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estudos:marion:rd:reducao-dobrada-dasein

Redução dobrada: Dasein

MARION, Jean-Luc. Réduction et donation: Recherches sur Husserl, Heidegger et la phénoménologie. Paris: PUF, 1989.

A redução redobrada — o “Dasein”

  • A analítica do Dasein torna caduca a suspeita de antropologia ao responder à exigência radical segundo a qual a questão em vista do ser deve ser construída, estabelecendo um dispositivo que transcende todo ente e reconduz o dado ao que precisamente não é imediatamente dado — o ser
  • O dispositivo da questão se estabelece rigorosamente segundo três termos, próprios de uma questão em seu sentido mais completo, distinguindo o que se pergunta, aquele a quem se pergunta e aquilo que finalmente se quer saber
    • O questionar mobiliza um dispositivo ternário, e não binário como na redução husserliana, composto por aquilo que se demanda, aquele a quem se demanda e o que se visa propriamente saber
    • O curso de 1925 nomeia os três elementos da estrutura da questão do ser: o que se busca saber é o sentido de ser, o que se demanda é o ser do ente, e o que se interroga é o próprio ente
    • A questão se pratica em dois tempos, relançando o ente por duas vezes: na primeira relança pede-se ao ente identificado que se explique sobre seu ser, sem que se pergunte o que ele é, mas de que é
    • A segunda relança não concerne diretamente ao ente interrogado, pois o questionamento busca, além do ser do ente, o próprio sentido de ser, distinção já explícita em 1925 entre Sein des Seienden e Sinn des Seins, anunciando a tentativa de pensar o ser sem o ente
    • A redução se redobra ao visar, para além de manifestar de que ser o ente é, degajar o próprio ser como tal, intenção e estrutura do questionamento de Ser e Tempo mesmo que sua realização plena permaneça em aberto
  • A escolha do ente humano, do Dasein, poderia parecer regressão à antropologia, questão que exige buscar os critérios que privilegiam o Dasein para a dupla relança fenomenológica
    • O Dasein é o ente que somos nós mesmos, e o próprio questionar constitui um ente dado com a questão sobre o ser de um ente em seu cumprimento
    • O Dasein não é apenas um ente entre outros escolhido por propensão antropológica, mas constitui ele mesmo, desde o início, o questionamento como sua carne e seu corpo, seu lugar e seu apelo
    • O privilégio do Dasein é estritamente fenomenológico e não antropológico, pois ele se caracteriza onticamente por ter acesso ao ser, tendo por aposta e por profundidade o próprio ser
    • O caráter extático-horizontal do Dasein se identifica com sua transcendência de si mesmo, realizada por seu traço fenomenológico próprio, a intencionalidade, definida como a ratio cognoscendi da transcendência
    • A intencionalidade implica o In-der-Welt-Sein, visando na etidade que ele mesmo é intencionalmente o ser de sua própria etidade, jamais podendo se deter em sua consideração própria
    • O Dasein se qualifica como o ente em cujo ser está em jogo esse mesmo ser, compreendido como sentido de ser, sendo o ente à existência do qual pertence a compreensão de ser
    • A analítica do Dasein se realiza como redução redobrada segundo uma primeira tática, permitindo o reenvio do ente como fenômeno ao ser como fenomenalidade
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