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Ego

(Richir1987)

O que queremos dizer, portanto, é que Husserl abriu esse espaço, essa lacuna, às cegas, quase contra a própria vontade, mas que também ali se manteve, quase cegamente. Se o espectro do psicologismo transcendental continua a assombrar sua obra, isso certamente não se deve, em primeiro lugar, ao fato de os fenômenos estarem relacionados ao polo de um ego transcendental, mas porque as essências são insuficientemente “definidas” no plano estritamente fenomenológico, ou porque estão sempre contaminadas pela determinidade da objetividade intencional, pelos conceitos determinados que, da mesma forma, a determinam e a refletem, e à qual deve responder a determinidade de um sujeito transcendental constituinte. Se a redução fenomenológica husserliana permanece fundamentalmente instável, se ela não consegue revelar a dimensão transcendental intrínseca ao fenômeno, ou seja, o horizonte de sua fenomenalidade em sua fenomenalização, é porque subsiste, em Husserl, uma espécie de confusão inerente entre fenômenos e essências, as quais permanecem sempre, para ele, ligadas a determinações ontológicas (formais e materiais): as essências husserlianas são sempre codeterminadas por conceitos determinados. É característico, a esse respeito, que, tanto na problemática da percepção quanto na da Razão (em particular na *Krisis*), Husserl tenha de recorrer a uma arqueo-teleologia intencional: o fenômeno permanece sempre relacionado a um objeto, a uma determinação, cujo efeito da colocação entre parênteses fenomenológicos é fazê-lo funcionar como um conceito da reflexão — o fenômeno se manifesta como tal no que Kant teria chamado de juízo teleológico reflexivo. Mas não é menos característico que Husserl tenha buscado, muito cedo (já em 1905), a raiz dessa reflexão no tempo puro (a “consciência íntima do tempo”) ou no que ele chamou mais tarde de “Presente vivo” — e essa é uma das origens do ponto de partida heideggeriano com *Sein und Zeit* —, mesmo que essa raiz tenha permanecido indetectável, pelo menos em sua essência. O único lugar, sem dúvida, em sua obra, onde o fenômeno é explicitamente refletido sem conceito, é o do Outro, ou seja, da apreensão originária de um corpo de carne (Leib) por um corpo de carne, e isso mesmo que Husserl ainda tente descobrir suas raízes no que ele denomina o “mundo primordial”. É ali que se revela, de fato, o fenômeno em sua dimensão “selvagem” ou transcendental intrínseca, na ek-stase originária do Leib como fenômeno ao Leib como fenômeno, e a revelação concomitante de uma temporalidade originalmente afastada de si mesma 1). Esse foi, como se sabe, o ponto em que Merleau-Ponty delineou, em sua última obra, um novo ponto de partida para a fenomenologia. Permanece, portanto, se considerarmos a obra de Husserl sob esse ângulo, uma ambiguidade — que não é apenas estéril — quanto ao status do que ele entendia por ego puro ou transcendental, e não basta relacioná-lo à “metafísica” moderna da “subjetividade” coextensiva ao cogito cartesiano para eliminá-la. Se, de fato, não há um ego puro capaz de se manifestar em si mesmo de maneira definitiva, mas apenas uma certa estrutura reflexiva que é a do Presente vivo, e que é, ao mesmo tempo, a da consciência, há de fato uma ambigüidade entre uma ipseidade irrefletida, mas fundamentalmente indeterminada em sua reflexão — desde que esta ocorra sem um conceito já dado —, e a ipseidade tal como se determina como ego na reflexão de um cogito — O próprio Husserl sabia disso muito bem, reconhecendo (por exemplo, no Nachwort às Ideen) que a dimensão transcendental da fenomenologia só poderia ser alcançada por meio de uma arte da nuance (Nuancierung). Veremos, no que tentaremos fazer aqui, a maneira como, em nossa opinião, essa arte da nuance deve ser entendida como uma verdadeira arte fenomenológica. No entanto, isso se dará à custa de uma compreensão mais ampla, por meio da constituição fenomenológica de essências nem sempre já predeterminadas por conceitos, da temporalização ontológica, dentro da qual se insere a raiz do Presente vivo como estrutura reflexiva intrínseca do esquematismo da fenomenalização (o que chamaremos de fase de presença da escrita esquemática). Aliás, isso não tem apenas o efeito de temporalizar os fenômenos e sua inscrição esquemática, mas também de espaçar as ek-stases do tempo de maneira irredutível. Assim, o passado emergirá como passado transcendental, ou seja, como um lugar sempre já e para sempre passado, que só ilusoriamente é um lugar de Gewesen, e o futuro como futuro transcendental, ou seja, como um lugar sempre ainda e para sempre futuro, que só ilusoriamente é um lugar de Zukunft. Pois o passado como Gewesen e o futuro como Zukunft são estritamente coextensivos ao que chamaremos de fase da presença, como os ecos, refletidos nela pela linguagem, desses lugares do tempo que, em sua origem, foram espacializados. Assim, o Presente vivo emergirá com suas retenções e protensões, mas tendo como pano de fundo uma ausência (Abwesen) irredutível e fragmentada, de sempre e para sempre, que constitui, por assim dizer secretamente, seu alimento, o abismo infinitamente oculto, a parcela de não-consciência ou de inconsciência sem a qual a consciência (de si e do que o eu não é), mas também a êxtase originária do Da-sein, não seriam possíveis.

1)
Encontramos, significativamente, o mesmo movimento em Fichte, na Grundlage des Naturrechts (1795), §§ 5-6, onde esse tipo de apreensão é explicitamente relacionado ao juízo estético reflexivo.
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