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estudos:henry:em:1.10

§10 Presença e alienação

HENRY, Michel. L’ essence de la manifestation. Paris: Presses Univ. de France, 1963

§10 - A distância fenomenológica e a duplicação do ser: presença e alienação

  • O ser só é fenômeno se estiver à distância de si, sendo a obra da distância fenomenológica, entendida como poder ontológico naturante e não simplesmente naturado, a de instituir o intervalo graças ao qual o ser poderá aparecer a si mesmo, identificando-se sua manifestação com sua existência
    • porque se funda na distância, a existência do ser difere do ser mesmo enquanto o que está à distância de si, sendo o ser na diferença, o que Fichte ilustra com o muro cujo é não se identifica com ele mas se distingue como algo independente
    • o que distingue o ser do muro dele mesmo é justamente a diferença compreendida como a essência que permite ao muro ser, sendo a existência do muro esse ser posto numa exterioridade radical, seu ser fora do seu ser, embora a consciência natural não tenha tempo de contemplar esse é
    • a consciência filosófica é levada a afirmar que o é em relação ao ser é imediatamente a existência, devendo o ser existir necessariamente, não sendo o argumento ontológico uma prova no sentido ordinário mas a leitura da condição fenomenal do ser, sua existência como ser fora de seu ser
  • A existência que constitui assim o ser mesmo do ser não se recobre com o ser puro e estável, distinguindo-se dele numa exterioridade absoluta e, retirando-se dele, colocando-o em face de si como um ser estável
    • a existência nada é por si mesma senão o ato de se retirar do ser e, aniquilando-se diante dele, colocá-lo em face de si como outra existência absoluta, devendo, diz Fichte, formar-se como simples existência e por seu próprio ser aniquilar-se diante de outra existência absoluta, o que lhe dá o caráter de simples imagem ou representação do ser
    • a imagem é o nome da existência considerada como manifestação do ser, sua forma, o que Fichte chama também de saber, caracterizando na Terceira Conferência o saber como a existência absoluta ou a manifestação e revelação do ser em sua única forma possível
  • O dualismo do ser e de sua própria imagem, pensado como condição fenomenal do ser, não pode ser limitado em seu alcance, pertencendo antes à definição da estrutura interna da fenomenalidade como prescrição eidética universal, à qual está submetido não apenas o muro mas tudo o que pretende ao título de fenômeno
    • o ser de Deus não seria senão o Ungrund mais obscuro e abstrato, algo irreal, se não se submetesse às condições que abrem o campo da existência fenomenal, ou antes, Deus não se submete a tais condições mas se confunde com elas, sendo ele mesmo o movimento que atualiza a vocação de manifestar-se
    • a essência da divindade é idêntica à desse poder, pensando-se em ambos os casos a estrutura interna do absoluto, encontrando as condições da fenomenalidade na descrição da essência divina não um exemplo particular mas sua própria realidade ontológica absoluta
  • O comentário fichteano do início do Evangelho de São João situa-se nessa perspectiva, valendo como repetição das pressuposições ontológicas evocadas, conferindo-lhes caráter decisivo ao situar-se no plano do absoluto, significando a definição de Deus como Verbo a compreensão do ser divino como existência
    • que o ser de Deus exista significa que Deus se divide em virtude do dualismo do ser e da existência, não podendo o ser divino ser posto na aparência senão na medida em que se produz diante dele, aniquilando-se diante dele, sua própria imagem, que é a existência e o saber de seu próprio ser
    • a existência de Deus, produzida a partir dele como o que o faz existir, constitui a realidade do ser divino, sendo, como ser fora de seu ser, imagem e existência, o próprio ser desse ser
  • Quanto ao modo mais preciso de compreender a relação em Deus entre o ser e a existência, essa existência que distinguimos não é distinta dele, diz Fichte, sendo tão primitiva quanto seu ser, não podendo se considerar o ser divino à parte do processo pelo qual emerge na luz, como já pensara Bœhme, não sendo o Pai dissociável do Filho que engendra eternamente
    • o Verbo, dizia São João, está em Deus, ou antes é o próprio Deus, avançando-se na afirmação da unidade do ser e da existência apenas a permanência desta sob a forma do Logos no ser originário do Pai, sua pertença à estrutura interna do absoluto
    • a diferença é tão pouco suprimida pela unidade do ser e da existência que é antes posta por essa unidade, e de modo tão radical que é sobre o fundo dessa unidade que o absoluto se encontra entregue à diferença como sua própria essência
    • a unidade do ser e da existência tem por consequência a divisão do ser, sua autosseparação de si e, como diz Fichte, sua expulsão para fora de si, não sendo o que no ser de Deus lhe é exterior algo estranho a esse ser, mas o próprio ser de Deus enquanto existe, sendo a alienação real como constituindo sua essência mesma
    • é como imanente à vida interna do ser, ou antes como estrutura mesma dessa vida, que a exterioridade se desdobra, podendo partilhar o ser morto em si num ser por assim dizer repetido duas vezes, colocando-o diante de si mesmo, não sendo assim a existência diferente do ser, mas o que faz esse ser diferente de si
  • As análises anteriores tomam sua significação ontológica concreta situadas no quadro fenomenológico do qual constituem uma definição, aparecendo que a passagem do ser-em-si ao ser-para-si consiste na posição do ser fora de si, sendo esse estar-fora-de-si o para-si do ser-em-si, sua existência
    • nesse estar-fora-de-si, o ser-em-si torna-se outro, aliena-se, e nessa alienação realizam-se as próprias condições de sua manifestação, sendo a alienação a essência da manifestação
  • O ser que se manifesta é o ser presente, sendo a essência da presença a alienação, constituindo-se a presença a si do ser numa mesma unidade com sua separação de si no devir outro, desdobramento no qual ele se aparece a si mesmo e entra assim na condição fenomenal da presença
    • Sartre afirma que toda presença a implica dualidade e portanto separação, que a presença do ser a si implica um descolamento do ser em relação a si, e que a presença é uma degradação imediata da coincidência, pois supõe a separação
  • As condições que definem a possibilidade de uma presença e constituem sua essência têm significação universal e transcendental, tendo sido pensadas sob o título de distância fenomenológica, determinação eidética insuperável do ser real
    • compreendido em sua significação existencial e transcendental, o conceito de distância fenomenológica é idêntico ao conceito originário e ontologicamente puro de alienação, sendo esta insuperável, pois o ser só existe e se manifesta enquanto ser alienado e a realidade só é real enquanto é a um só tempo ela mesma e outra que si mesma
    • a alienação não é apenas uma estrutura eidética entre outras, mas a estrutura mesma da essência enquanto essência absoluta, sendo a supressão da alienação uma impossibilidade eidética e, do ponto de vista ontológico, um absurdo, pois tal supressão só poderia ser algo se as condições da realidade nela se realizassem, e estas só se realizam no fenômeno originário da alienação
    • a alienação abre e define o campo do ser, sendo estrutura ontológica última cuja supressão não teria significação ontológica, sendo antes posta e mantida em tal supressão como o fenômeno ontológico originário que a funda, não suprimindo o retorno do outro ao mesmo, que Fichte chama vida, a dualidade mas antes a pressupondo como seu fundamento
  • Questiona-se o que pode significar a supressão da alienação se não concerne ao fenômeno ontológico assim pensado, e o que entender pela unidade do outro e do mesmo se a alteridade subsiste como condição mesma dessa unidade, unidade que é a da presença
    • é porque a essência da presença lhes é imanente como poder ontológico originário que os sentidos nos unem às coisas e o olhar nos leva até a árvore na colina, sendo a unidade do homem e do mundo uma unidade ontológica que suprime a alienação por ser idêntica à liberdade
    • a essência ontológica dessa unidade não é porém outra coisa senão a alienação, sendo a diferença a essência da unidade, e a essência da presença assim pensada recebe estrutura determinada, a de uma presença obtida pela mediação da distância fenomenológica, sendo a proximidade em que essa presença nos faz viver idêntica ao afastamento absoluto que o trabalho ontológico nos abriu, uma proximidade no longínquo
    • Hölderlin diz que nos separamos apenas para estarmos mais unidos, para estarmos numa paz mais divina com todas as coisas e conosco mesmos, encontrando essa união seu princípio naquilo que separa, obtendo-se a presença sobre o fundo do rasgo e da divisão
  • A presença do ser a si não se distingue, portanto, de sua distância em relação a si, prescrevendo a essência da presença ao dado caracteres específicos conforme os quais aparece como outro no meio da alteridade, sendo o que nos é dado o que nos é retirado
    • o ser está aí para ele como algo que ele não é e do qual o separa, enquanto ele é, uma distância intransponível, explicando-se assim que o ser presente possa ser desejado e que esse desejo seja vão, pois sendo a essência incapaz de se superar a si mesma, ela se fecha sobre si e só se dá a si como aquilo de que eternamente carece
  • A presença é o fundamento do conhecimento, tema da conhecimento transcendental que se ocupa não dos objetos mas de nosso modo de conhecê-los enquanto deve ser possível a priori, sendo o ser dos objetos porém o próprio a priori
    • ao prescrever aos objetos as condições de sua possibilidade, o a priori lhes confere os caracteres decorrentes do querer da essência, manifestando-se os objetos como separados que o conhecimento jamais alcança senão pela mediação dessa própria separação, sendo assim o conhecimento sempre conhecimento daquilo que não somos, daquilo que não conseguimos ser
    • o desejo de conservar o benefício da presença a si sem sofrer os inconvenientes da distância a si permanece um sonho, tendo o ser se separado de si para se dar a presença a si, sendo a vontade de reencontrar-se verdadeiramente superando essa separação de outro modo que por sua própria mediação apenas uma paixão inútil, sendo o ser o desejo de si, sua própria nostalgia
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