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INTRODUÇÃO

BENOIST, Jocelyn. Représentations sans objet: aux origines de la phénoménologie et de la philosophie analytique. 1re éd ed. Paris: Presses universitaires de France, 2001.

Introdução. A questão dos objetos inexistentes e as “origens comuns” da fenomenologia e da filosofia analítica

  • toda investigação retrospectiva sobre a filosofia do século XX que tente não ignorar uma metade ou outra e superar as clivagens em parte artificiais nas quais ela demasiadas vezes se instalou será necessariamente levada a retornar a uma espécie de exigência comum que parece ter se imposto no final do século XIX no terreno da filosofia da lógica primeiramente, mas de modo decisivo para o conjunto do desenvolvimento da filosofia contemporânea: uma exigência de referencialidade, engajando-se então a filosofia, superados os obstáculos do psicologismo ou de toda forma de relativismo, numa verdadeira reconquista do objeto em sua transcendência, isto é, sua independência em relação às prestações subjetivas e ao que se faz dele
  • na virada do século XX erguem-se as duas obras monumentais de Frege e de Husserl, tendo ambos, um depois do outro, após tê-lo feito um contra o outro, tentado fazer valer os direitos do objeto numa démarche filosófica que passava primeiro por uma exploração das condições e formas da referência linguística
    • que uma das duas filosofias, a fenomenologia, tenha tentado, em seguida e sem dúvida desde o início, estender esse modelo a casos de referência não linguística — o que se poderá chamar “referência mental” — no sentido de evidenciar uma direcionalidade geral da consciência rumo ao objeto, isso por si só suscitará questão
    • poderia não haver aí um afastamento tão essencial, ao menos se se quiser colocar nesses termos a questão geral da relação entre as duas tradições oriundas uma de Husserl (a fenomenologia) e outra de Frege (a filosofia analítica), não constituindo o tema da referência extralinguística, “mental”, de modo algum um monopólio da fenomenologia, como atestam numerosos pensamentos neofregeanos
  • posta ao menos em suspenso essa dificuldade, resta a impressionante convergência dessa espécie de “corrida à referência” que a filosofia parece ter conduzido na virada dos séculos XIX e XX, sobre fundo de questões relativas, ao menos no início, à fonte de uma tradição como da outra, à filosofia da lógica e da linguagem, sendo nesse ancoramento que uma filosofia e a outra parecem encontrar sua origem comum
    • pareceu evidente que o terreno apropriado de tal interrogação era o de uma semântica, isto é, de uma reflexão sobre o acesso ao objeto enquanto jogado no elemento do sentido, de qualquer forma que se deva entender esse “sentido”
  • nesse terreno, a aproximação entre as duas tradições, ao menos em seu ponto de origem, parece bastante fácil de conduzir, tratando-se de ambos os lados do mesmo esquema, sendo o objeto aquilo cujo acesso é mediatizado pelo “sentido”, instância que não desempenha precisamente outro papel senão o de um corredor de acesso, ele mesmo dotado de certa objetividade
    • tal isomorfismo pôde justificar, no terreno analítico, desde o trabalho seminal de Dagfinn Føllesdal, o nascimento de inúmeras “leituras fregeanas da fenomenologia”, que constroem uma correspondência termo a termo entre os dois tipos de pensamento
    • não se pode deixar de notar a instauração, no final do século XIX, de ambos os lados da grande fratura que deveria atravessar o pensamento do século XX, desse mesmo esquema tripartite que deveria dominá-lo em comum: representação, sentido, referência de um lado, ato, conteúdo, objeto do outro
  • resta, contudo, apreciar as diferenças de sentido e de valor que podem produzir as variações de uma estrutura, não sendo porque a questão é a mesma, a da objetividade da referência, nem mesmo a forma geral da resposta, que o fundo seja idêntico, jogando-se, nos arranjos e interpretações respectivas dessa mesma tripartição, a instauração dos afastamentos constituintes das diferentes tradições da filosofia do século XX, assim como provavelmente de certo número de diferenças internas a uma e outra dessas tradições
  • contra certo uso pacificador do esquema, que o utiliza hoje como passarela entre o que se convencionou chamar fenomenologia e filosofia analítica, admite-se a hipótese de uma diferença abissal entre um entendimento intencionalista desse esquema e um entendimento não intencionalista
    • esse ponto não poderia fornecer a origem de uma linha de demarcação estrita entre fenomenologia e filosofia analítica, já que toda uma parte da tradição analítica, ao menos desde Chisholm, é intencionalista e faz tal uso do esquema, não sendo isso, sobretudo no caso de Chisholm, sem relação com a fenomenologia ou com um uso analítico da fenomenologia, no caso de Chisholm, da proto-fenomenologia
    • poder-se-ia dizer que, nesse caso, a questão é reposta e redobrada no interior dos limites da tradição dita analítica, numa discriminação entre um uso intencionalista e um uso não intencionalista da tripartição representação/ato, sentido, referência, não tendo este trabalho outra ambição senão a clarificação de certos mal-entendidos entre ponto de vista intencionalista e não intencionalista, aos quais a “leitura fregeana da fenomenologia” não pouco contribuiu
  • para instruir a tese da divergência entre o que poderia parecer à primeira vista, mas apenas superficialmente, dois usos do “mesmo” modelo, o problema será abordado por um viés particular, extremamente esclarecedor tanto histórica quanto conceitualmente: o que se passa onde falta a referência, onde o terceiro termo do esquema, o “objeto”, não é nada
  • a questão da referência inexistente é uma das mais antigas e veneráveis que existem, remontando ao menos ao Sofista, mas é a instauração por Bolzano, no início do século XIX, em ruptura com o representacionalismo kantiano, de certo tipo de exigência referencial reforçada, numa filosofia centrada na problemática de uma “semântica objetiva”, que lhe confere nova atualidade
    • no famoso § 67 da Wissenschaftslehre, faz-se, sobre fundo de descoberta dessa instância “intermediária”, o sentido, a experiência desse paradoxo: pode haver unidades de sentido sem nada que lhes corresponda do lado objetivo, parecendo por vezes essa ausência de “réplica” ontológica do sentido prescrita a priori, chegando-se ao caso paroxístico da “impossibilidade” de objeto
  • o caráter constituinte do paradoxo do lado da tradição intencionalista, e mais particularmente da fenomenologia, não deixa dúvida
    • no § 70 de A crise das ciências europeias, Husserl remeterá ainda, no contexto de uma reflexão sobre a epoché, ao que chama então, em termos brentanianos, o “paradoxo dos objetos intencionais”, paradoxo que se pode resumir por comodidade na famosa fórmula meinongiana segundo a qual “há objetos a respeito dos quais se pode afirmar que não os há”, apresentado por ele como via de acesso privilegiada à fenomenologia
    • é sobretudo por sua capacidade de responder a esse paradoxo que a fenomenologia manifestará sua eficácia própria
  • confirma isso toda uma sólida tradição que, do lado da filosofia analítica, associará — não necessariamente em boa parte — fenomenologia e reflexão sobre os “objetos inexistentes”, e eventualmente crítica desses objetos e crítica da fenomenologia, como se houvesse objetos específicos a ela, medindo-se sua legitimidade ou falta de legitimidade pela desses objetos
    • a fenomenologia se encontra então situada, no mapa do pensamento contemporâneo, por sua propensão a inventar pseudo-objetos ou objetos imaginários, ou, conceder-se-á, a pretender exumá-los da linguagem ou da atitude ontológica naturais, cometendo o erro de tomá-los excessivamente ao pé da letra, isto é, ao mesmo tempo fazendo-lhes justiça, o que é sem dúvida legítimo, e carregando-os ontologicamente mais do que faz sentido fazê-lo e do que eles o são em seus limites naturais
  • quanto ao que entender por “objetos imaginários” ou “pseudo-objetos” em tais críticas, parece claro que quem as formula parte geralmente de um sentido bem determinado do objeto, ao qual o objeto em geral se vê então medido, numa atitude que conduz inevitavelmente a certa forma de reducionismo, não sendo recebido como objeto senão o que tem a forma da realidade, do existente positivo individuado e diretamente experimentável
    • o modelo permanece então o da coisa, enquanto coisa deste mundo, sendo frequentemente em tal apego ontológico que reside o sentido das numerosas protestações de “realismo” que constituem, no horizonte da filosofia contemporânea, senão a coisa mais partilhada, ao menos um traço recorrente, significando “realista” aqui: apegado ao ser da coisa, à ideia de que a coisa possa constituir a forma única e definitiva do ser
  • nesse sentido, certamente, a fenomenologia se construiu contra o “realismo”, tendo este constituído em seu caminho um obstáculo epistemológico maior que ela se empenhou em superar, podendo todo o sentido da fenomenologia residir num alargamento da categoria do objeto para além e fora daquela do “real”
    • aí se poderia encontrar um primeiro sentido da intencionalidade fenomenológica, cuja potência percussiva reside em sua capacidade de enfrentar positivamente e assumir, contra os limites do pensamento “realista” nesse sentido metafísico do termo, o paradoxo, senão dos objetos inexistentes, ao menos aquele mais amplo que se poderia chamar dos “objetos irreais”
    • do ponto de vista realista estrito, os objetos que manifestamente não entram na forma da “realidade” no sentido padrão do termo, como os abstracta, tradicionalmente chamados “universais”, entram de pleno direito na categoria dos “objetos inexistentes” e colocam o mesmo problema de estatuto ontológico que eles enquanto “irreais”, tendo a fenomenologia podido, inversamente, associar a defesa de uma extensão do sentido do objeto em direção a um e outro tipo de objetos, de forma diferenciada
  • isso significaria que a fenomenologia é necessariamente “idealista”, ou antirrealista no sentido em que hoje se entende, podendo a associação por Husserl, no texto da Krisis citado, do paradoxo dos objetos intencionais e da problemática da redução transcendental, que ele teria por vocação exemplificar, fazer pensar isso
    • essa abertura ontológica, ou aliás extra-ontológica, do sentido do objeto que caracteriza a fenomenologia em geral não parece decorrer apenas da fase transcendental do pensamento de Husserl, estando presente inclusive na fenomenologia, frequentemente dita realista, das Investigações lógicas, e constituindo mesmo aí seu ganho essencial em relação a pensamentos intencionalistas de tipos tradicionais, “realistas” no sentido anterior e pré-fenomenológicos, como o de Brentano, nem que seja em termos de uma nítida distinção, até então ausente, entre um acesso linguístico, ou ao menos significacional, ao objeto e um acesso intuitivo, extralinguístico
    • a fenomenologia instala, e isso desde o início, na diversidade modal mesma que é a da intencionalidade
  • dever-se-ia daí tirar consequências ontológicas sobre a necessária abertura do sentido fenomenológico do objeto como diversidade propriamente ontológica, não havendo certeza alguma disso
    • uma leitura atenta da primeira edição das Investigações Lógicas, escolhida como representante do estado mais aberto do sistema, antes de todo travamento transcendental e do metadiscurso que o acompanha, convenceu, muito progressiva e dolorosamente, do contrário: a fenomenologia não é por natureza “idealista”, tendo podido existir certo tipo de fenomenologia realista, enraizada na escola de Brentano, sendo justamente nesse contexto que a fenomenologia propriamente dita, a de Husserl, nasceu
  • tal reflexão, de tipo histórico, já engaja uma problematização dos diferentes tipos de resposta que podem existir à questão dos objetos inexistentes de um ponto de vista intencionalista, e uma tipologia dessas respostas, não sendo o pensamento da intencionalidade um bloco que funcionaria no modo do tudo ou nada e conduziria diretamente à posição forte — a da intencionalidade imediatamente provedora de objeto, seja num sentido “realista” escolástico mas anticoisista meinongiano, seja no sentido de um idealismo transcendental — havendo posições intencionalistas e usos da intencionalidade cujo mapa será preciso traçar
  • o ponto mais importante, uma vez diversificadas e tipologizadas as estratégias de respostas intencionalistas, era medir seu afastamento em relação às soluções claramente (Bolzano, Russell) ou menos claramente mas, refletindo-se, certamente (Frege) não intencionalistas, interrogando-se que tipo de princípio animava cada uma dessas soluções e o que fundava, em última instância, uma estratégia de tipo intencionalista ou não intencionalista
  • na medida em que a questão da referência faltante, ou dos “objetos inexistentes”, conforme se raciocine num sistema de coordenadas ou outro, colocou-se praticamente a todos os filósofos da lógica ou da linguagem na origem dessa dualidade de interesse, ela parecia particularmente pertinente para interrogar as diferenças existentes entre suas respectivas “teorias da referência”, produzindo o efeito de “campo” necessário à avaliação de seus respectivos interesses
    • parecia haver aí os meios de dissolver parte da confusão reinante na paisagem filosófica contemporânea, colocando em evidência proximidades inesperadas, como a das ontologias de Frege e do primeiro Husserl “realista”, e afastamentos inesperados, como o do “sentido” husserliano como visada e o “sentido” fregeano como mediação
    • interrogando a intencionalidade, ou sua falta, ali onde seu objeto falta e onde sua estrutura referencial parece assim estar em perigo, esperava-se poder levar a cabo o que era no fundo, do ponto de vista filosófico, uma investigação sobre os limites da intencionalidade e do ponto de vista intencionalista
  • para isso, procedeu-se em dois momentos
    • num volume, Representações sem objeto, traçou-se um vasto panorama da questão da referência, sob o ângulo da referência faltante, tal como se colocava na filosofia da lógica do final do século XIX e início do XX, no momento das escolhas decisivas, remontando-se a Bolzano, que constitui uma fonte para esse período, e descendo-se até Russell, podendo essa parte do trabalho ser considerada um quadro das origens respectivas e em parte comuns da fenomenologia e da filosofia analítica, centrado nessa questão da inexistência, que desempenhou, de ambos os lados, papel motor na definição das posições
    • noutro volume, Intencionalidade e linguagem nas Investigações lógicas de Husserl, dedicou-se um comentário detalhado à obra em que se forma e se impõe o conceito fenomenológico de intencionalidade, a saber a primeira edição das Investigações lógicas (1900-1901), interrogada ainda sob o ângulo do alcance da referência a “objetos inexistentes” e da extensão exata da teoria fenomenológica da referência, permitindo essa démarche recolocar Husserl no campo de soluções existentes para um problema e melhor avaliar a singularidade de seu pensamento
      • sua posição carrega a marca de tensões ligadas, de um lado, ao que se poderia chamar a emancipação do conceito de intencionalidade, enfim liberto de seu ambiente mentalista inicial e elevado ao nível de um verdadeiro uso semântico que dele então se faz, e, de outro, ao realismo ontológico fundamental das Investigações lógicas, que entra até certo ponto em contradição com essa liberdade
      • essa tensão, se pode dar à solução professada por Husserl nas Investigações para o problema de interesse algo de intermediário, por assim dizer entre Bolzano e Meinong, e de decepcionante, é também, ao que parece, o que faz o interesse da fenomenologia das Investigações, em tudo o que ela permite ver em suas próprias tendências contraditórias
  • num último momento, em conclusão desse segundo volume, tal percurso conduziu a uma breve reflexão sobre o interesse e as potencialidades respectivas dos pontos de vista intencionalista e não intencionalista
  • cabe sublinhar a dívida, além da reabertura na fenomenologia de tipo continental, nos anos oitenta, da questão da intencionalidade, ou ao menos dos modos de doação, por Jean-Luc Marion, para com Jean-François Courtine e a reflexão por ele empreendida nos últimos anos sobre a riqueza, e a renovação em relação à metafísica tradicional, do sentido fenomenológico do objeto
  • de outro lado, como os trabalhos precedentes, que aqui encontram seu prolongamento, o presente estudo só foi possível pelo exemplo de Jacques Bouveresse, que deu a prova de que havia lugar na França para tal tipo de pesquisa, votada à filosofia do século XX em sua diversidade, tendo uma sessão de seu curso no Collège de France em 1998, consagrado à filosofia austríaca, sobre os objetos intencionais, contado bastante para a decisão de avançar nessas questões
  • cabe ainda sublinhar tudo o que se deve ao trabalho de Frédéric Nef, que colocou os mesmos problemas de um ponto de vista diferente, a título da edificação de uma ontologia formal, tendo-se procurado separar o que ele buscava aproximar, mas, por isso mesmo, encontrando-se os dois projetos em certo nível e podendo, em seu conteúdo, trocar mais de uma coisa
  • o trabalho de Robin D. Rollinger foi também decisivo, tendo ele desdobrado pela primeira vez toda uma parte, o lado brentaniano, do campo aqui construído, de modo mais detalhado e preciso historicamente, havendo frequente acordo factual com ele — por exemplo sobre o fato de a posição ontológica do primeiro Husserl ser muito mais moderada e convencional que a de Meinong no tabuleiro do brentanismo — tendo-se apenas permitido alargar o espectro a fim de colocar em perspectiva alguns pressupostos, principalmente o da intencionalidade, constituindo seu livro, ainda que de natureza diferente, fonte preciosa
  • por fim, cabe precisar que este projeto jamais teria tomado corpo e se desenvolvido como o fez sem a estimulação decisiva constituída pelas pesquisas sobre a intencionalidade e a crítica do uso fenomenológico da noção de intencionalidade conduzidas nos últimos anos por Vincent Descombes, querendo esta empreitada, por certos aspectos, ser uma resposta a ele, não no sentido de uma refutação, mas de uma investigação complementar, de natureza histórica, e de uma livre meditação, de natureza temática, que mede depois dele, e de outro modo que ele, as possibilidades e impossibilidades do conceito de intencionalidade, apropriando-se até certo ponto das críticas que dele fez, mas abrindo talvez também o conceito, e sua crítica, a outras possibilidades
  • agradecimentos são dirigidos a todos os que impulsionaram esse caminho, refletiram junto e ajudaram a refletir, a Sandra em primeiro lugar, e a todos os demais não nomeados por receio de outros esquecimentos
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