Daniele Bruzzone
(Introdução, BOLLNOW, Otto Friedrich. Le tonalità emotive. Tradução: Daniele Bruzzone. Milano: Vita e Pensiero, 2009.)
A VIDA EMOCIONAL E A COMPREENSÃO DA EXISTÊNCIA: O CONTRIBUTO DE OTTO F. BOLLNOW
1. Um olhar capaz de escutar
1. O movimento fenomenológico surge da necessidade de reagir ao espírito positivista, cuja ênfase na cisão entre sujeito e objeto e exclusão da subjetividade da ciência gerou um paradoxo insolúvel nas ciências humanas, onde a objetivação do sujeito produz sua desumanização e esvaziamento do objeto próprio, conforme observado por Edmund Husserl ao criticar a determinação da visão de mundo moderna pelas ciências positivas como um afastamento dos problemas decisivos para uma humanidade autêntica, pois tais ciências, sendo meras ciências de fatos, criam meros homens de fato e já não têm mais nada a dizer sobre o sentido da existência humana.
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Diante da insensatez das ciências positivas, a fenomenologia propôs-se a descrever e classificar as formas da experiência sem confundir seu sentido com as modalidades empíricas de realização fisiológica.
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O apelo husserliano de retorno “às coisas mesmas” expressa a tentativa de remontar à unidade originária entre Eu e mundo, anterior à cisão sujeito-objeto, que se condensa no conceito de “mundo da vida” (Lebenswelt).
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Segundo Merleau-Ponty, retornar às coisas mesmas significa voltar ao mundo anterior ao conhecimento, do qual todo conhecimento científico é uma abstração dependente, como a geografia em relação à paisagem.
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O método da “epochê” (suspensão das pré-compreensões do senso comum e da ciência) revela a experiência vivida (Erlebnis) do mundo, que não é primariamente um objeto da ciência, mas uma relação intencional emocionalmente conotada, onde o mundo não é o que se pensa, mas o que se vive.
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A fenomenologia recupera o valor cognitivo da experiência corpórea e emotiva, mostrando os limites da lógica matematizante, baseando-se em “órgãos raramente ativos no filósofo ao trabalho - os sentidos e o coração”.
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A fenomenologia é uma questão de olhar, mas de um “ver” onde as pretensões imperialistas do Eu se reduzem para dar lugar a uma receptividade capaz de “escutar”, como na intuição do artista Van Gogh, que não inventa, mas vê um “drama” num árvore ou algo de “indizivelmente puro” no trigo, numa apreensão imediata que nada deve ao conhecimento sensorial.
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Essa perspicácia da sensibilidade afetiva mostra que emoções e sentimentos não são enganosos, mas representam uma “janela para o mundo” e funções da razão - como o sentir, o querer e o agir - tão adequadas quanto a clareza filosófica, segundo Edith Stein.
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Embora a tradição ocidental tenha desvalorizado a dimensão subjetiva e emocional, Maria Zambrano recorda um “momento inicial do conhecer” onde sentir e compreender estavam numa simbiose, uma “dança”, indicando que sensibilidade e afetividade, como modos de receptividade, são fundamentais e não um reino da arbitrariedade subjetiva.
2. Resssoar com o mundo
2. O interesse pelos vividos emotivos era central na primeira geração fenomenológica, e, embora Brentano considerasse os atos de sentimento dependentes das representações, a análise dos manuscritos de Husserl mostra que o sentimento não é extrínseco ou acrescentado, mas constitui originariamente a intencionalidade como abertura que revela o ser do mundo, determinando o próprio aparecimento da representação, a qual nunca é “pura” ou desprovida de um halo afetivo.
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Os sentimentos têm caráter intencional porque neles se constituem os valores, objetualidades de uma nova espécie que não se manifestariam a sujeitos puramente cognitivos.
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Os sentimentos revelam o plano axiológico, manifestando o “modo de presença” das qualidades de valor das coisas e as exigências que elas nos põem.
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A componente emocional do espírito possui um conteúdo apriori originário, não derivado do pensamento, fundamentando uma ética independente da lógica, tal como um “ordre du coeur” ou “logique du coeur” a priori, como expresso por Pascal.
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A intencionalidade da vida emocional refuta a concepção clássica e o senso comum de que emoções são meros estados internos subjetivos, mostrando que a emoção não é um fato psíquico interno, mas uma variação das relações com outros e com o mundo, legível no atitude corporal.
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A teoria freudiana é considerada redutiva por reduzir a vida afetiva à mera pulsionalidade, ignorando outras dimensões constitutivas.
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Jean-Paul Sartre, em sua teoria das emoções, parte do princípio de que a emotividade é a esfera dos atos com que o ser humano se volta ao mundo e dele recebe impressões, sendo a emoção o “todo da realidade humana” que se dirige comovida ao mundo.
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A consciência emocional é primariamente “consciência do mundo” e uma “certa maneira de cogitar o mundo”, transformando o modo de aparecimento da realidade e o modo de se relacionar com ela, mas não por uma ilusão subjetiva, e sim por uma conexão intencional onde o mundo se reflete na alma comovida e a consciência vive o mundo novo que constitui.
3. O eco do espaço interior
3. Os atos emocionais, além de possuírem uma “inteligência” que permite perceber valores, pertencem à classe dos atos “egológicos”, onde o eu se percebe implicado, diferenciando-os dos atos puramente cognitivos, pois, ao contrário de um sujeito que vive apenas em atos teóricos sem se dar conta de si, no sentir o sujeito vive não só objetos, mas também a si mesmo, experimentando sentimentos como provenientes “da profundidade do seu eu”.
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A vida sentimental revela tanto o mundo (como agradável, belo, nobre, sagrado etc.) quanto a própria consciência em sua estrutura concêntrica, que é tocada pelos valores com diferente profundidade, força e duração.
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Com base nessa diferença, Max Scheler elaborou uma estratificação da vida emocional em quatro “graus” de profundidade:
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Sentimentos sensoriais (prazer e dor localizados no corpo, não intencionais e atuais).
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Sentimentos próprios-corporais ou vitais (fenômenos unitários do corpo total, como bem-estar ou mal-estar, intencionais com objeto indeterminado).
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Sentimentos psíquicos (alegria ou tristeza referidas diretamente ao eu).
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Sentimentos espirituais (felicidade e desespero, no nível mais profundo e pessoal, perpassando toda a experiência).
A partir da intuição scheleriana, Roberta De Monticelli propõe uma classificação em cinco categorias do sentir:-
Afetações sensoriais (prazeres e desprazeres ligados aos sentidos, de consciência epidérmica).
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Sensos vitais ou humores (duradouros, difusos, que “tingem” a realidade).
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Sentimentos em sentido próprio (envolvem a personalidade e são disposições de resposta a valores dos outros).
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Emoções propriamente ditas (alterações súbitas e reativas, com respostas motoras de aproximação/afastamento).
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Paixões (disposições habituais do querer e do sentir, com potência performativa, frequentemente “irracionais” e compulsivas).
4. Rumo a uma acústica da alma
4. Afirmar a intencionalidade dos atos emotivos equivale a dizer que não há sentimento sem objeto de referência, mas distingue-se entre sentimentos com intencionalidade determinada (objeto definido) e situações emotivas indeterminadas que se referem ao mundo como um todo, como a “Stimmung” (tonalidade emotiva), que se refere ao horizonte dos objetos, sendo o fundo emocional de seu aparecer, conforme a “Crise”.
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Na analítica existencial de “Ser e Tempo”, a angústia é a tonalidade emotiva fundamental (Grundstimmung) que traduz o sentimento da “condição de jogado” e da própria possibilidade, produzindo um “estranhamento” (Unheimlichkeit) do qual se foge para o “Si” impessoal, o que gera inautenticidade.
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A alegria difusa difere da alegria por um encontro; a nostalgia e a melancolia são vividos depressivos que envolvem a existência; a “tédio” (Langeweile) é o sentimento da ausência de sentimento, que envolve as coisas num véu de indiferença.
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A palavra alemã “Stimmung” deriva de “Stimme” (voz) e “stimmen” (afinar), evocando estados de espírito musicais; ela é um “acordo” (Übereinstimmung) que perpassa todo o homem em suas partes, referindo-se a três dimensões: a harmonia entre mundo interior e exterior, entre corpo e alma, e entre todas as operações psíquicas.
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Os sentimentos vitais não reagem a eventos, mas “antecipam o valor de eventuais estímulos”, constituindo o horizonte afetivo; a tonalidade emotiva é como um “baixo contínuo”, um “Leitmotiv”, enquanto emoções e sentimentos são variações melódicas.
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No exemplo de Heidegger sobre a jovem que reencontra o noivo, a alegria não é causada pelo encontro, mas é possível porque ela já estava pronta numa tonalidade afetiva alegre; a transformação não é no outro, mas na totalidade de seu relacionar-se com o mundo.
5. Harmonia e dissonâncias da existência e do cuidado
5. As tonalidades emotivas são uma “mutação de nossa sintonia com o mundo”, mas, nela, o mundo ainda não se tornou “objetivo”, vivendo-se na unidade indivisa de eu e mundo, sendo errado situá-la apenas no subjetivo e pensar que ela “tinge” o mundo, pois essa unidade explica por que uma mudança emocional altera a aparência do mundo externo e vice-versa, pois a tonalidade emotiva não está nem dentro nem fora, nem no sujeito nem no objeto, mas é uma experiência relacional.
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Segundo Heidegger, a tonalidade emotiva é constitutiva da existência, que é sempre “situada emocionalmente” (Befindlichkeit); o ser-jogado do Dasein é sempre “entonado” emotivamente, e não há estado da existência que não dependa de uma Stimmung, da qual dependem também a compreensão, a interpretação, o agir e o próprio pensar.
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A tonalidade emotiva já sempre abriu o ser-no-mundo em sua totalidade, tornando possível o dirigir-se para algo; ela constitui o horizonte dentro do qual certos estímulos podem se dar, de modo que apenas um ente na situação emotiva do medo pode descobrir o ente intramundano como ameaçador.
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Na tonalidade depressiva da melancolia, tudo parece remeter ao peso da existência, enquanto na “fuga das ideias” há uma “leveza” primária, um otimismo primário no qual o ser-aí é jogado, e não um otimismo reflexo adquirido por uma visão de mundo.
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O projeto de mundo (Weltenwurf) do otimista, com seu mundo “róseo”, “liso”, “plano”, “amplo”, “claro”, “mole”, “plástico” e “bom”, decorre de sua tonalidade emotiva, e não o contrário.
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Essa compreensão funda qualquer ação de “cuidado” (Sorge) em sentido existencial e educativo, sendo que a cura naturalista, puramente técnico-científica e inafetada, mostra-se distante da humanidade das pessoas.
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A essência do cuidado, delicada e vital, funda-se na experiência emocional do outro, na “abertura do coração” possível no modo dual do amor, onde eu e tu podem experimentar o autêntico “nós” (Wirheit) no encontro, sendo que a intencionalidade dos sentimentos atinge aqui o ápice de sua criatividade, construindo diálogo, escuta e intersubjetividade.
6. As tonalidades emotivas e a antropologia filosófica
6. A análise de Bollnow não se limita à exploração das tonalidades emotivas nas situações existenciais, mas visa uma refundação da antropologia filosófica, partindo da questão sobre o que determina a natureza do ser humano se não for possível compreendê-la a partir da razão, reformulando a questão antropológica de modo a não excluir ou reduzir os fenômenos afetivos, mas considerando-os tão essenciais quanto outras manifestações da vida.
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Embora a tentativa de Heidegger de estabelecer uma ontologia a partir da situação emotiva seja inovadora, sua analítica existencial, ao se concentrar na angústia como tonalidade fundamental, corre o risco de subestimar a riqueza e variedade de outras tonalidades, as quais Bollnow procura estudar em suas diferentes formas, incluindo as alegres e elevadas.
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O presente volume de Bollnow dedica-se ao estudo dos “sentimentos vitais” ou tonalidades emotivas (Stimmungen), indo além da abordagem heideggeriana, e as tonalidades emotivas “elevadas” são essenciais, com efeitos como:
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O efeito de realização e plenitude, onde a alegria não é um estado passageiro, mas preenche e completa a vida.
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A abertura ao essencial, pois uma existência triste e fechada em si mesma não vê a plenitude do mundo, sendo a “abertura” (Offenheit) para o mundo uma característica fundamental dos sentimentos elevados.
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A transparência do mundo, que só se torna visível numa disposição límpida.
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O efeito de elevação e desprendimento, libertando a existência de sua gravidade e permitindo o acesso a uma dimensão mais ampla.
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O efeito revelador da felicidade, que, diferentemente da angústia, abre à contemplação confiada do mundo, predispondo à experiência da própria completude, e é necessária uma disposição calma e feliz para penetrar a essência íntima das coisas.
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A criatividade e produtividade da felicidade, que, uma vez passada, tende a influir na existência histórica, imprimindo-lhe uma nova direção e significado.
Conclui-se que as tonalidades emotivas elevadas são indispensáveis para compreender dimensões fundamentais da experiência humana, e o texto sobre as tonalidades emotivas, escrito nos anos incertos da guerra, já continha em germe todos os desenvolvimentos posteriores da reflexão de Bollnow, sempre em equilíbrio entre antropologia filosófica, fenomenologia hermenêutica e pedagogia. -
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