrum aer, an ignis sit, an aliquod corpus, vel aliquid corporis. Non est igitur aliquid eorum [...] idque solum esse se certa sit, quod solum esse se certa est// — Espírito conhece-se mesmo quando se busca. Quando espírito se conhece, conhece sua substância; | ||
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| + | * Outros paralelos poderiam ser acrescentados | ||
| + | * Versão curta do argumento que Descartes extrai diretamente da dúvida sem passar pela // | ||
| + | * //Dubito ergo sum, vel quod idem est, cogito, ergo sum// — duvido logo sou, ou o que é o mesmo, penso logo sou | ||
| + | * Eco bastante exato à certeza da própria dúvida tal como formulam outros textos agostinianos | ||
| + | * // | ||
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| + | * Diante de tantas aproximações, | ||
| + | * Descartes mesmo não parece validar com " | ||
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| + | * Convém duvidar que Santo Agostinho antecipe //cogito// cartesiano | ||
| + | * Duvidar por ao menos duas razões — aguardando que ao final se depreenda terceira, primeira em direito | ||
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| + | * Primeira razão: Santo Agostinho não acede ao //ego// certificando seu ser pelo exercício de sua // | ||
| + | * Certifica sua vida pelo exercício da própria dúvida sobre esta vida | ||
| + | * //Potesne, inquam, nobis dicere aliquid eorum quae nosti? Possum, inquit. Nisi molestum est, inquam, profer aliquid. Et cum dubitaret: Scisne, inquam, saltem te vivere? Scio, inquit. Scis ergo habere te vitam, siquidem vivere nemo nisi vita potest. Et hoc, inquit, scio// — Podes dizer-nos uma das coisas que sabes? Posso. Se não te incomoda, avança algo. E como estava em dúvida: não sabes ao menos que vives? Sei. Sabes portanto que tens a vida, pois ninguém pode viver senão pela vida. Isto sei | ||
| + | * Como para Descartes, dúvida cede diante de evidência que nega e assegura simultaneamente | ||
| + | * Trata-se, aqui e ao contrário de Descartes, de evidência da vida ou, mais exatamente, da vida em mim | ||
| + | * Diferente de mim, mas sem a qual não seria, nem seria eu | ||
| + | * Texto da maturidade desenvolve este afastamento radical muito nitidamente | ||
| + | * //Quantum rerum remanet quod ita sciamus, sicut nos vivere scimus? [...] quoniam certum est etiam eum qui fallitur vivere [...] Sed qui certus est de vitae suae scientia, non ea dicit "Scio me vigilare", | ||
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| + | * Diversos afastamentos entre Santo Agostinho e Descartes | ||
| + | * Primeiro afastamento: | ||
| + | * Segundo afastamento: | ||
| + | * O que têm em comum estes afastamentos? | ||
| + | * Segundo afastamento indica: para Descartes, experiência da dúvida que se contradiz atesta certeza do ato de pensar | ||
| + | * //Ego// encontra aí sua essência de //res cogitans// | ||
| + | * Ao contrário, para Santo Agostinho: dúvida não assegura espírito de nenhuma essência que poderia performar à vontade | ||
| + | * Dúvida consigna espírito à vida, inabalável e inevitável, | ||
| + | * Cabe justamente ainda à vida determinar também primeiro afastamento | ||
| + | * Para Descartes: certeza resulta no //esse//, mais exatamente no //esse// como primeiramente meu, em primeira pessoa, //sum// | ||
| + | * Há ente indiscutível, | ||
| + | * Ao contrário, para Santo Agostinho: certeza resulta na vida | ||
| + | * Dela tiro meu ser, mas não sou eu mesmo primeiramente, | ||
| + | * Ponto capital: nenhum vivente é sua própria vida | ||
| + | * Todo vivente vive pela vida que não é, nem possui, e não por si mesmo | ||
| + | * Ninguém vive por si mesmo | ||
| + | * Santo Agostinho dizia literalmente: | ||
| + | |||
| + | * Próprio de vivente consiste nisto: não possui sua própria vida, mas permanece seu locatário | ||
| + | * " | ||
| + | * Mais essencialmente: | ||
| + | * Se pode revelar-se certo que vivo, possuo certeza de viver apenas no instante preciso de minha vida presente | ||
| + | * Sem nenhuma garantia de viver ainda instante seguinte | ||
| + | * Justamente porque instante literalmente não é | ||
| + | * Sou certo que vivo, sem ser jamais certo que sou enquanto vivente | ||
| + | * Se vida constitui certamente minha essência, torna-se certo que minha existência não me é certeza, senão no instante | ||
| + | * Que este instante se prolongue nada muda à constatação de fundo | ||
| + | * Não sou por isso minha vida, mas vivo por procuração da vida | ||
| + | * " | ||
| + | * Ou antes: ter certeza de não viver por si | ||
| + | * Viver dá apenas certeza de morrer | ||
| + | * Apenas Vivente por excelência vive de si mesmo | ||
| + | |||
| + | * Dois afastamentos fazem na verdade apenas um | ||
| + | * Onde Descartes cumpre apropriação do //ego// a si mesmo (seu pensamento assegurando-o de si em seu ser como //res cogitans//) | ||
| + | * Santo Agostinho consigna //mens// a sua vida (pela contradição da dúvida) apenas para expô-la a esta vida mesma | ||
| + | * Esta vida não pertencendo por definição como minha | ||
| + | * Posso apenas expor-me a ela como aquilo a que pertenço | ||
| + | * Mais eu mesmo que eu e pelo que, desde este momento, me desaproprio de mim mesmo | ||
| + | * Mesmo ato de // | ||
| + | * Num caso: apropriação do //ego// a si | ||
| + | * No outro: desapropriação da //mens// a ela mesma | ||
| + | |||
| + | * Segunda razão para duvidar que Santo Agostinho antecipe //cogito// cartesiano confirma primeira | ||
| + | * Descartes mesmo reconheceu seu afastamento com Santo Agostinho | ||
| + | * Contra evidência pretensa da aproximação e contra prestígio de tal autoridade, reivindicou-o às vezes sem ambiguidade | ||
| + | * Carta sobre passagem de Santo Agostinho ao qual //je pense, donc je suis// tem alguma relação | ||
| + | * Leitura de //De Civitate Dei// XI, 26 em biblioteca de Leiden | ||
| + | * Santo Agostinho serve-se dele para provar certeza de nosso ser e fazer ver que há em nós imagem da Trindade | ||
| + | * Em que somos, sabemos que somos, amamos este ser e esta ciência que está em nós | ||
| + | * Descartes serve-se dele para fazer conhecer que este eu que pensa é substância imaterial e que nada tem de corpóreo | ||
| + | * Duas coisas muito diferentes | ||
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| + | * Poder-se-ia sustentar que Descartes mesmo acaba por reconhecer na //res cogitans// imagem da Trindade | ||
| + | * Permanece indiscutível que entende primeiramente estabelecê-la como //res intellectualis et intelligens// | ||
| + | * Para encontrar aí princípio tão primeiro que precede mesmo conhecimento de Deus | ||
| + | * Tomei ser ou existência deste pensamento por primeiro princípio, do qual deduzi muito claramente os seguintes: a saber, que há Deus | ||
| + | * Trata-se bem, nos dois argumentos, de ligar pensar e ser | ||
| + | * Não mais a propósito de Deus (como para tradição oriunda de Aristóteles) | ||
| + | * Doravante também a propósito de espírito finito, logo denominado sujeito | ||
| + | * Num caso: trata-se de começar pelo //ego// para deduzir existência, | ||
| + | * No outro: trata-se de assegurar-se, | ||
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| + | * Oposição não pode dissimular-se | ||
| + | * Joga-se entre apropriação de si pela equivalência do pensamento com ser (essência tanto quanto existência) | ||
| + | * E desapropriação de si de vivente de vida outra que ele mesmo | ||
| + | * Dois filósofos viram-no perfeitamente | ||
| + | * Blondel: há contrassenso mais grave que aquele que consiste em descobrir influência de Santo Agostinho no //cogito// cartesiano? Jamais Agostinho teria podido sonhar em erigir seu pensamento em " | ||
| + | * Heidegger: vinho do pensamento de Agostinho foi diluído (// | ||
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| + | * Uma vez estabelecida esta oposição de fundo sob aparência de mesmo argumento, resta medir alcance e compreender o que está em jogo | ||
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