Ser/estar consciente
La conscience
1. Questões-chave
Do ponto de vista estrutural, são os atos da consciência que definem, cada um à sua maneira, minha relação com o mundo.
Estar consciente do que nos rodeia ou ter consciência de si mesmo inclui, de maneira geral, uma forma — mesmo que implícita — de relação consigo mesmo, que pode ser vivenciada tanto no âmbito do conhecimento quanto no plano da ética. Ora, a experiência desse ser-consciente, desse ter-consciência ou ainda desse tornar-se-consciente não é, de forma alguma, privilégio exclusivo dos filósofos, já que cada um de nós pode vivenciá-la a cada instante de sua vida cotidiana, por ocasião de um determinado evento, seja trágico (um luto, uma separação) ou feliz (um nascimento, um encontro), que marque uma ruptura radical no curso habitual de nossa vida.
No entanto, verifica-se que essa maneira de estabelecer uma relação mais profunda consigo mesmo, uma vez que é praticada ou mesmo erigida em método, está notavelmente em sintonia com a própria abordagem filosófica, seja segundo seu eixo prático, o da sabedoria antiga, seja de acordo com seu sentido mais teórico de julgamento crítico, tal como foi colocado no centro pelo pensamento moderno. Parece, portanto, que o tema da consciência revela de maneira exemplar uma forte continuidade entre o questionamento espontâneo do senso comum e a busca deliberada e rigorosa do filósofo. Isso confere uma legitimidade evidente à disciplina fenomenológica na abordagem prioritária e abrangente de tal experiência que a atitude ingênua e a atitude filosófica compartilham tão intimamente: a abordagem fenomenológica, de fato, tem seu ponto de partida na atitude natural; por meio da operação da redução, que corresponde a uma conversão do meu olhar sobre o mundo e as coisas, instaura-se como método a transição gradual para a tomada de consciência de tipo filosófico. De fato, a redução é o método por excelência da fenomenologia: por meio dela, desvio meu olhar das coisas e deixo de estar absorvido nelas, para voltar aos atos da consciência pelos quais as vislumbro.
Assim, quando se trata da consciência, estamos diante de uma experiência integral, ao mesmo tempo de si mesmo e do mundo, de si mesmo por meio do mundo e do mundo por meio de si mesmo. As múltiplas dimensões da relação que, como sujeitos, mantemos com o mundo, encontram-se ali inscritas desde o início: percepção, afeto, temporalidade, movimento, imaginação, vontade, julgamento, linguagem, encontro com o outro, comunidade, história, saber-fazer, habitus, aspiração infinita ao sagrado e ao absoluto — tal é a ampla paleta das diferentes cores da consciência. Cada uma dessas dimensões reflete, ao mesmo tempo, tanto a estrutura quanto a dinâmica da consciência. Do ponto de vista estrutural, são os atos da consciência que definem [6], cada um à sua maneira, minha relação com o mundo: perceptivo, rememorativo, imagético, empático, julgativo, linguístico, volitivo, motor, emocional, social, histórico, habitual e espiritual; essa forma de estratificação da consciência é regida pela ordem de aparecimento desses diferentes atos vividos; do ponto de vista dinâmico, o que está em jogo é a própria gênese dessas experiências vividas, ou seja, a maneira singular como emergem minhas diferentes aptidões sensoriais, minhas lembranças imediatas e minhas antecipações próximas, a maneira como certas imagens se formam em mim, como encontro o outro, como surgem meus julgamentos e como se produzem minhas palavras, ou a forma sob a qual minhas capacidades motoras, meus afetos e meus atos deliberados se manifestam; enfim, a gênese social, histórica, habitual e mística do meu ser consciente.
