User Tools

Site Tools


husserliana:richir:deuses:hesiodo

Hesíodo

Marc Richir. La naissance des dieux. Paris: Hachette, 1995.

Hesíodo e a instituição da mitologia

  • De Hesíodo, que viveu na virada dos séculos VIII e VII a.C., sabe-se praticamente nada que não seja lendário, e sua obra principal divide-se em dois poemas, a “Teogonia” e “Os Trabalhos e os Dias”, sendo a “Teogonia” o único relato mitológico completo da literatura grega, um relato erudito e sistemático no qual todo traço mítico ou mítico-mitológico desapareceu em favor de uma ordem imutável.
    • Com a “Teogonia” como ordenação do “emaranhado” mítico-mitológico, assiste-se a um segundo trabalho de elaboração simbólica, no qual o panteão mitológico se sustenta por genealogias divinas coerentes que culminam na entronização de Zeus, mantendo-se à distância dos homens por dois “mitos” de sua origem: o das raças e o de Prometeu, Pandora e Epimeteu.
    • Nessa sistematização propriamente mitológica, toda a questão da fundação é reelaborada, como se os deuses já tivessem poupado aos homens a tarefa de resolver essa questão insolúvel.
  • Os relatos de fundação e os ciclos épicos deixam em suspenso a questão fundamental, herdada do pensamento mítico, sobre em que medida os primeiros reis e os heróis da epopeia são “já” homens, e onde começa propriamente a humanidade, uma vez que, nos mitos e nos relatos de fundação, homens, heróis e animais estão intimamente ligados por metamorfoses, e a cisão entre eles só se estabelece com dificuldade.
    • A instituição da realeza coloca essa questão na medida em que ela é a instituição de uma “transcendência” sobre a sociedade, um poder ao qual os homens são simbolicamente constrangidos a se submeter, e é essa “transcendência” que induz a mitologização dos mitos, convertendo personagens em deuses e “heróis” fundadores, e estabelecendo genealogias que asseguram, na fundação, a “transcendência” do poder.
    • A fundação é sempre teológico-política, e a remanescência do mítico no mitológico a torna tão complexa e inextricável que ela se revela finalmente impossível, havendo, sem dúvida, recodificações simbólicas de conflitos políticos, mas indiscerníveis porque foram recodificados imediatamente nesse “regime” simbólico de pensamento.
    • Entre os séculos VIII e VII a.C., surgiu na Grécia uma tendência à unificação cultural (pan-helenismo), sensível em Homero e Hesíodo, e, portanto, a necessidade de ordenar o inextricável “emaranhado” mítico-mitológico das fundações, sendo essa ordenação essencialmente obra de Hesíodo, que empreendeu uma “redução mitológica” tanto do lado dos humanos quanto do lado dos deuses.

A origem da humanidade

O “mito” das raças

  • Esse “mito” das raças, que o é apenas por abstração, esforça-se por regular a passagem, impossível nos relatos de fundação, entre a “pré-humanidade” que coexistia com a sociedade dos deuses e a humanidade propriamente dita, que nunca chega a aparecer nesses relatos.
    • A primeira raça, a raça de ouro, produzida pelos Imortais nos tempos de Cronos, era uma idade pré-política, sem reis, onde os homens viviam como os deuses, na opulência, sem trabalho, sem velhice e sem híbris, sendo essa “sociedade” comum a “homens” e deuses uma reminiscência ou uma retrojeção transcendental de um estado arcaico, pré-político, cujo traço os mitos teriam carregado.
    • A raça de ouro foi recoberta e enterrada no solo, convertida em daimones, “bons gênios” da terra, por vontade de Zeus, tornando-se “guardas dos homens” e “dispensadores de riquezas”, ou seja, uma das dimensões da realeza, os “supervisores” da realeza, sem serem o rei justo.
    • A segunda raça, a raça de prata, produzida pelos Olímpicos, condensa a segunda geração de heróis fundadores, com os quais se desencadeiam as intrigas da fundação, marcadas pela híbris e pela impiedade, e por conflitos entre os homens, o que leva Zeus a enterrá-los na terra, onde se tornam os “Subterrâneos”, “Bem-aventurados” e “gênios inferiores”.
    • Essa raça de prata representa a dimensão “tirânica” da realeza, pela qual o rei tende a se instituir como sua própria origem, sem respeito aos deuses, e Hesíodo dissocia essa dimensão da dimensão “epictônia” da realeza, codificando-as em dois genoi sucessivos que são duas dimensões “transcendentais”, uma à luz e outra na obscuridade.
    • A terceira geração, a de bronze, associada a Ares, evoca os seres que nascem do solo armados para se matar, sendo uma raça guerreira, de força bruta e terror, que sucumbe por suas próprias mãos, partindo para o Hades sem deixar nome, e Hesíodo relega essa geração à morte anônima como uma das dimensões obscuras da realeza, seu auxiliar violento e cego a todo equilíbrio.
    • A quarta geração, a dos heróis, chamados de semi-deuses, é recodificada por Hesíodo como a raça heroica dos relatos de fundação e da epopeia homérica, que faz a guerra justa e, por seus feitos, acede ao estatuto sagrado de herói, habitando para sempre na Ilha dos Bem-aventurados, onde Cronos é seu rei, reconciliando a função guerreira e a função real, como os Cent-Bras se aliaram a Zeus na “Teogonia”.
    • A raça de ferro, a geração do presente, é a geração dos homens propriamente ditos, distinta das outras, e é a raça da doença, da velhice, da morte, das fadigas e das angústias, prometida à degenerescência física e moral, quando os laços de parentesco e o respeito aos deuses se dissolverem, e a realeza fundada na justiça se tornar tirania cega, significando a impossibilidade da fundação da realeza para os homens.
    • Hesíodo, dirigindo-se aos reis, invoca Dike, a justiça, para temperar o arbítrio e a híbris dos reis “comedores de presentes”, pois Zeus, ao instalar os reis, os vigia com seu “olho que tudo vê”, e a fundação, por mais instável que seja, torna-se abertamente teológico-política, sendo essa fundação que será posta em causa pelos Trágicos, até o colapso do “mundo” dos deuses em uma maquinaria simbólica sem sentido com Eurípides.

O “mito” de Prometeu

  • O “mito” de Prometeu, reconstruído a partir das necessidades genealógicas da mitologia, encadeia sistematicamente, em um único relato, quatro origens: a do sacrifício, a do fogo humano, a das mulheres e, correlativamente, a dos males próprios da humanidade.
    • Na “Teogonia”, Prometeu e Epimeteu são fixados genealogicamente como dois irmãos gêmeos, filhos do Titã Jápeto e da Oceânide Clímene, e a história começa com o ajuste de desavenças entre deuses e humanos em um banquete, onde Prometeu, com um ardil, distribui as partes do sacrifício de forma enganosa para favorecer os homens.
    • Zeus, percebendo a astúcia, escolhe a aparência e, com raiva, institui a origem dos sacrifícios, nos quais os homens queimam os ossos envoltos em gordura nos altares, repetindo a primeira falta separadora, e, como contra-partida, Zeus retira o fogo dos humanos, mas Prometeu o rouba, escondendo-o no interior de uma férula.
    • Zeus, vendo o fogo entre os humanos, maquina um contradom, um mal definitivo, e ordena a Hefesto a fabricação de Pandora, a “primeira mulher”, um artefato modelado em argila, adornado por Atena e Hefesto, que é exposto a deuses e homens como um “belo mal”, do qual provém a raça das mulheres, “grande flagelo para os mortais”, deixando os homens no dilema do celibato ou do casamento.
    • Nos “Trabalhos”, o relato complementa a “Teogonia”, destacando a fabricação de Pandora, na qual Zeus a faz aprender os trabalhos com Atena, receber a graça, o desejo e os cuidados de Afrodite, e o espírito impudente e o coração artificioso de Hermes, sendo chamada Pandora porque é o dom de todos os Olímpicos aos homens que comem pão.
    • A aceitação de Pandora por Epimeteu, contra o conselho de Prometeu, faz com que ela abra a jarra que continha todos os males, que se dispersam pelo mundo, restando apenas a Esperança, e a terra e o mar se enchem de males e doenças, consumando a diferenciação entre deuses e humanos, paralelamente à elaboração da teogonia e à instauração de um novo tipo de apercepção, a apercepção teotética.

A teogonia e a apercepção teotética

  • Com a separação estabelecida entre homens e deuses, o problema passa a ser o que é um deus, um certo tipo de “condensado” simbólico por meio do qual se efetua uma “colonização” do campo global da experiência humana pela linguagem teológica, no quadro da instituição simbólica da realeza, e o problema específico da unificação mitológica é o de uma conciliação “harmônica” de todos os poderes divinos, tendo como contrapartida a autonomização dos deuses em uma esfera “transcendente”.
    • A mitologia significa, a termo, o eclipse do campo dos relatos mítico-mitológicos pelo campo dos deuses e de seus encadeamentos genealógicos, e o trabalho da mitologia é um trabalho de “abstração”, que reporta a questão da legitimação da soberania ao registro da legitimação da soberania divina em Zeus, ordenando os deuses pela genealogia.
    • Na “Teogonia”, o esforço de mitologização remonta a um primeiro começo, a partir de Caos, Geia e Eros, em uma cosmogonia cujo sentido escapa, mas que é preciso ler como “potências de evocação”, não como conceitos filosóficos, e essa proliferação de divindades leva a uma espécie de “escolástica” da nomeação divina, criando deuses sem culto conhecido.
    • A “Teogonia” é um relato de fundação “transcendental” da realeza pela fundação da realeza legítima de Zeus, que opera uma redução mitológica dos relatos mítico-mitológicos de fundação, uma “redução esquemática e genealógica” que põe à distância a híbris da realeza de Cronos pela fundação da realeza de Zeus, assistida pela híbris dos Ciclopes e dos Cent-Bras, e assegurada por sua aliança com Métis e Dike.
    • Na mitologia, a fundação deve dar conta do escândalo da instituição da realeza, o poder coercitivo de um só sobre os outros e sua transmissão dinástica, e nos deuses há o caráter terrível que há em todo poder real, sendo que, do ponto de vista fenomenológico, o que liga os homens aos deuses e aos reis é algo que pode ser chamado de hipnose transcendental.
husserliana/richir/deuses/hesiodo.txt · Last modified: by 127.0.0.1