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estudos:nancy:2014:arte-do-gozo

4 Arte do gozo

VAN REETH, Adèle; NANCY, Jean-Luc. La Jouissance. Québec: Librairie Plon, 2014.

Rumo ao Infinito e Mais Além: Há uma Arte de Gozar?

  • A refutação do modelo da sublimação e a finitude aberta ao infinito
    • Nancy rejeita categoricamente a teoria freudiana da sublimação estética como elevação ou espiritualização dessexualizada do impulso carnal, compreendendo o labor artístico como um reinvestimento afirmativo direto da própria energia erótica bruta.
    • Ilustrando a tese pela anedota de Giorgio Vasari a respeito do pintor Rafael Sanzio — que abandonava o trabalho palaciano para encontrar a amante, forçando o príncipe a hospedá-la no ateliê —, confirma-se a observação nietzschiana de que a fecundidade plástica exige uma formidável carga de ímpeto somático original.
    • O nexo estrutural entre o ato de criar e o acontecimento erótico repousa na relação ontológica com o infinito real (o bom infinito hegeliano), projetando uma eternidade que não equivale à sempiternidade temporal quantitativa, assemelhando-se antes à intensidade fulgurante de um instante suspenso.
    • Dialogando com a fenomenologia do piscar de olhos em Husserl e a desconstrução da presença em Derrida, Nancy equaciona o gozo à dinâmica da différance: em ambos os casos opera-se um afastamento irrevogável de si, fraturando toda ilusão de identidade subjetiva estática e situando a criação como um pulsar impessoal que precede a biografia empírica do autor.
  • O escândalo da carne em Sexus de Henry Miller: além da pornografia comercial
    • A leitura do fragmento literário de Henry Miller sobre o encontro noturno com Mara evidencia uma alternância deliberada entre o vocabulário cru, anatômico e obsceno e a banalidade circunstancial do espaço circundante (a poça de água, o gato, os transeuntes, o cascalho do chão).
    • Diferentemente do cinema pornográfico hegemônico, que reduz o enquadramento à fixação voyeurista da penetração instrumental e anula a densidade sensível da cena, a prosa poética de Miller insere o leitor no fluxo vivo da narração, fazendo coexistir o grotesco e o sublime.
    • A exaustão da protagonista feminina, que encadeia orgasmos sucessivos sem alcançar uma saturação conclusiva, destrói o paradigma psicanalítico da descarga mecânica finita e expõe o caráter incomensurável e repetitivo do gozo carnal.
    • O exame das formulações linguísticas do texto ressalta o contraste expressivo entre a sinuosidade sibilante da palavra lasciva — índice de abandono e degustação da voluptuosidade corporal — e a crueza cirúrgica de termos como matriz e recta, termos que evocam a gênese uterina e a perfuração visceral além do erotismo convencional.
  • A obra exteriorizada no ofício artístico em contraposição ao desmanche corpóreo
    • A analogia entre o labor estético e o abraço erótico reside na travessia involuntária da individualidade do sujeito: a potência criadora atua pelas costas do criador, tal como expressava Henri Matisse ao proclamar sua obediência imperiosa ao desejo intrínseco da linha traçada.
    • Essa perda de centralidade do eu reflete o paradoxo do pintor Simon Hantaï ao espalhar tinta de joelhos: ao mesmo tempo em que a operação material encarna a singularidade irredutível do seu gesto pessoal, recusa qualquer psicologismo narcísico ou soberania intencional abstrata.
    • Manifesta-se, contudo, uma assimetria ontológica insuperável entre as duas esferas: enquanto o artista produz uma obra exteriorizada e durável que se emancipa do seu corpo — comparável ao nascimento de um filho —, o ato sexual consome-se na pura ausência de obra (désœuvrement).
    • Longe de configurar um arranjo formal acabado, o contato dos amantes traduz-se em deformação ativa de contornos, desmontando os limites anatômicos dos organismos funcionais sob o impacto de um fazer pleno de visceralidade somática.
  • O mito da divisão originária e o corte anatômico do sexo
    • Nancy desarticula o vocábulo sexo de sua acepção funcionalista biológica, redefinindo-o ontologicamente como divisão, fratura e partilha instituinte entre os corpos e no próprio seio do corpo.
    • Retomando a fábula narrada por Aristófanes no Banquete de Platão — segundo a qual os seres humanos primitivos eram esferas completas decepadas pela espada de Zeus para aplacar sua soberba —, funda-se o horizonte erótico não na fusão homogeneizadora, mas no anseio agônico de transpor a cisão.
    • O horizonte do gozo não pretende anular definitivamente a alteridade ou cancelar o hiato ontológico entre os viventes, estruturando-se antes como a experiência de habitar a própria ferida da separação e atravessar a distância que remete ao outro.
  • O ready-made, o compromisso estético e a insatisfação agonística
    • Mesmo inserido em solidão aparente durante o processo oficinal, o artista destina sua prática a uma alteridade exterior, encarnada no olhar do espectador, do ouvinte ou do leitor.
    • Evocando Marcel Duchamp e a invenção da Fonte a partir de um mictório ordinário, Nancy elucida o conceito duchampiano de encontro marcado (rendez-vous): a constituição do objeto de arte requer o ato rigoroso de apresentação pública, equilibrando a ação fabricadora com a passividade de acolher o surgimento da coisa.
    • Em contraposição ao apaziguamento imediato, criadores superlativos como Paul Cézanne na pintura e Helmut Lachenmann na composição contemporânea operam a partir de um descontentamento radical e perpétuo com os limites materiais de suas linguagens.
    • Esse tormento técnico engendra um esforço obsessivo que pode roçar a desconstrução física da própria tessitura composicional, confirmando que transpor a fratura equivale a reabri-la em um patamar de intensidade ainda mais agudo.
  • O sexo desmascarado em Rainer Maria Rilke e a liquetação da matéria viva
    • Na correspondência reunida nas Cartas a um Jovem Poeta, Rilke adverte que a criação literária e a intensidade voluptuosa formam os dois versos de uma idêntica urgência somática, reivindicando a desobstrução formal do vocábulo sexo contra a moral eclesiástica e os pudores burgueses.
    • A literatura que ousa tocar o sexo recusa atalhos eufemísticos para revelar a liquetação da forma física, dinâmica expressa na água e nos fluídos da narrativa de Miller, bem como na figuração mítica do nascimento de Afrodite das espumas marinhas.
    • A expulsão ejaculatória não opera o simples arrefecimento da matéria inflamada, mantendo e desdobrando o jorro líquido como perda de rigidez estática e abertura visceral à contingência do informe.
    • O desenrolar do projeto criativo submete a intenção teleológica do agente ao impulso involuntário do lançamento físico (jet), onde a antecipação consciente do cálculo deliberado é engolida pelo lance da matéria expressiva.
  • O ritmo erótico do toque: a peregrinação e o vai-e-vem da carícia
    • A pluralidade dos órgãos sensoriais recusa a ordenação metafísica clássica que hierarquiza a visão e a audição acima das afecções dérmicas, exigindo um entendimento da sensualidade como trânsito contínuo entre regimes perceptivos heterogêneos.
    • O elemento conector decisivo entre o domínio das artes e a aproximação sexual reside na estrutura ontológica do ritmo, cuja pulsação depende essencialmente daquilo que recusa a fixidez definitiva e impõe a repetição.
    • A carícia nunca consiste em imobilidade de contato; ela desdobra-se como itinerário errante sobre a pele e movimento perpétuo de ida e vinda, transformando o corpo inteiro em território érógeno desprovido de serventia mecânica.
    • A cumplicidade histórica entre o intercurso erótico e o véu da escuridão noturna não deriva apenas da busca por resguardo social, decorrendo da mutação temporal que a noite engendra, esbatendo a clareza analítica das coisas para aprofundar a densidade cinestésica da experiência.
  • A cromática fenomenológica da cor como exuberação da matéria
    • No plano das artes plásticas, a cor exibe um regime existencial dependente e tensional: para que um matiz não se degrade em confusão borrada, necessita da fissura demarcadora da linha, conquanto o desenho desprovido de qualquer índice de luminosidade ou cor seja absolutamente invisível ao olhar.
    • A cor traduz a acepção original do verbo latino exprimere, operando como o empurrão para fora e a pressão da matéria interna da coisa manifestando-se perante o mundo além de qualquer explicação puramente fisioquímica ou funcional.
    • A espessura carnal da tinta — cujo étimo grego chroma designa originalmente o viço epidérmico e cujo étimo latino color nomeia a pele que recobre o organismo individual — articula-se com a sedução cosmética e o adorno corporal.
    • Essa força plástica faz da irradiação colorida uma exuberação análoga ao próprio gozo, explicando o receio e os interditos iconoclastas que diversas tradições teológicas e ascéticas historicamente impuseram à exuberância cromática.
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