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estudos:garcia:2021:linguagem
E no fundo, a linguagem
Gadamer. Comprender la verdad de la experiencia.
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1. A análise da compreensão histórica concluíra que sua estrutura possui forma lógica de diálogo, avançando a compreensão mediante dialética implícita de perguntas e respostas, supondo evidentemente esse modelo dialógico a linguagem como o meio em que se produz, não sendo, contudo, sedução indevida da analogia com conversações cotidianas o que leva Gadamer a essa preeminência do modelo dialógico, mas o fato de a linguagem constituir o fundo implícito, sempre presente, de todo compreender, estando tão inseridos nela que, por demasiado próxima, nos resulta distante, revelando-se a realidade viva da linguagem, distinta do objeto estudado pela linguística, sempre diálogo: ter linguagem é falar com alguém sobre algo, forma primária referida por Aristóteles ao definir o homem como animal que tem linguagem, sendo mesmo o pensamento solitário, como dizia Platão, diálogo da alma consigo mesma.
O conceito de linguisticidade
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1. A tese de que toda compreensão é linguística, realizando-se no meio onicompreensivo da linguagem, situa esta no centro da reflexão filosófica, tendência que ganha proeminência em meados do século XX sob o nome de virada linguística, incluído nela habitualmente o pensamento de Gadamer, embora sua concepção hermenêutica da linguagem possua caracteres próprios que a distinguem claramente de outras reflexões coetâneas.
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2. A tese de que a compreensão possui sempre caráter linguístico esbarra em experiências de compreensão não verbal — reação espontânea diante de perigo, compreensão do que alguém pensa sem palavras, incapacidade de exprimir emoção perante grande obra de arte —, indicando tais experiências que há compreensão que não necessita de palavras e compreensão que ultrapassa toda palavra possível, sem que isso, contudo, contrarie a linguisticidade básica do compreender, que não se refere ao sistema de regras da língua nem à realização desse sistema no uso, mas à compreensão de um sentido que, por princípio, pode vir à palavra.
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3. Deve pensar-se a linguisticidade em continuidade com a tradição como transmissão de sentido, realizando-se por meio dela a fusão de horizontes, sendo todo esse processo linguístico não por consistir o compreendido em testemunhos orais ou escritos, mas porque todo acontecimento constituído por sentido compreendido é incoativamente linguístico, isto é, pode chegar a ser dito, não significando isso que o compreendido possa ser expresso perfeitamente sem perda de sentido, consistindo a constitutiva referência à linguagem em apontar para a palavra, em fazer-se palavra.
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As experiências de compreensão não verbal não constituem objeção à linguisticidade, mas sua confirmação, testemunhando o fracasso da linguagem sua capacidade de buscar expressão para tudo.
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4. A linguisticidade constitui a face oculta da linguagem, aquilo sempre pressuposto quando a usamos, aludindo Gadamer à inconsciência linguística do mundo grego, que não possuía palavra específica para o que chamamos linguagem justamente por nela viver tão imerso que não precisava destacá-la frente ao mundo de que falava, sendo tal não tematização, tal autoesquecimento essencial, a autêntica forma de ser do falar, ficando inconsciente para a linguagem viva tudo o que a ciência tematiza sobre ela.
A conversação hermenêutica
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1. A explicitação da linguisticidade de toda compreensão realiza-se pelo fio condutor do diálogo, forma linguística primária, gerando determinação precisa da interpretação como realização da compreensão, ponto capital do pensamento hermenêutico, tornando-se palmário o fenômeno hermenêutico específico na tradução, oficio surgido entre os gregos a partir da função do intérprete que relacionava falantes de línguas distintas, permitindo ver nitidamente as condições do problema hermenêutico: a diferença de línguas ressalta a estranheza do sentido, e o ofício do tradutor consiste em restabelecer linguagem comum que possibilite o diálogo, linguagem que não preexiste, mas é produzida pelo intérprete.
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2. Tal tarefa implica sempre componente de criação, devendo o tradutor decidir, dada a impossibilidade do automatismo literal, quais expressões vertem melhor o sentido original, dizendo o bom intérprete o mesmo, mas de outro modo, com outros giros, do que na língua original.
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3. Nas conversações cotidianas, compartilhando-se a mesma língua, o problema genuinamente hermenêutico não é a compreensão da língua, mas o entender-se sobre o tema de que se trata, não sendo a relação com a língua materna propriamente de compreensão, mas realização vital, identificação básica com ela, guardando-se o termo compreensão para quando se trata de entender algo alheio, ao menos parcialmente, momento de estranheza no diálogo.
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4. Essa alteridade evidencia que a linguagem comum da conversação hermenêutica não é a língua em que se fala, mas a que se vai criando naquilo que se fala a partir do que dizem os interlocutores, criando o intercâmbio de razões imperceptivelmente novo discurso que supera os pontos de partida, insistindo Gadamer que a essência do diálogo reside em deixar valer em si as razões do outro, o estranho e oposto, distinguindo-se isso claramente de consensuar, encontrando-se também na conversação cotidiana, como na história, a mesma novidade da tradução, implicando a compreensão sempre aportação dos próprios conceitos.
A virada linguística
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1. Tornou-se lugar-comum dizer que a filosofia, desde meados do século XX, realizou virada linguística, expressão cunhada por Gustav Bergmann e Richard Rorty inspirada na virada copernicana kantiana, convertendo em tema não as coisas, mas nosso modo de falar delas, sendo a ideia fundamental que a linguagem não é meio inócuo e transparente de que o pensamento se vale, mas possui lógica própria que impõe condições às categorias do pensamento, participando dessa virada, em sentido amplo, correntes distintas — filosofia analítica, filosofia da linguagem ordinária, neoestruturalismo francês, desconstrucionismo de Derrida — e também a hermenêutica gadameriana, cuja posição não é assimilável a nenhuma delas.
Texto e diálogo
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1. A compreensão de textos constitui caso exemplar do problema hermenêutico, concentrando em si todas as suas dimensões, devendo reparar-se, antes de tudo, na peculiaridade da escrita: ao passar-se do discurso oral ao escrito, o sentido do dito fica fixado, objetivado, isolado do contexto de sua produção, permitindo o diálogo oral matizar, esclarecer ou responder ao dito, ao passo que o escrito permanece estranhado, separado de todo contexto dialógico, sendo escrita, para Gadamer, autoestranhamento, a idealidade abstrata da linguagem.
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2. A consequência dessa idealidade é que o texto entra em relação direta com qualquer leitor, atravessando a distância temporal e as diferenças de épocas e culturas, tendo todo texto simultaneidade de princípio com todo possível leitor, colocando isso o problema hermenêutico genuíno num novo nível: tem a compreensão de textos também estrutura de diálogo quando se separou completamente do contexto do discurso oral?
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3. Ao lermos um texto antigo, mesmo entendendo pouco, mergulhamos no que diz porque nos diz algo que de algum modo nos afeta, comove ou parece verdadeiro, aplicando-o implicitamente, reencontrando-se aqui o momento de aplicação, incitando-nos isso a prosseguir, perguntando ao texto e recebendo dele novas respostas, sendo a leitura forma de diálogo em que se dá constante vaivém entre o que lemos, o que compreendemos e o que o texto de novo nos propõe.
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4. Essa primazia da coisa mesma, do que o texto diz, caracteriza o verdadeiro diálogo, distinguindo-o de diálogos em que o interesse dos participantes é conhecer algo do interlocutor, e não o que diz, como no diálogo terapêutico ou no diálogo de sedução, não consistindo por isso a compreensão de textos passados em sua reconstrução ou na tentativa de refazer as circunstâncias de sua produção, mas antes na participação em sentido presente, não querendo um texto ser entendido como expressão vital, mas naquilo que diz.
Interpretação
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1. O mundo intermediário da linguagem aparece, frente às ilusões da autoconsciência e à ingenuidade do conceito positivista de fato, como a verdadeira dimensão do dado, compreendendo-se assim o auge do conceito de interpretação, palavra que se referia originariamente à função mediadora do intérprete entre falantes de idiomas diversos e passou depois à decifração de textos de difícil compreensão, tendo início sua carreira triunfal com Nietzsche, desafiando todo positivismo ao perguntar-se se o dado não é já resultado de uma interpretação, sendo a interpretação a mediação nunca perfeita entre homem e mundo, e o único realmente imediato e dado ser o compreendermos algo como algo.
“Todo compreender é interpretar”
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1. O fundo linguístico da compreensão e sua estrutura dialógica permitem precisar o conceito fundamental de uma filosofia hermenêutica, a ideia de interpretação, tendo esta estendido seu domínio muito além do reduzido campo da exegese de textos canônicos e convertido-se em palavra de uso corrente.
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2. Afirma Verdade e Método, de modo contundente, que todo compreender é interpretar e toda interpretação se desenvolve no meio de uma linguagem que pretende deixar falar o objeto e que é ao mesmo tempo a linguagem própria do intérprete, contendo essa frase breve todos os traços essenciais da concepção hermenêutica da interpretação.
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3. A ideia de que todo compreender é interpretar significa que ao compreendermos algo realizamos sempre uma interpretação, ideia pouco intuitiva à primeira vista, pois costumamos associar interpretação a situações em que algo não é evidente ou ambíguo, havendo, ao contrário, formas de compreensão imediata — ver árvores em flor, ler as horas no relógio — que distinguimos das interpretações, questionando justamente a hermenêutica essa distinção ao sustentar que à compreensão imediata subjaz sempre uma interpretação, sendo por isso a interpretação a forma de realização da compreensão.
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4. Um primeiro argumento provém da ideia de pré-compreensão: para compreender que o que trago no pulso é um relógio e que são onze horas, é preciso já ter compreendido previamente muitas coisas, estando a suposta imediatidade da percepção mediada pela linguagem, que recolhe essa pré-compreensão, permitindo essa pré-compreensão entender algo como algo, sendo considerada interpretação subjacente, distinta, contudo, do trabalho de interpretação diante de significado ambíguo, aproximando Gadamer, de modo discutível, essa pré-compreensão à ideia nietzschiana de introdução de sentido.
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5. O argumento hermeneuticamente mais decisivo é o já tocado ao comentar-se que compreender de modo diferente equivale a compreender: generalizando-se agora, através da condição linguística da compreensão, o caráter irreprodutível de toda compreensão do passado, implicando compreender encontrar linguagem comum entre discurso a compreender e discurso próprio do intérprete, duplo movimento em que se atém à alteridade do texto e, ao mesmo tempo, se põe em jogo os próprios conceitos, sabendo-se que um estudante compreendeu um texto quando pode dizê-lo com suas próprias palavras.
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6. Sendo toda interpretação, por isso, não pura repetição, não a única possível, e não esgotando jamais o sentido do texto, envolve tal fato paradoxo fundamental: para compreender o sentido próprio de um texto é preciso pensá-lo e dizê-lo em linguagem distinta, o que, embora incompatível com a ideia de compreensão correta em si, não significa abandonar a pretensão de verdade e objetividade, sendo a boa interpretação aquela que desaparece para deixar aparecer o sentido buscado, possuindo por isso toda interpretação tendência irredutível à objetividade, que permite e obriga à discussão entre interpretações.
A concepção hermenêutica da linguagem
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1. Olhando-se retrospectivamente o caminho percorrido até a linguagem, através da descrição do fenômeno da compreensão na arte e na história, mostra-se apenas ao final que a linguagem já atuava como meio dessa experiência hermenêutica, tendo tal percurso consequências que diferenciam claramente a concepção hermenêutica da linguagem das filosofias da linguagem típicas da virada linguística.
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2. A linguagem revela-se inseparável da experiência e do que nela aparece, não podendo Gadamer tomá-la, como faz a linguística, como objeto separado cuja estrutura se investiga, tendência absolutizante própria também da maioria das filosofias da linguagem, que consideram a totalidade da vida humana condicionada a priori pela linguagem, não podendo o pensamento hermenêutico partir dessa visão apriorística porque interessa antes como funciona realmente a experiência de compreensão, na qual a linguagem nunca é objeto isolável, mas o meio ou fundo sempre pressuposto em que já estamos, dizendo Heidegger que seu pensamento não era sobre a linguagem, mas a partir da linguagem.
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3. Consequência clara dessa visão é ser a distinção entre forma e conteúdo linguísticos legítima do ponto de vista da ciência da linguagem, mas abstrata e fictícia na experiência, exercendo a linguagem seu papel essencial na pré-compreensão, nos horizontes com que nos aproximamos das coisas, modificando-se e refazendo-se os conceitos nesse encontro, realizando por isso a experiência hermenêutica constante formação de conceitos.
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4. Não é a linguagem instrumento de que dispõe livremente o sujeito pensante para exprimir seu pensamento, mostrando antes a experiência que o pensamento já está inserido na linguagem, havendo unidade básica de pensamento e linguagem no movimento da tradição, sendo seres-na-linguagem, mostrando-se sempre crítico Gadamer com a pretensão de estender ao lenguaje em geral a visão instrumental derivada da criação de linguagens formais.
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5. Linguagem e mundo aparecem como inseparáveis, não tendo o lenguaje histórico e natural em que estamos outro sentido senão fazer manifestar-se o mundo, sendo o auto-esquecimento da linguagem modo de dizer que ela, em sua realidade viva como diálogo, remete diretamente ao mundo, sendo tal o hacer-se presente do mundo, afirmando Gadamer que não só o mundo é mundo enquanto acede à linguagem, como também a linguagem só tem verdadeira existência no fato de que nela se faz presente o mundo, significando a humanidade originária da linguagem a linguisticidade originária do ser-no-mundo do homem.
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6. Essa não distinção entre forma e conteúdo e essa mútua implicação de linguagem e mundo aproximam Gadamer da ideia humboldtiana de que as línguas são acepções do mundo (Weltansichten), embora não admita ele autonomia da linguagem em relação ao mundo, significando antes que nela o mundo histórico concreto se torna visível, cristalizando-se nos giros da linguagem a visão histórica concreta das situações vitais, não portando a linguagem oscuro espírito do povo, mas sendo histórica na mesma medida em que o é a experiência humana nela sedimentada.
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7. Dificilmente evita a ideia de que cada língua porta acepção determinada do mundo o relativismo linguístico, versão do relativismo historicista, não participando, contudo, a concepção hermenêutica desse relativismo, pois a mútua implicação de linguagem e mundo exclui a ideia de mundo em si, sem que isso implique perder o mundo sua independência, aparecendo este, como independente e com ser próprio, apenas na linguagem, referindo-se toda acepção do mundo ao ser em si deste e não excluindo por isso outras visões, comparável tal abertura ao escorço perceptivo, potencialmente aberto a novas visões do mesmo objeto, consistindo a universalidade da linguagem em configurar universo capaz de acolher a diversidade, sendo o fechamento de horizontes numa perspectiva fixa, próprio de todo relativismo, contrário à experiência da compreensão.
“O ser que pode ser compreendido é linguagem”
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1. Ao final de sua longa meditação sobre o lugar da linguagem na experiência, destaca Gadamer que a correlação entre linguagem e mundo, sua mútua copertença, evidencia estrutura universal de caráter ontológico enunciada na célebre frase o ser que pode ser compreendido é linguagem, havendo ambiguidade essencial em sua formulação alemã quanto ao caráter explicativo ou especificativo da oração relativa, escrevendo os tradutores espanhóis a frase sem vírgulas, ao contrário de Gianni Vattimo, que se inclina pelo relativo explicativo, identificando simplesmente ser e linguagem.
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2. O que Gadamer quer dizer não é distinto da constitutiva referência da linguagem ao mundo e do mundo à linguagem, sendo tudo o que compreendemos suscetível, em princípio, de ser dito, afirmando ele que o que acede à linguagem é distinto da palavra falada mesma, mas esta só é palavra pelo que nela vem à linguagem, e que também o que acede à linguagem não é algo dado anteriormente a ela, mas recebe na palavra sua própria determinação, indicando a expressão constante o que acede à linguagem que as coisas não adquirem seu ser por virem à palavra, mas somente na palavra compreendemos em que consiste seu ser.
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3. Deve recordar-se, contudo, que, embora a compreensão seja essencialmente linguística, a fala efetiva com que nos referimos ao mundo jamais esgota aquilo de que falamos, restando sempre resíduos que resistem à palavra, tendo Gadamer, em escrito posterior, esclarecido que ao escrever a célebre frase já estava implícito que o que é nunca pode ser compreendido por completo, pois tudo o que uma linguagem porta sempre ultrapassa o que consegue enunciar, devendo por isso a frase ser melhor traduzida com oração relativa especificativa, sem vírgulas, não implicando isso, porém, que haja experiência não linguística do ser, mas apenas que a compreensão, movendo-se no meio da linguagem, sabe, desde dentro de si mesma, que nem tudo o que é se deixa compreender, residindo nisso sua finitude.
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