User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:casey:2011:start

Destino do lugar

CASEY, Edward. The fate of place: a philosophical history. Berkeley: Univ. of California Press, 2011.

Prefácio: Lugares que Desaparecem

Agradecimentos

Parte Um: Do Vazio ao Recipiente

  • 1 Evitando o Vazio: Padrões Primevos
  • 2 Dominando a Matriz: O Enuma Elish e o Timeu de Platão
  • 3 Lugar como Recipiente: A Física de Aristóteles

Parte Dois: Do Lugar ao Espaço

  • Interlúdio
  • 4 O Surgimento do Espaço no Pensamento Helenístico e Neoplatônico
  • 5 A Ascensão do Espaço Infinito: Especulações Medievais e Renascentistas

Parte Três: A Supremacia do Espaço

  • Ínterim
  • 6 O Espaço Moderno como Absoluto: Gassendi e Newton
  • 7 O Espaço Moderno como Extenso: Descartes
  • 8 O Espaço Moderno como Relativo: Locke e Leibniz
  • 9 O Espaço Moderno como Sítio e Ponto: Posição, Panóptico e Forma Pura

Parte Quatro: O Reaparecimento do Lugar


Prefácio

I

1. Existir de qualquer modo implica estar em algum lugar, de modo que o lugar se revela tão indispensável quanto o ar que se respira, o chão que sustenta e o corpo que se possui, pois nada do que se vive, se faz ou se sofre ocorre fora de um lugar, o que torna surpreendente que esse fato primordial possa deixar de ser reconhecido.

2. Aristóteles reconheceu a primazia do lugar ao fazer do “onde” uma das dez categorias indispensáveis de toda substância e ao oferecer na Física uma exposição sustentada e perspicaz sobre o tema, inaugurando um debate que se estende até o presente e que envolve interlocutores tão diversos quanto Heidegger, Irigaray e uma longa série de pensadores ao longo de mais de dois milênios.

  • Heidegger discute com Aristóteles o que significa estar em um lugar para o “ser-no-mundo”.
  • Irigaray retorna à ideia aristotélica de lugar como essencial para uma ética da diferença sexual.
  • Entre ambos se estendem debates que incluem Jâmblico e Plotino, Cusa e Bruno, Descartes e Locke, Newton e Leibniz, Bachelard e Foucault.

3. A história dessa preocupação contínua com o lugar permanece praticamente desconhecida, não por repressão deliberada, mas justamente porque o lugar está tão presente na existência que acaba tomado como evidente e indigno de tratamento próprio, assim como a condição humana de seres localizados, que funciona como um a priori da vida na Terra e só se torna objeto de reflexão quando se está desorientado ou perdido.

  • O lugar não é controverso nem embaraçoso a ponto de exigir recalque, ao contrário do inconsciente.
  • Por não haver escolha quanto a estar localizado, supõe-se não ser necessário pensar sobre essa facticidade básica.
  • Presume-se, equivocadamente, que a questão esteja resolvida e que nada mais haja a dizer sobre ela.

4. Há ainda muito a dizer sobre o lugar, mas a rica tradição de reflexão a seu respeito foi esquecida porque o lugar acabou subordinado a absolutos supostos, sobretudo o Espaço e o Tempo, num processo em que a partir de Filopono e, depois, na teologia do século XIV e na física do século XVII, o lugar foi assimilado a um espaço infinito que o devorou, enquanto nos séculos XVIII e XIX foi submetido ao tempo cronométrico e universal.

  • O espaço concebido como extensão infinita tornou-se um Moloch cósmico e extracósmico que consome todo fragmento de lugar ao seu alcance.
  • Com isso, o lugar passou a ser visto como mera “modificação” do espaço, na expressão reveladora de Locke, isto é, como “sítio”, um espaço nivelado e monótono destinado à construção e a outros empreendimentos humanos.
  • Kant concebeu o tempo como “a condição formal a priori de todos os fenômenos”, e até o espaço, como forma do sentido externo, ficou sujeito à determinação temporal.
  • Reduzido a localizações entre as quais se movem corpos físicos, o lugar quase desapareceu na era do temporocentrismo que dominou os últimos dois séculos de filosofia após Hegel, Marx, Kierkegaard, Darwin, Bergson e William James.

5. O desaparecimento do lugar nunca foi total, pois, como insistiria Heidegger, seu próprio ocultamento inclui um desvelamento parcial, e por isso o lugar conservou significativa importância mesmo sob reconhecimento descontínuo, cabendo resgatá-lo de sua posição latente nos textos manifestos da filosofia ocidental e trazê-lo de volta à vida.

  • O Timeu de Platão, embora enfatize o espaço como chōra, termina com a criação de lugares determinados para as coisas materiais.
  • Filopono, atraído pela ideia de dimensões vazias, sustenta que o espaço tridimensional está sempre de fato preenchido por lugares.
  • Descartes abre espaço para o lugar como volume e posição dentro do mundo da extensão.
  • Kant concede ao lugar um privilégio na constituição das “regiões cósmicas” graças ao papel do corpo na orientação, papel que se tornará chave para as concepções de lugar de Whitehead, Husserl, Merleau-Ponty e Irigaray no século XX.

6. O propósito de The Fate of Place consiste em devolver a ideia de lugar, profundamente adormecida no pensamento ocidental moderno, à luz do discurso filosófico, percorrendo em quatro partes desde as narrativas míticas e religiosas da criação até a retomada do interesse pelo lugar em pensadores modernos tardios e pós-modernos.

  • A Parte I examina narrativas míticas e religiosas da criação, buscando a primordialidade do lugar no início das coisas, além da cosmologia quase mítica do Timeu e do tratamento do lugar na Física de Aristóteles.
  • A Parte II acompanha o fio sinuoso que conduz do pensamento helenístico e neoplatônico às reflexões medievais e renascentistas.
  • A Parte III analisa as teorias modernas iniciais do lugar e do espaço, de Gassendi a Kant.
  • A parte final explora o ressurgimento da preocupação com o lugar, já não subordinado ao Espaço nem ao Tempo.

7. Enquanto um volume anterior, Getting Back into Place, descreveu aspectos concretos, múltiplos e experienciais do mundo dos lugares, a presente obra prossegue o projeto de reconhecer o poder do lugar por outra via, delineando as doutrinas sobre o lugar tal como surgiram em momentos críticos da reflexão ocidental, configurando-se como ensaio de história intelectual e, mais especificamente, de história do pensamento filosófico sobre o lugar.

  • Trata-se de expor o que essas doutrinas efetivamente dizem e, com igual frequência, o que deixam de dizer.
  • Não se trata da história do lugar em si, isto é, de sua presença na arte, na arquitetura, na geografia ou na história mundial, mas de como os seres humanos, sobretudo os filósofos, conceberam o lugar como conceito ou ideia.
  • Perceber quanto pensamento inteligente foi dedicado ao lugar na filosofia ocidental já constitui um passo para reavaliar sua importância insuspeitada e seu alcance mais amplo.

II

1. O momento histórico presente mostra-se propício para avaliar o destino do lugar, embora quase não se fale dele na filosofia, na psicologia, na sociologia, na teoria literária ou nos estudos religiosos, e embora o interesse crescente na arquitetura, na antropologia e na ecologia o deixe como noção não esclarecida, configurando uma circunstância extraordinária que combina enorme promessa com escassa realização.

  • O lugar mostrou-se capaz de inspirar discussões complexas e variadas, não sendo conceito incoerente, falho, redutível a outro termo nem trivial em suas consequências, ainda que não seja unívoco.
  • O abandono do lugar como noção digna de pensamento decorre da ascendência dos modelos de espaço centrados no sítio, oriundos do início da modernidade.
  • Contribui também o persistente miasma do temporocentrismo, que absorve em seu abraço nebuloso a estrutura complexa e sutil do lugar.

2. Também atua no obscurecimento do lugar o universalismo inerente à cultura ocidental desde o início, evidente na busca de essências válidas em toda parte, para as quais um lugar particular seria irrelevante, e possivelmente associado à expansão do cristianismo, religião de aspirações universalistas, cuja época coincidiu com a obsessão pelo espaço infinito e ubíquo.

  • Filopono, cristão convicto, foi talvez o primeiro filósofo ocidental a conceber um espaço absoluto que não fosse mero vazio.
  • Thomas Bradwardine, arcebispo de Cantuária, teorizou no século XIV que a imensidão divina é coextensiva ao universo conhecido e ao espaço vazio infinito que o envolve.
  • Na Era das Explorações, a dominação dos povos nativos realizou-se por meio de sua desplacialização, isto é, a destruição sistemática das paisagens regionais que serviam de cenário concreto às culturas locais.

3. No século atual, as investigações de ética e de política continuam universalistas em suas aspirações, tratando o lugar como meramente paroquial, e as abordagens de lógica e linguagem mostram-se ainda mais cegas ao lugar, como se falar e pensar não fossem afetados pela localidade em que ocorrem.

  • Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Russell e Whitehead compuseram os Principia Mathematica, explorando os fundamentos lógicos universais da matemática pura em clara alusão aos Principia de Newton.
  • Nos mesmos anos, Saussure lecionava uma “linguística geral” sistemática que buscava princípios sincrônicos para todas as línguas, independentemente de suas diferenças diacrônicas e locais.
  • Herder e Humboldt, filósofos da linguagem do início do século XIX, tinham melhor compreensão, mas o êxito de Saussure, seguido por Jakobson, pela escola de Praga e depois pela linguística chomskiana, reinstalou um universalismo formalista no centro da teoria da linguagem.

4. Outras razões, menos lógicas ou linguísticas e ainda mais decisivas, explicam o afastamento do lugar como conceito crucial, como as guerras mundiais, as migrações forçadas e a disseminação maciça da tecnologia eletrônica, fenômenos literalmente mundiais que exibem um dromocentrismo, isto é, um temporocentrismo ampliado no qual o tempo acelerado se torna a essência da época.

  • As guerras mundiais minaram qualquer senso seguro de lugar duradouro, chegando a destruí-lo por completo no caso de um antilugar radical como Auschwitz.
  • As migrações forçadas de povos inteiros e a deriva contínua de muitos indivíduos sugerem que o mundo não passa de um cenário de deslocamento incessante.
  • A tecnologia eletrônica torna irrelevante onde se está, desde que seja possível conectar-se a outros usuários.
  • Dromos conota “corrida” e “pista”, e é como se a aceleração descoberta por Galileu nos corpos em queda tivesse passado a permear a Terra, convertendo o planeta numa “aldeia global” entendida não positivamente, mas como um lugar sem lugar.

5. Diante dessas tendências teóricas, culturais e históricas, as perspectivas de um interesse renovado pelo lugar poderiam parecer sombrias, mas algo se agita e convoca a um retorno ao pensamento reflexivo sobre ele, como indica o fato de que Bergson, James e Husserl, apóstolos do temporocentrismo, dedicaram atenção cuidadosa ao espaço e ao lugar em escritos menos conhecidos, e de que Heidegger, temporocentrista declarado em sua obra inicial, afirmou a importância do lugar ao refletir sobre o destino da cultura tecnológica moderna.

6. Certos fenômenos devastadores do século trazem consigo, como uma espécie de réplica, uma sensibilidade revitalizada ao lugar, pois a ameaça de eliminação de lugares e a uniformidade global crescente despertam o desejo ativo pela particularidade e pela diferença de lugar, o que não se reduz a nostalgia.

  • A perspectiva da aniquilação nuclear, justamente por poder eliminar todos os lugares perceptíveis de uma região, aguça a consciência de sua insubstituibilidade, de sua configuração singular e de sua história irrepetível.
  • O mesmo vale para qualquer evento disruptivo que perturbe a placidez de cidades e bairros.
  • A invasão de uma mesmice indiferente de lugar em escala mundial, a ponto de às vezes não se saber em que cidade se está, dada a uniformidade arquitetônica e comercial, faz ansiar pela diversidade de lugares perdida numa monocultura baseada em paradigmas econômicos e políticos ocidentais e, mais especificamente, norte-americanos.
  • O lugar traz consigo exatamente os elementos amputados na planiformidade do sítio: identidade, caráter, nuance e história.

7. Mesmo o envolvimento com a tecnologia acarreta um retorno insuspeitado ao lugar, pois, embora a localização literal de quem está tecnologicamente engajado seja relativamente indiferente, ela não é lugar nenhum, e dessa circunstância emerge um novo sentido de lugar, o “lugar virtual”, no qual pessoas fisicamente distantes se apresentam numa interação quase face a face.

  • Ao assistir à televisão ou trocar e-mails, o entorno imediato pode importar pouco, na medida em que se é absorvido pelo drama assistido ou pelas palavras lidas e escritas.
  • No lugar virtual, tem-se a impressão de compartilhar o “mesmo espaço” com outros situados em pontos distantes do planeta, numa acessibilidade recíproca, ao menos no caso do e-mail ou dos programas de rádio com participação de ouvintes.
  • Essa colocalização virtual pode ocorrer em imagem, em palavra ou em ambas.
  • O relativo aconchego e a discrição dessa copresença, com seu senso de fronteiras ainda que não de limites definidos, fazem dela um fenômeno genuíno de lugar, embora ainda não plenamente compreendido.

8. No cenário filosófico, mesmo nos recantos mais áridos persistem ecos do lugar, visto que termos como “política”, “ética” e “sociedade” remetem etimologicamente a lugares e ao compartilhar num lugar comum, e quase todos os grandes pensadores éticos e políticos do século se ocuparam da questão da comunidade, que exige lugares particulares, ao passo que certos desenvolvimentos em linguagem e lógica também se mostram promissores de um ponto de vista placial.

  • “Política” e “ética” derivam de polis e ēthea, “cidade-Estado” e “hábitats”, e “sociedade” provém de socius, que significa “compartilhar”, algo feito num lugar comum.
  • Segundo Victor Turner, uma communitas não é mero agrupamento, mas vinculação por meio de rituais que comunalizam as pessoas e que exigem lugares particulares para sua realização.
  • Hannah Arendt, ao reivindicar a polis como arena de disputa aberta, invoca um lugar delimitado e institucionalmente sancionado como base para “a esfera pública da aparência”.
  • A ideia de John Rawls sobre “as circunstâncias objetivas da justiça” implica, ainda que sem explicitá-las, as especificidades concretas da localização.
  • Na lógica e na linguagem, destacam-se as investigações sobre a argumentação informal, provavelmente reflexo de costumes e culturas locais, o renovado interesse pela retórica entre seguidores de Leo Strauss e também de Derrida e de Paul de Man, e a noção wittgensteiniana de semelhança de família, que implica a pertinência da localidade e da região para questões de epistemologia e de filosofia da linguagem e da mente.

9. Apesar dessas direções auspiciosas, o lugar raramente é nomeado como tal e ainda mais raramente discutido com seriedade, permanecendo “ainda velado”, como Heidegger diz do espaço, o que confere nova urgência e nova promessa à tarefa de trazê-lo para fora do esconderijo, sendo sua complexa história um bom ponto de partida para atestar sua presença difusa na vida humana e reencontrar o caminho de volta ao mundo dos lugares.

  • Familiarizar-se com essa história permite reconhecer a presença do lugar na linguagem e na lógica, na ética e na política, na postura corporal e nas relações pessoais.
  • Desvelar a história oculta do lugar é encontrar um caminho para saborear seu renascimento mesmo no terreno mais recalcitrante.
estudos/casey/2011/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1