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Hölderlin

MARION, Jean-Luc. L’idole et la distance: cinq études. Paris: Librairie générale francaise, 1991.

  • O poema “Em azul adorável” de Hölderlin, embora por vezes considerado de autenticidade duvidosa, revela, através de uma densa rede de ecos e remissões, o centro insondável de toda a sua obra poética, condensando as dimensões fundamentais de sua meditação.
  • A cena inaugural do poema, na qual uma silhueta humana se distingue na janela de um campanário, não descreve apenas uma figura, mas manifesta a própria essência da “aptidão para a imagem” (Bildsamkeit) do homem, ou seja, sua capacidade de aparecer como e em uma imagem.
  • A beleza, que emoldura a aparição no “azul adorável”, não é um atributo natural, mas a abertura de uma “porta” para o divino, um espaço de aparecimento que a arte e a pureza, imitando e completando a natureza, tornam possível.
  • A arte, ao imitar a natureza, não a duplica, mas a completa e a eleva à sua verdade mais própria, num “retorno natal” que revela, pela mediação cultural, o que há de mais original e nativo no homem e no mundo.
  • A pureza, como “espírito sério”, é a disposição que permite ao homem suportar a luz do espírito e fazer florir as figuras crepusculares da vida, abrindo um espaço onde o imperceptível pode tomar forma e a palavra poética se torna possível.
  • A simplicidade e a santidade da imagem que surge na figura humana são tão prodigiosas que inspiram um temor (Schrecken) ao descrevê-la, um temor que é inerente à própria essência da “aptidão para a imagem” e que o homem deve aprender a suportar em sua pureza.
  • Os celestes, através de sua virtude e alegria, oferecem ao homem a medida para sua própria “bem-aventurança”, mas sua presença se dá primordialmente por meio de um retiro, de uma distância que acolhe e permite o surgimento da imagem.
  • O retiro dos deuses, como o do artista em relação à sua obra, não é uma ausência ou abandono, mas a condição mesma de uma presença mais radical, o modo mais elevado e manifestativo da divindade, que se dá a conhecer justamente em seu ser desconhecido.
  • A medida do homem é, portanto, a de se medir (sich vermessen) com a divindade, ou melhor, de receber do próprio Deus, em seu retiro, a medida que lhe é devida, uma tarefa que ele só pode cumprir poeticamente, preservando a distância que funda toda a sua relação com o mundo e com o divino.
  • A instauração poética da medida é a tarefa fundamental do homem e o que o caracteriza como aquele que “habita poeticamente” a terra, uma tarefa que só pode ser cumprida pela “pureza” e pela “simplicidade”, que lhe permitem uma visão justa das coisas.
  • Contudo, o poema afirma a radical impossibilidade de uma medida fixa e estável para o homem, que deve sempre reencontrá-la em sua existência poética, uma tarefa heroica que o subtrai ao trágico, ao mesmo tempo que o coloca em face da possibilidade de sua própria falência.
  • A natureza, por sua profusão espontânea de figuras, suscita no homem um desejo e um sofrimento, pois ele deve alcançar sua própria mise en image não pela imitação direta, mas pela “sabedoria que é figura” e pela “virtude” de uma “retenção” que reflete o retiro divino.
  • A juventude, com sua simplicidade, torna-se uma nova imagem da “aptidão para a imagem”, pois nela a “espírito sério” e a virtude se manifestam como condições para a distinção visível, uma distinção que é coroada pela medida.
  • A coroa de murtas gregas, símbolo da medida e da vitória, evoca a necessidade de um retorno à Grécia, mas a uma Grécia já perdida, indicando que a tarefa do homem moderno é a de um “retorno natal” que não pode mais ser o grego, mas que deve aprender com ele a medida.
  • A figura de Édipo, que domina a terceira parte do poema, introduz a questão da imagem refletida no espelho, uma imagem que é um simulacro da verdadeira mise en image, pois nela a distância que a fundamenta se perde, gerando um “olho a mais” que a tudo vê e desmede.
  • A tragédia de Édipo consiste não em sua cegueira física, mas no fato de que seu “olho a mais” o coloca em uma relação imediata e desmedida com o divino, abolindo toda a distância e, com ela, a própria possibilidade da imagem e da medida.
  • A “vida que inveja” (eifersüchtiges Leben), ou seja, a vida divina em sua intensidade e proximidade esmagadora, pode aniquilar a medida, tornando a própria existência uma forma de “morte”, enquanto a morte pode ser o prelúdio para uma nova vida, na qual o retiro do divino é finalmente reconhecido.
  • A passagem de Édipo como “estrangeiro pobre na Grécia” sinaliza a necessidade de uma mediação, representada pela figura do apóstolo e da “distância filial”, que introduz um Deus mais mediato e discreto, oposto ao Deus imediato da tragédia.
  • A distância filial, que se manifesta na relação entre o Pai e o Filho, estabelece a medida última para o homem, pois é na distinção e na separação que se funda a comunhão, e a paternidade divina se revela como o próprio retiro que acolhe e preserva.
  • O lugar de Patmos, a ilha pobre e discreta, é escolhido por Hölderlin como o espaço da paciência e da escuta, onde o divino não se impõe, mas se oferece na pobreza e na mediação do apóstolo, preparando a vinda do Cristo “mendigo”.
  • Os poemas que meditam a figura de Cristo, como “O Único” e “Festa da Paz”, revelam que a medida para o homem é a de “suportar” a presença divina, uma tarefa que ele não pode realizar sozinho, mas que exige a mediação e a distância que o próprio Cristo, como Filho, estabelece.
  • O Cristo é o “único” que, sendo Filho de um Pai, manifesta a distância como princípio constitutivo da própria divindade, uma distância que o torna “pobre” e “mendigo”, mas também o único capaz de receber plenamente a herança divina.
  • A kénose, ou o esvaziamento do Filho, não é uma perda, mas a realização mais alta de sua divindade, pois é por meio dela que ele se distingue do Pai e, ao mesmo tempo, se une a ele, revelando a distância como o lugar da comunhão.
  • A compreensão do retiro e da distância é a chave para evitar a idolatria e o “amor carnal” que busca possuir a presença imediata de Cristo, e para acolher a verdadeira presença que se dá na “palavra” e na Eucaristia, como um dom que se oferece na ausência.
  • O dom do Espírito Santo e o “espírito sério” são dados para que os homens possam suportar o retiro e a medida, encontrando na “noite amante” e na simplicidade a condição para habitar a distância que os une ao Pai.
  • A “letra” da Escritura, como algo que “permanece” e deve ser “interpretado”, torna-se o lugar onde o retiro do Pai se manifesta, uma presença paterna que é uma contínua e silenciosa injunção à fidelidade.
  • A tarefa do “canto alemão” é a de “seguir” esta letra, interpretando-a e louvando-a, estabelecendo uma “harmonia” com o divino que, na distância, se revela como a mais alta forma de presença e comunhão.
  • A permanência da distância, como a mais alta revelação do divino na figura do Pai, é o legado de Hölderlin, que exige do homem uma atitude de “habitar” poética e pacientemente esse espaço de mediação, sem buscar uma presença imediata e esmagadora.
  • A louvação e o canto, na medida em que reconhecem a distância e a louvam, são a única linguagem adequada ao divino, uma linguagem que é uma forma de “teologia negativa” que não tenta nomear, mas celebrar a presença no retiro.
  • O exemplo das cartas do período de sua “enfermidade” mostra que Hölderlin praticou, em suas relações humanas, a mesma “distância filial”, mantendo uma “relação abstrata” e puramente formal que, paradoxalmente, era a mais íntima e verdadeira expressão de seu ser.
  • A serenidade e a reserva de Hölderlin, longe de serem sinais de loucura, são a manifestação de sua conquista da “distância” e da “medida” que lhe permitiam, de modo exemplar, habitar poeticamente o mundo e se relacionar com o divino e com os outros.
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