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Locke
DEPRAZ, Natalie. La conscience: approches croisées, des classiques aux sciences cognitives. Paris: A. Colin, 2001.
Locke, o inventor da consciência?
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1. F. Jacques afirma que foi Locke, e não Descartes, quem prescreveu o exame minucioso dos estados e operações de consciência, sustentando o filósofo anglo-saxão que o espírito pode ver suas próprias operações à luz que elas emitem, seguindo E. Balibar essa mesma esteira, sendo, contudo, mais complexa a questão, pois a quase ausência da palavra não implica ausência da coisa nem do conceito, tendo já Descartes identificado as propriedades da consciência que Locke colocará em primeiro plano — identidade do si no tempo e saber reflexivo de si —, embora tenham sido pós-cartesianos como Arnauld, La Forge e Régis os mais próximos de démarche psicológica de rastreamento dos estados de consciência.
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2. As perspectivas abertas por Pascal, Espinosa, Malebranche e Leibniz indicam outras vias possíveis de entendimento da consciência, seja pelo enraizamento no afeto e no corpo, seja pelo transbordamento pelo espiritual e o divino, constituindo em cada um deles, para além de inflexões específicas, a parte de excesso do não-consciente sobre a consciência, imanente ou transcendente, sua propriedade principal.
A concepção da consciência própria de Locke: debate crítico com Cudworth, Descartes e Malebranche
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1. A escolha de Locke é clara: criticar Descartes de modo diverso de Malebranche, não figurando o termo consciousness nas primeiras versões do Essay, datadas de 1670, surgindo pela primeira vez em nota de seu Diário, de 1682, ao discutir posições de Cudworth sobre a imortalidade da alma dos animais, esboçando ali sua concepção de identidade pessoal, fundada não no mesmo corpo nem na conservação de espíritos incorpóreos, mas na memória e no conhecimento do si passado continuamente submetidos à consciência de ser a mesma pessoa.
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2. Na versão final da primeira edição (1690), o termo consciência designa, ao lado da imediatidade da sensação, a mediação da reflexão pela qual o espírito percebe suas próprias operações, não sendo tal reflexão desdobramento de um si que se observaria, mas experiência imediata dotada de originariedade própria, definindo Locke, no capítulo I (19) do Livro II: Consciousness is the perception of what passes in a Man's own mind, contendo essa definição in nuce todos os elementos de sua filosofia do espírito.
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3. Situa-se Locke, na verdade, muito próximo da perspectiva cartesiana, reformulando, despida de vestimentas transcendentais substanciais, a ideia de que o espírito não pode pensar sem saber que pensa, podendo dizer-se que Locke sobrepuja Descartes: sua consciousness não é menos consciente que a cogitatio cartesiana, é mais.
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4. No capítulo XXI do Livro II (Of Power), descreve Locke a experiência da consciência como movimento de inquietude, mal-estar (uneasiness), lembrando a dúvida da primeira Meditação; mas é sobretudo no capítulo XXVII do mesmo Livro II (Of Identity and Diversity), inserido na segunda edição (1694), que a consciência é apresentada como critério da identidade da pessoa no tempo, clarificando as formulações cartesianas correlativas — penso sempre; pensar é saber que se pensa —, constituindo esse Ensaio dentro do Ensaio, segundo Balibar, a primeiríssima grande ciência da experiência da consciência, antes de Leibniz, Condillac, Kant, Reid, Hegel ou Husserl.
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5. A problemática da duração da alma no tempo, esboçada por Descartes, constitui um dos momentos fortes da análise lockiana, aproveitando Locke para desvencilhá-la de seu resíduo substancial aristotélico-cartesiano e laicizar a tese agostiniana da imortalidade da alma, escolhendo designar por mind a faculdade de pensar, reservando soul ou spirit para a alma substancial, inserido tal conjunto argumentativo na segunda edição para responder a objeções nascidas de sua crítica à ideia aristotélica da alma como forma substancial e da res cogitans cartesiana.
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6. O sentido interno (internal sense) corresponde a essa memória íntima onde se sedimentam os estados da consciência e se constitui sua identidade através do fluxo contínuo das percepções, sendo pela consciência que o si se reconhece como si, podendo o indivíduo considerar-se um Self, não sendo óbvia, contudo, a tradução de consciousness por conscience, concorrendo esse termo, à época, com seus usos em Malebranche, Arnauld e La Forge, tendo o primeiro tradutor do Essay, Pierre Coste (1700), rendido inicialmente to be conscious por être convaincu e consciousness por sentiment ou conviction, optando depois por reaclimatar o termo conscience em francês com sentido novo, revolução linguística de envergadura dada a longa vigência dessa tradução.
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7. Explica-se Coste, em nota, sobre a dificuldade de encontrar em francês termo justo para o neologismo de Cudworth e Locke, optando por conscience, associando definitivamente, mediante os neologismos con-science e soi(-même), a consciência à identificação de si mesmo como o mesmo no tempo, um si, apoiando-se ainda, na segunda nota, na identidade do moi pascaliano, não sendo a con-science lockiana nem saber de si nem desconhecimento de si, mas reconhecimento imediato pelo espírito de sua própria operatividade, de seus próprios atos psíquicos, abrindo assim Locke perspectiva nova sobre o espírito caracterizado por seus diferentes modos de atividade interna.
A virada prática e empírica da filosofia clássica da consciência e sua naturalização
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1. A ciência da experiência da consciência que aqui surge pela primeira vez assume-se claramente como empirismo e, correlativamente, como filosofia prática, denominando Wolff, bom leibniziano, psychologia empirica a psicologia de Locke para diferenciá-la da que funda nos termos de psychologia rationalis, sendo a consciência, de um lado, produto de diferentes atos internos correspondentes a efetuações verdadeiras, e, de outro, resultado prático apreendido não como termo fixo e definitivo, mas como movimento sempre recomeçado de processo, o relato, a história ou a gênese de sua origem.
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2. É no âmbito da crítica à teoria das ideias de Malebranche (1696), publicada postumamente em 1706, que aparece o primeiro esboço de naturalização da consciência, recusando Locke a distinção malebranchiana entre conhecimentos por ideias, vistas em Deus, e conhecimentos por sentimento, procedendo, para Locke, todas as ideias ou percepções da sensação, da reflexão, ou de sua conjunção, independentemente do grau de clareza ou confusão, não havendo assim conhecimentos vistos diretamente em Deus, mas apenas conhecimentos procedentes do espírito humano e suas modificações.
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3. Condillac, no Essai sur l'origine des connaissances humaines (1746), apresentará novamente o termo consciência como inovação, procedendo à naturalização definitiva de toda metafísica desta, adotando uso proveniente de Locke e, por consequência, de Coste, expondo a análise e geração das operações da alma, começando por estudar percepção, consciência, atenção e reminiscência, sendo Condillac o primeiro a fazer justiça explícita à noção de atenção como propriedade decisiva da consciência, moduladora das percepções apreendidas como atos psíquicos da consciência.
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4. Toma Condillac de Leibniz sua doutrina das pequenas percepções, retomando a concepção lockiana da consciência e a ela agregando fenômenos como o de limiar, de atenção mais ou menos viva, de memória e esquecimento, introduzindo ainda a propriedade da vigília ou vigilância, identificando o eu atual e o eu em estado de vigília, surgindo também o estatuto do eu como unidade interna para além da variedade de suas representações, gerando isso a problemática psicológica das personalidades múltiplas, adiando-se, contudo, no Traité des sensations (1754), a aparição do termo consciência até o capítulo VI do Livro I, ao final de longa gênese das faculdades a partir da sensação pura.
Os limites da perspectiva de Locke
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1. Malgrado ofereça a psicologia filosófica lockiana vislumbres notavelmente precoces de concepção empírica, ou mesmo experimental, da consciência, podem identificar-se ao menos três pontos de limitação: de ponto de vista transcendental clássico (Kant), a partir da posição lógica de Frege, e desde perspectiva fenomenológica (Husserl).
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2. A partir do sentido transcendental crítico inaugurado por Kant, da lógica do sentido e da denotação de Frege e da perspectiva fenomenológica transcendental husserliana, a compreensão lockiana da consciência aparece extremamente limitada, reduzindo tal psicologia psicologista, pré-transcendental, a estrutura da reflexividade a mero reconhecimento pelo espírito de seus próprios estados internos, à maneira de retorno sobre si segundo modelo da memória e da rememoração, procurando os defensores do transcendentalismo fazer da reflexividade o próprio a priori da consciência.
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3. Frege afasta as questões subjetivas de representação em favor do sentido lógico, dirigindo os três, Kant, Frege e Husserl, crítica paralela ao que chamam conjuntamente o psicologismo de Locke, concepção que define unilateralmente a consciência como série contingente de estados psíquicos ligados associativamente, podendo formular-se a questão comum: será o tema da consciência fato intrínseco de uma psicologia?, fornecendo cada um resposta distinta em razão de entendimento diferente do sentido do a priori.
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4. Do ponto de vista transcendental kantiano, a forma pura do Eu transcendental da apercepção procura estrutura reflexiva inteiramente indene de todo resíduo empírico ou material, condenando-se sem apelação a ilusão do psicologismo, decorrente de confusão entre forma e matéria do Eu transcendental, recebendo a apriodidade reflexiva da consciência estatuto absolutamente ideal; possuindo o transcendentalismo husserliano também essa exigência de pureza formal e idealidade apriorística, desempenhando a redução papel análogo ao da crítica kantiana das ilusões do psicologismo, sendo, contudo, o sujeito transcendental husserliano, mais que Eu apercetivo diáfano, subjetividade constituinte engajada no mundo e em sua constituição, o que supõe vínculo com seus próprios estados psicológicos, o que Husserl caracteriza como automundanização; sendo a posição logicista, enfim, mais radical, negando toda pertinência à consciência e à verdade de sua interioridade em favor apenas das operações formais, lógicas e linguísticas.
Conclusão
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1. As teorias clássicas sobre a consciência têm a virtude de atar os termos de debate ainda hoje muito vivo entre os defensores de abordagem psicológica e os da filosofia transcendental, reencontrando-se essa tensão nos diversos confrontos contemporâneos entre ciência e filosofia, seja na psicanálise, na fenomenologia, na psiquiatria ou nas ciências cognitivas.
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2. As diferentes perspectivas abertas pelos pós-cartesianos encontram-se no cerne da renovação da filosofia contemporânea pela fenomenologia, que desdobra o horizonte corporal e afetivo da consciência, bem como o da mobilização de tradições religiosas que buscam articular corpo e espírito na vida espiritual de um sujeito em busca do absoluto que porta em si sem sabê-lo.
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