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Carne
MARION, Jean-Luc. De surcroît: études sur les phénomènes saturés. Paris: PUF, 2010.
Capítulo IV: A carne ou a doação do si mesmo
I - O corpo senciente
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A vida cotidiana dispensa o acesso a si mesmo, pois um acordo tácito permite que se viva como se tivesse acesso a si, sem precisar verificá-lo, ocupando-se apenas dos outros entes, em um estado de separação de si mesmo.
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A questão de como se pode experimentar a si mesmo remete à noção de “tomar carne”, e a análise começa com Descartes, que, ao duvidar dos sentidos e do corpo, hesita em negar que seja algo, pois está ligado ao corpo e aos sentidos, mas sua argumentação assume que o corpo senciente pode ser equiparado aos corpos do mundo, o que é insustentável.
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Os corpos do mundo são meros objetos sensíveis, que não sentem, enquanto o corpo próprio é senciente, distingue-se radicalmente deles, e o fato de Descartes incluir os “espíritos” entre os objetos do mundo físico é um artifício que revela que o ego, como mente que sente, nunca foi posto em dúvida.
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A descrição cartesiana do cogito já indica que o sentir é constitutivo do ego, mesmo que ele próprio reconheça estar ligado ao corpo e aos sentidos, e essa ligação é retomada pela fenomenologia para mostrar que o ego se dá como carne, ainda que se queira dissimulá-lo.
II - “O mais originariamente meu”
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Husserl distingue a carne (Leib) do corpo físico (Körper), definindo-a como o único objeto que possui campos de sensação, que percebe antes de ser percebido e que se caracteriza pela passividade e receptividade, sendo o meio de toda percepção e fenomenalização do mundo.
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A tradução de Leib por “corpo próprio” é inadequada, pois sugere uma apropriação posterior de um corpo físico, quando, na verdade, é a carne que, por ser senciente, pode eventualmente apropriar-se de um corpo do mundo, e não o contrário, já que a carne é invisível em si mesma, mas torna visível o que aparece.
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A carne é insuprimível e insubstituível, sendo o que há de mais originariamente próprio e o mais próximo da percepção, de modo que o ego não pode se separar dela, e é por meio dela que o cogito se realiza, pois o si mesmo só se atinge ao se ressentir, fixando-se a si mesmo como carne.
III - Sofrimento, prazer, envelhecimento
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A tomada de carne fixa o ego a si mesmo como a um solo fenomenológico, e essa inseparabilidade pode ser confirmada por meio da experiência da dor, que atinge a carne e impede qualquer recuo, prendendo o sujeito a si mesmo na impossibilidade de se distanciar da própria existência.
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O prazer, ao contrário da dor, leva a passividade ao extremo, pois a razão e a vontade sucumbem a ele, evidenciando a servidão da carne e sua potência sobre o ego, o que revela um si mesmo obscuro e mais originário que a clareza do espírito.
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O envelhecimento, como terceiro argumento, mostra que o tempo não passa, mas se acumula na carne, especialmente no rosto, onde deixa suas marcas, e é nesse entesamento do tempo na carne que o passado se manifesta, tomando carne e afetando o si mesmo.
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A tomada de carne, longe de ser uma alienação, é a primeira posse de si, na qual o ego é dado a si mesmo sem retorno, em uma doação pura que o fixa e o individua, e a própria alegria pode ser compreendida como a disposição feliz dessa união.
IV - A facticidade individuante
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O entendimento não individualiza, pois suas ideias são universais e comunicáveis, mas é a tomada de carne que individua o ego, pois a carne é a única propriedade autêntica e individual, na qual cada ipse é único e inacessível ao outro.
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A facticidade da carne, que é recebida e não escolhida, assegura a individuação e a minhadade, de modo que o si mesmo é dado pela carne, e o próprio logos, como relação a si, só se realiza originariamente segundo a carne, fazendo da carne o próprio do homem.
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A carne é o que dá o si mesmo a si, e a individuação pela facticidade é o que constitui o ipse, que não se dá a própria carne, mas a recebe, sendo adonado a ela.
V - Absolvido de toda relação
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A carne é um fenômeno saturado ou paradoxo, pois a intuição que ela oferece, como a dor, precede e torna possível qualquer intenção de significação, de modo que ela não se submete à relação, sendo absoluta e incomunicável, o que a torna apta a consignar o ego em sua individualidade.
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Ao contrário de outros fenômenos saturados, que dão o mundo, o visível ou o outro, a carne dá o próprio ego a si mesmo, fixando-o como adonado, e essa autoafecção é o que pode fundamentar uma subjetividade para além do sujeito metafísico.
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Descartes, em sua doutrina da união da alma e do corpo, reconhece o sentir como modo originário da cogitatio e a união como noção primitiva, conhecida pelos sentidos e não pelo entendimento puro, o que aponta para a tomada de carne como o ultimo passo da redução ao dado.
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A análise da carne, no entanto, deixa em aberto questões sobre a possibilidade de se atingir o si mesmo por outras vias, sobre o estatuto do sujeito pós-metafísico, sobre a exterioridade íntima da carne, sobre a intersubjetividade e sobre a possibilidade de pensar a Encarnação teológica.
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