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MÉTODO
SCHNELL, Alexander. Was ist Phänomenologie? Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 2019.
Capítulo I: O Método Fenomenológico
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A apresentação dos conceitos fundamentais da fenomenologia – e, com isso, de seu método – é condição prévia necessária antes que se possa tratar concretamente da realização da “ideia de fundamentação” da fenomenologia, o que apenas será possível a partir do capítulo V.
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A fenomenologia foi compreendida, antes de tudo, como um método, e assim deve continuar sendo determinada.
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Husserl: “No limiar do século, no esforço da filosofia por um método rigorosamente científico, surgiu uma nova ciência, juntamente com um novo método de pesquisa filosófica. A nova ciência chamou-se fenomenologia, pois ela, ou antes, seu novo método, originou-se de uma certa radicalização de um método fenomenológico já praticado anteriormente. […] Foi essa radicalização das tendências metódicas […] que levou a uma metodologia de novo tipo […] e, ao mesmo tempo, a um tratamento de novo tipo das questões de princípio especificamente filosóficas.”
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Heidegger: “A fenomenologia é, quando se compreende corretamente, o conceito de um método.”
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Reinach: “Trata-se de um método do filosofar, exigido pelos problemas da filosofia.”
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Richir: “A fenomenologia não é outra coisa senão a filosofia convertida em método, em método […] de descrição do que 'acontece' na experiência (as famosas coisas mesmas), sem que haja, em tudo isso, em princípio e em coerência com o método, uma 'tomada de posição' ou um 'saltus mortalis' metafísico.”
Duas observações orientadoras devem preceder a introdução ao método fenomenológico.O método fenomenológico não pode ser ingenuamente separado de sua matéria ou de seu objeto, pois a tentativa de legitimar o conhecimento coincide, no plano fenomenologicamente mais originário, com a própria execução dessa legitimação.-
Levinas já havia observado isso, seguindo a crítica hegeliana ao procedimento kantiano de distinguir “método” e “verdade”.
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Tobias Keiling: “A fenomenologia não é, portanto, apenas um método que prescreve determinados passos a seguir, mas ao mesmo tempo aquela filosofia que, ao alcançar uma unidade com seu objeto, uma fusão com a própria coisa, torna-se supérflua.”
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Heidegger, nos Problemas Fundamentais da Fenomenologia: “A fenomenologia não existe, e se pudesse existir, jamais se tornaria algo como uma técnica filosófica. Pois na essência de todo método genuíno como caminho para a abertura dos objetos está o fato de ter de se orientar sempre pelo que é por ele mesmo aberto. Exatamente quando um método é genuíno, abre o acesso aos objetos, o progresso realizado sobre seu fundamento e a crescente originariedade da abertura farão necessariamente envelhecer o método que para isso contribuiu. O único verdadeiramente novo na ciência e na filosofia é apenas o perguntar genuíno e o combate servil com as coisas.”
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Seria, portanto, sem sentido querer antecipar à obra fenomenológica concreta um “relatório sobre o método” (Descartes).
O método fenomenológico não pode tampouco ser separado do “horizonte fundamental” da fenomenologia, que consiste em uma “ausência absoluta de pressupostos”, o que significa que nenhuma decisão prévia é tomada sobre o que seja o “assunto” das análises filosóficas nem sobre como ele pode ser adequadamente investigado.-
Essas análises inscrevem-se em uma configuração de quatro pontos de fuga da formação de sentido: “transcendentalidade”, “significatividade”, “eidética” e “correlacionalidade”.
Fenomenologia como Filosofia Transcendental
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A fenomenologia, para ser compreendida como filosofia transcendental, requer uma referência ao conceito moderno do transcendental, tal como introduzido por Kant e desenvolvido por Fichte.
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Husserl: “Quando a fenomenologia […] se introduziu simultaneamente como peça inicial e como ciência metodológica universal para uma filosofia fenomenológica, já estava dito com isso que uma filosofia em geral, segundo todo o seu sistema, só poderia assumir a forma de uma ciência rigorosa por último como filosofia transcendental universal, mas também apenas sobre o solo da fenomenologia e no método especificamente fenomenológico.”
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Para Kant, “transcendental” designa um conhecimento que se ocupa “com nosso modo de conhecer objetos, na medida em que este deve ser possível a priori”, ou seja, as condições de possibilidade da experiência e, por meio delas, do conhecimento.
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Essas condições de possibilidade são, elas próprias, transcendentais porque não são acessíveis a nenhuma experiência – precisamente porque são o que a torna possível.
Fichte acrescentou uma segunda determinação essencial do conceito clássico de transcendental: a correlação de pensamento e ser, ou de consciência e objeto de consciência, como traço distintivo do transcendentalismo.-
Fichte: “Se alguém quiser apenas refletir, pode perceber que absolutamente todo ser pressupõe um pensar ou uma consciência dele: que, portanto, o mero ser é sempre apenas a metade de uma segunda metade, o pensar dele, e, portanto, membro de uma disjunção original e mais elevada […]. Isso Kant descobriu e tornou-se assim o fundador da Filosofia Transcendental.”
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Essa correlação não significa simplesmente a relação entre consciência representante e objeto representado, mas, como Fichte enfatiza, subjaz à separação de “representação” e “coisa” e torna possível a relacionalidade entre ambas.
A correlação que caracteriza o transcendentalismo e a propriedade do tornar-possível estabelecida por Kant entram em uma tensão peculiar entre si, que Fichte resolveu introduzindo o conceito de “intuição intelectual”; Husserl substitui esse conceito pelo de “experiência transcendental”, a fim de escapar ao estreitamento epistêmico de Fichte.-
Para Husserl, “transcendental” expressa um motivo fundamental, a saber, o do “perguntar regressivo pela última fonte de todas as formações cognoscitivas” (Krisis, p. 100).
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Husserl mantém a concepção kantiana do tornar-possível, mas reivindica para isso um conceito de experiência genuinamente transcendental-fenomenológico, que abre um campo de pesquisa fenomenológico de análises infinitas.
Fenomenologia como Filosofia do Sentido
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O segundo caráter essencial da fenomenologia diz respeito à sua dimensão de sentido: trata-se, de modo absolutamente fundamental, de “esclarecimento do sentido”, isto é, de tornar compreensível o sentido em geral.
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Duas dificuldades devem ser evitadas: a aderência excessiva à positividade do ente, de um lado, e a concepção abstrata e vazia de um “sentido do todo” ou de um “ser” vagamente utilizado, de outro.
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O sentido também não deve ser concebido como mera dimensão de representação ou forma de imagem mental em face do ente “real” material.
O sentido está intimamente ligado ao compreender propriamente dito: é aquilo que inscreve os pensamentos em um horizonte de significação e que projeta e circunscreve o “para-quê” de todo compreender.-
O sentido não designa o “objeto” nem o modo de seu “ser-dado”, mas o “espaço de jogo” ou o “elemento” no qual o que aparece se manifesta com uma significação mais ou menos determinada.
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O sentido é aquela dimensão que abre o mundo, na qual o real aparece em suas condições mínimas – mas necessárias – de verdade.
Na Krisis, Husserl designa o “solo do sentido” como um “imenso a priori estrutural” que constitui a condição fundamental para o compreender e a intelecção; o sentido liga expressões, pensamentos e conteúdos de pensamento a estruturas e configurações de compreensão que não se contentam com modelos puramente formalistas.-
A referibilidade ao sentido não se reduz a um remeter abstrato-formal que acabaria circulando em círculos.
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O sentido é, assim, o para-quê horizontico que se vai cumprindo do compreender, que não o deixa simplesmente em suspenso, mas lhe dá, por assim dizer, sustentação e conteúdo.
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A dificuldade consiste no fato de que o sentido não é um objeto imediato da consciência, mas deve ser contado entre os parâmetros transcendentais, que vêm à doação em uma “experiência transcendental”.
Fenomenologia como Ciência das Essências
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O conceito husserliano de “essência” designa o ponto de intersecção entre transcendentalidade e significatividade.
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Hedwig Conrad-Martius, discípula de Husserl: “Para o fenomenólogo […] o mundo está cheio de significatividade apriorística. 'Sentido' não é aqui usado em significação teleológica […]. 'Sentido' é aqui igual a 'essência'; e essência é precisamente essa última, qualitativa e própria configuração que dá a cada mínimo e máximo estado de ser seu lugar insubstituível e irredutível a outra coisa, seu lugar de sentido.”
Os “objetos” da pesquisa fenomenológica, os “fenômenos”, são objetos de uma ciência filosófica na medida em que são interrogados quanto ao seu conteúdo essencial universal.A crítica ao psicologismo, desenvolvida por Husserl no primeiro volume das Investigações Lógicas (1900/1901), fundamenta a distinção entre fenomenologia e psicologia.-
O primeiro argumento denuncia a confusão entre o ato e o objeto do conhecimento: o ato é empírico e transcorre no tempo; o objeto do conhecimento ideal (as leis lógicas, e também toda significatividade em geral) é extratemporal, e os dois são qualitativamente heterogêneos e não redutíveis um ao outro.
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O segundo argumento reside na demonstração da autocontradição do psicologismo: se toda idealidade fosse redutível a atos psíquicos reais, isso equivaleria ao fim de toda formação teórica geral – pois a empiricidade real não é universalidade –, e o próprio psicologismo, tendo uma pretensão teórica, se mina a si mesmo.
A Correlação Fenomenológica
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O conceito de correlação, já mencionado como traço do transcendentalismo (correlação de ser e pensar, de consciência e objeto), deve agora ser determinado em seu significado genuinamente transcendental-fenomenológico.
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A relacionalidade é sempre precedente; ela é o a priori fenomenológico mais próprio – Husserl fala do “a priori de correlação universal de objeto de experiência e modos de doação”.
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Dois enfoques são de saída excluídos: que os objetos devam ser concebidos como objetos existentes em si, e que a consciência consista em uma espécie de “recipiente” que acolhesse em si determinações objetuais.
Da análise fenomenológica, considerada do ponto de vista sistematicamente fundamental, devem ser veiculados três níveis ou “esferas” fenomenológicas, cada uma com seu tipo de correlação.O primeiro nível não é genuinamente fenomenológico: corresponde à “atitude natural”, na qual o que aparece é concebido como sendo-em-si, o que vale tanto para a consciência pré-filosófica como para a atitude das ciências naturais; o aspecto decisivo nesse nível é a tendência à objetivação.O segundo nível, geralmente considerado o genuinamente fenomenológico, é o campo de pesquisa infinito da “subjetividade transcendental”, que se abre graças à epoché e à redução; a correlação aqui determinante é a “correlação noético-noemática”, que abrange os conteúdos de sentido dos objetos intencionais (noemata) e seus correlatos na consciência (noeses).O terceiro nível é a esfera “pré-imanente” ou “pré-fenomenal” da consciência, aberta por Husserl explicitamente em suas análises do tempo; aqui não se pode mais falar propriamente de “consciência”, pois nada imanente à consciência pode mais ser descrito, e “pré-fenomenalidade” significa “anonimato” radical – alguns fenomenólogos, como Jan Patocka, introduzem aqui o conceito de “fenomenologia assujeitiva”.-
Nessa esfera, acessível pela construção fenomenológica, renuncia-se a todo desempenho constitutivo orientado pelo sujeito, e a “objetualidade” não é um ente pressuposto, mas apenas “polaridade” da relacionalidade pré-intencional precedente.
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Isso exige uma nova forma de redução fenomenológica – a “indução transcendental” – que o próprio Husserl não mais elaborou.
Os eixos fundamentais do método fenomenológico são: a epoché e a redução, a variação eidética, a descrição fenomenológica e a construção fenomenológica.Epoché e Redução
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O ponto de partida da pesquisa fenomenológica é necessariamente a “epoché” fenomenológica, que corresponde, de modo mais radical, à divisa da “ausência absoluta de pressupostos”: nenhuma decisão prévia deve ser tomada sobre o que pode ser considerado “ente”, “verdadeiro” etc., antes de resistir a toda crítica da investigação orientada para a fundamentação última radical.
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A pressuposição que tem precedência, tanto no plano ontológico quanto no gnoseológico, é aquela que diz respeito ao ser do mundo como totalidade do ente, segundo a qual o ente é dado “em si”, existindo independentemente de e fora de qualquer relacionalidade.
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Husserl aplica a isso o instrumento metódico fundamental da “epoché”, o que equivale a uma “desativação” ou “colocação entre parênteses” de toda “posição de ser” ou “tese de ser”.
A abertura desse estado de “suspensão” não se separa, para Husserl, de um segundo passo: o perceber que essa colocação radical entre parênteses de toda posição de ser abre a perspectiva da relacionalidade originária – e esse procedimento constitui a redução fenomenológica.-
A “reductio” deve ser entendida como “reconductio”, isto é, como um “reconduzir” (à relacionalidade transcendental, que abre a transcendência).
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Husserl privilegia a “consciência intencional” como polo subjetivo; outros, como Heidegger, compreendem essa relacionalidade originária menos como uma relacionalidade da consciência do que como uma ontológica.
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Na fenomenologia, uma insight decisiva de Descartes é elevada a um nível reflexivamente mais alto: Descartes vira o “Ego (cogito)” surgir como “fundamentum inconcussum” do conhecimento certo; na fenomenologia, a desativação rigorosa da tese de ser reconduz – de modo paralelo, mas radicalizado – à relacionalidade originária.
Marc Richir elaborou uma extensão notável dessa relação: a redução fixa o que a epoché primeiro libertou; a epoché não consiste puramente de modo negativo em uma desativação, mas em uma abertura específica da dimensão de sentido “fluente” em contraste com a aparente fixidez das objetualidades “reais”; a redução aprofunda o peculiar “aquém” em face do “além” constituído por aquela abertura do fluir.-
A epoché “transcende” a positividade para fazer aparecer o que a faz “oscilar”, “vibrar”, “piscar”; a redução assume então a positividade (não do objetivo real, mas do genuinamente “fenomenológico”, que Heidegger chamou de “inaparente”) para tornar acessível a esfera do aquém, que é precisamente a do fenomenológico.
A Variação Eidética
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Como a fenomenologia não lida com o ente psíquico-real, mas leva em conta para o que há a ser fenomenologicamente investigado uma forma de “essencialidade” (ou “eidecidade”), é necessário evidenciá-la com toda a clareza; para esse fim, Husserl desenvolve uma abordagem metódica própria, que não precisa ser executada explicitamente a cada vez, mas apenas joga implicitamente na análise fenomenológica.
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Para a determinação do eidos e da variação eidética que o constitui, dois aspectos são decisivos: o quadro do método e o esclarecimento da essência própria do eidos.
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A eidecidade de um fenômeno só pode ser evidenciada quando se torna claro que ela já se mantém em um movimento dinâmico-funcional de variação de “modelos” e “cópias”; Husserl designa essa dinâmica como “a configuração de qualquer objetualidade experimentada ou fantasiada em uma variante”, “sua configuração na forma […] do 'modelo' condutor”, “do membro inicial para uma multiplicidade abertamente infinita de variantes, abreviadamente uma variação”.
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Esse procedimento justifica-se pelo fato de que o caráter de necessidade do eidos não pode simplesmente ser afirmado de modo assertórico.
Os aspectos principais da variação eidética (com a “ideação” ou “visão das ideias” que lhe pertence) são os seguintes:-
Primeiro: por meio de realizações da fantasia, obtêm-se, a partir de um “modelo”, “cópias” – e esse “obter” mantém-se na notável tensão entre produzir ativo e contemplar passivo, que são precisamente essas genuínas realizações da fantasia (que lembram a “imaginação oscilante” de Fichte).
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Segundo: na variação, através das variantes, perpassa necessariamente uma invariante; o procedimento aqui aplicado Husserl também chama de “ideação”, à qual a “visão das ideias” pertence essencialmente.
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Terceiro: dois tipos de correlação estão em jogo – a correlação fundamental de variante e invariante, de factum e eidos (sem que o eidos dependa, do ponto de vista ontológico, de qualquer faticidade empírico-real), e a correlação de unidade e multiplicidade (aberta), caracterizada por uma “recoberta deslizante” dinâmica.
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Quarto: o eidos não é um conceito geral, mas uma “lei da necessidade”; a ideação não pode ser reduzida a uma abstração conceptual – enquanto a abstração conceptual separa o geral conceitual do individual-real dado sem mais tocá-lo, a variação eidética traz, por assim dizer, a necessidade para a contingência do modelo (o que lembra a determinação kantiana do conhecimento, segundo a qual “só conhecemos das coisas a priori o que nós mesmos nelas colocamos”, mas com a diferença de que Husserl não restringe o eidos a uma função meramente epistemológica).
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Quinto: em Experiência e Juízo, Husserl esclarece que o eidos “se apresenta como aquilo sem o que um objeto dessa espécie não pode ser pensado, isto é, sem o que ele não pode ser fantasiado intuitivamente como tal. Essa essência universal é o eidos, a idea no sentido platônico, mas apreendida puramente e livre de todas as interpretações metafísicas, tomada exatamente tal como vem a nos ser dada imediatamente de modo intuitivo na visão das ideias que surge por esse caminho.”
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Sexto: a variação eidética tem relevância ontológica para o campo fenomenológico: permite interpretar ontologicamente o campo fenomenológico – desacoplado de todo ser prévio pela epoché – de tal modo que o conceito de ser aqui relevante não pressupõe um ser real.
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Sétimo: o eidos não é uma “ideia” no sentido do platonismo – Husserl contesta a reivindicação de uma forma de ser genuína e autônoma do eidos –, embora considere que o próprio Platão (que deve ser estritamente distinguido do “platonismo”) já havia apreendido, no conceito de “ideia” ou “eidos”, o que ele mesmo designa por “eidos”.
Descrição Fenomenológica
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A descrição fenomenológica distingue-se das descrições habituais principalmente pela sua dimensão crítica: a fenomenologia é a mais atenta caçadora de toda forma de ingenuidade, identificando várias espécies dela.
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A forma mais baixa de ingenuidade – a crença no ser-em-si do ente dado – já é revelada e evitada pela epoché.
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Num primeiro passo, procede-se também de modo “ingênuo” (Husserl fala de uma “fenomenologia ingenuamente reta”), até que, num passo subsequente, uma “teoria e crítica da razão fenomenológica” seja realizada e se complete por meio de “descrições mais elevadas”, graças às quais a ingenuidade é completamente eliminada.
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A ingenuidade do primeiro nível da descrição fenomenológica é chamada por Husserl de “ingenuidade transcendental”: refere-se ao campo infinito de pesquisa da “subjetividade transcendental” antes de toda crítica apodítica, distinguindo-se da ingenuidade na atitude natural pelo fato de que esta se perde em seu objeto, cujo ser-em-si é por ela assumido.
O primeiro aspecto importante da descrição fenomenológica é o fato de que ela traz à tona as implicações intencionais contidas implicitamente em todo referimento intencional.-
Toda atualidade implica suas potencialidades: toda doação presente ou “presença” significa ao mesmo tempo uma copresença ou “copresença” de horizontalidades que também são dadas, ainda que não possam ser explicitamente visadas.
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Essas horizontalidades são “excedentes” em relação à presença atual; os horizontes copresentes não são “possibilidades vazias”, mas já prescrevem possibilidades realizadas ou a realizar, chamadas por Husserl de “potencialidades” de um “eu posso” ou “eu faço”.
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Os objetos da consciência não chegam à consciência de fora, mas nela estão contidos “como sentido”, isto é, como “realização intencional da síntese da consciência”; a intencionalidade de horizonte é um fator essencial para a constituição do sentido do objeto intencional, cujo sentido nunca é visado por inteiro, mas sempre apenas “implicitamente”.
A intuição (ou evidência intuitiva) é de importância central para a descrição fenomenológica: ela é válida apenas quando o que há a descrever pode ser dado em intuição evidente; a intuição tem caráter de evidenciação e confere evidência.-
Nisso se funda o “princípio de todos os princípios” de Husserl, expresso no § 24 de Ideias I: toda “intuição doadora originária” é uma “fonte de direito do conhecimento”.
Construção Fenomenológica
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O caráter transcendental da fenomenologia manifesta-se do modo mais consequente pelo fato de que sua dimensão transcendental revela aspectos construtivos no procedimento metódico, que permitem concluir a crítica transcendental e eliminar o último resquício de “ingenuidade transcendental”.
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A descrição fenomenológica, e em especial a redução fenomenológica, não se limita à liberação do campo de experiência da subjetividade transcendental e das implicações intencionais correspondentes: o campo da subjetividade transcendental não é meramente “dado”, “presente”, “atual”, de modo que uma descrição bastasse para evidenciar seus momentos estruturais – ele requer uma eliminação dos obstáculos que o encobrem, um trabalho “desconstrutivo” que Husserl chama de “redução de demolição” (Abbaureduktion), e ao qual corresponde positivamente uma “construção” fenomenológica.
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Essa construção não é nem metafísica nem hipotético-dedutiva, e tampouco aponta meramente “condições de possibilidade” da experiência; ela coloca o objeto da investigação na tensão entre o fenomenalmente dado e o fenomenologicamente a construir, o que é assegurado por uma “intuição construtiva” no interior da “experiência transcendental”.
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Procede-se à construção fenomenológica quando a descrição fenomenológica chega a seus limites, quando a evidência intuitiva não consegue decidir entre diferentes “fatos-limite” faticamente apresentados – por exemplo: a temporalidade originária é “objetiva”, “subjetiva” ou pertence a uma dimensão “pré-objetiva/pré-subjetiva”? O eu fenomenológico é solipsístico ou intersubjetivamente constituído?
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Construir fenomenologicamente significa, assim, descer em um movimento em zigue-zague desses fatos-limite até a dimensão a construir do que pode explicar esses fatos, mantendo-se sempre vinculado a eles – não é uma construção fictícia, mas uma que se atém ao que há a construir.
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Nesse sentido, o idealismo transcendental husserliano se distingue do kantiano: graças à construção fenomenológica, o primeiro empreende legitimar o conhecimento – razão pela qual, em uma fenomenologia construtiva, os conceitos de fenômeno e de legitimação e fundamentação do conhecimento devem ser pensados conjuntamente.
Os conceitos clássicos do método fenomenológico – tal como Husserl os introduziu e desenvolveu em seus escritos programáticos – têm seus limites, o que o próprio Husserl reconhece (capítulo IV), embora já estejam nele esboçados aprofundamentos que em parte ultrapassam suas próprias exposições; a relação entre a fenomenologia husserliana e a hermenêutica heideggeriana não pode ser tratada em detalhe neste contexto limitado, com a importante exceção do conceito de compreensão, que estará no centro do próximo capítulo. -
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