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Sartre
JBEH
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O existencialismo de Jean-Paul Sartre distingue-se pela circulação contínua entre sua filosofia e sua expressão literária, sendo que obras como A Náusea e As Moscas existem em um clima filosófico que é importante precisar, o que constitui ao mesmo tempo um mérito e um defeito.
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O mérito reside no fato de tais obras serem plenas de sentido e opostas a uma certa frivolidade, enquanto o defeito é que o leitor idealmente deveria apreender a totalidade do sentido de dentro delas mesmas, sem auxílio externo, o que nem sempre ocorre.
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A presença de obras como A Náusea e As Moscas parece menos um romance ou uma peça de teatro convencionais e mais uma irrupção da filosofia na literatura, semelhante à irrupção da tragédia grega no romance policial.
A dívida de Sartre para com a fenomenologia de Husserl se dá em dois aspectos fundamentais: a tomada de consciência do método eidético e a ideia de intencionalidade.-
O método eidético, que restaura a noção platônica de essência contra o empirismo, não implica um realismo metafísico, mas descreve as condições a priori que fundam a possibilidade do objeto sensível, sendo que a essência é mais verdadeira que real, no sentido da coisa empírica.
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A intuição da essência (Wesensschau) é uma visão que, longe de ser dispensada pela experiência, torna as lições da experiência eloquentes ao animá-las com uma significação que elas não têm por si mesmas.
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A fenomenologia, ao invés de restringir a experiência ao empírico, busca ressaisir o aspecto da essência, operando uma elucidação de um saber implícito, e não a constituição de um conhecimento empírico, sendo essa a ambição da eidética.
Sartre aplica o método eidético ao problema da imagem, renovando o interesse da psicologia experimental ao mostrar que a imagem, por mais vívida que seja, dá seu objeto como não sendo, mantendo uma consciência imediata de seu nada.-
Antes de se deixar instruir pela experiência, é preciso ressaisir do interior a natureza própria do objeto a estudar, constituindo uma eidética da imagem ou da emoção para determinar as condições que um estado psíquico deve realizar para ser reconhecido como tal.
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Personagens como o Autodidata de A Náusea ou Lucien Fleurier em A Infância de um Chefe encarnam, através da ficção, uma verdade universal, onde a metamorfose do indivíduo é ressaisida segundo sua lei de geração interna, culminando em uma existência essencial.
A segunda grande ideia que Sartre deve a Husserl é a intencionalidade, que estabelece que toda consciência é consciência de alguma coisa, corrigindo a tendência, pós-cartesiana, de reduzir o mundo a um fluxo de modificações subjetivas.-
A descoberta cartesiana do cogito, ao fundar todo dado na consciência, gerou uma tentação de interioridade que dissolvia as coisas em estados de alma, como no bergsonismo, contra a qual Husserl reagiu com a noção de intencionalidade.
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O autêntico conhecimento não é uma absorção das coisas pelo espírito, mas um movimento centrífugo, uma fuga para o que não é si mesmo, um arrancar-se à intimidade gástrica para se lançar em direção ao objeto que permanece transcendente.
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A intencionalidade, longe de ser um movimento de imanência, é um movimento de transcendência, e tomar consciência não é uma operação para dentro, mas para fora, sendo que a vida autêntica não é o recolhimento em refúgios privados, mas o lançar-se na grand-route.
A fenomenologia, ao libertar da oposição entre idealismo e realismo, devolve ao mundo sua solidez e densidade, permitindo reconhecer o que se esperava, e a intencionalidade é transposta para a emoção, que visa seu objeto e o modifica.-
A intencionalidade de Husserl, que era uma determinação eidética da essência da consciência, é levada por Heidegger ao ancorar na profundidade do drama da existência, tornando-se o ser-no-mundo, que é a descoberta da facticidade irremovível do homem.
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A Náusea expressa o engajamento do homem em seu ser-no-mundo, onde ele é abandonado a um engajamento fundamental, e as últimas páginas da obra propõem a criação artística como um remédio para essa deficiência transcendente, um despertar do homem para o melhor de sua emergência.
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