- Abranches et alii
- original
Abranches et alii
John Stuart Mill, ao examinar a questão da vontade livre, sugere que “a confusão de ideias”, comum nessa área da filosofia, “tem de… ser muito natural para o espírito humano”, e descreve — de maneira menos vivida e também menos precisa, mas com palavras estranhamente semelhantes àquelas que acabamos de ouvir — os conflitos a que está sujeito o ego volitivo. É errado, insiste, descrevê-los como se “ocorressem entre mim e alguma força estranha, a qual conquisto ou pela qual sou sobrepujado. (Pois) é óbvio que ‘eu’ sou ambas as partes nesta disputa; o conflito se dá de mim para comigo mesmo… O que faz com que eu, ou se preferir, minha Vontade, me identifique com um dos lados ao invés do outro é que um dos ‘eus’ representa um estado mais permanente dos meus sentimentos do que o outro.”
Mill precisou desta “permanência” porque “era inteiramente contrário à ideia de que temos consciência de sermos capazes de nos contrapor ao mais forte desejo ou aversão; tinha, portanto, que explicar o fenômeno do arrependimento. O que descobriu, então, foi que “depois de se cair em tentação (isto é, no maior desejo do momento), o ‘eu’ desejante termina, mas o ‘eu’ que tem a consciência pesada pode perdurar até o fim da vida.” Embora este persistente “eu” da consciência pesada não tenha qualquer importância nas considerações posteriores de Mill, ele sugere aqui a intervenção de algo chamado “consciência moral”, ou “caráter”, que sobrevive a todas as volições ou desejos, temporalmente limitados. De acordo com Mill, o “eu que perdura”, e que se manifesta somente quando uma volição chega a seu fim, deveria assemelhar-se a qualquer coisa que tenha impedido o asno de Buridan de morrer de fome na dúvida entre dois montes de feno com o mesmo cheiro bom: “Por simples cansaço… misturado à sensação de fome” o animal acabaria por deixar “completamente de pensar nos objetos rivais.” Mas isto Mill dificilmente poderia admitir, já que o “eu que perdura” é claramente uma das “partes na disputa”; e quando ele diz que “o objeto da educação moral é a educação da vontade”, está pressupondo que é possível ensinar uma das partes a vencer. A educação entra aqui como um deus ex machina: a proposição de Mill baseia-se em um pressuposto não examinado — semelhante aos que os filósofos da moral adotam com uma confiança enorme, e que não podem ser provados ou refutados.
ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Tr. Antônio Abranches e Cesar Augusto R. de Almeida e Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000, p. 257-258