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VIRADA TEOLÓGICA
BENOIST, Jocelyn. L’Idée de phénoménologie. Paris: Beauchesne, 2001
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Sendo ateu, foi justamente por isso que o pensamento de Marion interessou de imediato, e a dramatização da questão do ateísmo em *O ídolo e a distância* devolveu a essa questão toda a sua dignidade.
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A problematização de Marion lança um desafio ao pensamento ateu atual, ao perguntar, à luz do conceito heideggeriano de “metafísica”, como é possível ser ateu sem ser metafísico, o que equivale a questionar como se pode ser um ateu consequente.
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O programa de Marion supõe a possibilidade de um ateísmo não metafísico e mantém a suspeita de um vínculo intrínseco entre o “religioso” e o “metafísico”, permanecendo, nesse ponto, fiel a Heidegger, para quem destruir a compreensão metafísica do homem é também destruir sua compreensão religiosa.
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O despertar do sono de um ateísmo demasiado fácil ocorreu a partir do vínculo problemático estabelecido por Marion entre o tema nietzschiano da morte de Deus e o tema heideggeriano do fim da metafísica, instalando definitivamente a questão em solo não metafísico.
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Em *O ídolo e a distância*, a questão da morte de Deus é libertada de seu sentido metafísico, mas a resposta dada ao ateísmo parece insatisfatória e retórica, pois nele só se vislumbra um sentido metafísico para o ateísmo, como se ele se reduzisse ao pensamento do ateísmo.
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A obra de Marion parece ter um caráter apologético, visando prender o adversário na armadilha de sua própria linguagem, o que aponta para um risco: como ser ateu sem, pela própria linguagem do ateísmo, sucumbir à idolatria do conceito que se dá para depois retirá-lo?
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Há um sofisma de princípio em *O ídolo e a distância*, que quer que a morte de Deus seja a morte do Deus da metafísica, e pergunta-se se todo ateísmo pode ser reduzido à miragem de um pensamento que se absolve e se extenua.
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O ateísmo sempre foi uma evidência existencial e não teórica, e, portanto, há atitudes existenciais diferentes, irredutíveis e incomunicáveis, das quais algumas não podem ser compreendidas a partir da fé.
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O argumento de Marion de que Deus não pode ser negado, pois negá-lo seria reconhecê-lo como conceito e, portanto, fazer fundo sobre uma ídolo, é aceitável para um ateu não metafísico, mas não basta que algo não seja um conceito para ser Deus.
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O risco da teologia negativa de Marion, mesmo que negada, é deixar o divino em extrema pobreza de determinação, o que é um problema para uma teologia fenomenológica, e o privilégio paradoxal do conceito, mesmo em sua negação, abre caminho para todas as recuperações.
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Dificuldade é encontrada em compreender o que pode significar “mais” ou “menos” aparecer, e o que significa “muitos horizontes” para medir a saturação do fenômeno, expressando dúvidas céticas quanto ao próprio conceito de “doação”.
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O conceito fenomenológico de “doação” sempre teve a ver com o ser-dado sensível, na filiação kantiana, e toda libertação da doação desse enraizamento sensível tenderia a absolutizar um conceito que é a figura da não-absolutidade intrínseca constitutiva do fenômeno.
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Uma anfibologia é apontada no uso que Marion faz do termo “doação”, alternando entre o sentido de doação em geral e o de ser-dado sensível, que é o único uso correto para a fenomenologia e do qual seu sentido fenomenológico tira sua pertinência.
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A questão fundamental é: como pode haver doação sensível daquilo que não pode sê-lo, ou seja, Deus, que é suprassensível? E onde se situa a transcendência se não na relação ética com outrem, como propôs Levinas?
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Marion não mostra concretamente como Deus afeta o sujeito, e a ideia de que Deus é sensível ou que o sensível é divino não é assumida, restando a dificuldade de saber onde um sentido propriamente religioso se abre para essa “afeição”.
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O conceito de “fenômeno saturado”, apresentado em *O fenômeno saturado*, que seria um fenômeno com muitos horizontes, parece mais uma construção metafísica do que uma ostensão fenomenológica, e a solução da saturação permanece obscura.
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O discurso da originariedade, que busca uma doação sem um dado, é questionado, pois não há doação sem um dado, e da doação em si nada se pode dizer, a não ser que um dado é dado nela.
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Uma incompatibilidade é apontada entre os dois modelos que Marion utiliza: o da “doação”, que remete a uma filosofia do ver, e o do “apelo”, que remete a uma filosofia da Palavra, sendo difícil sustentar ambos os polos.
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O tema do apelo é desestabilizador para a “originariedade” da doação, pois um apelo não pode ser primeiro, ele só pode advir na ruptura de um mundo já constituído pela pluralidade das palavras.
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A força do apelo residiria no fato de não se saber de quem ele é, mas uma palavra tem um conteúdo necessariamente determinado, o que coloca a questão da relação do pensamento de Marion com a revelação cristã.
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A conversão da fenomenologia de Marion a uma fenomenologia do apelo parece conduzir inevitavelmente a uma hermenêutica, mas não se vê o lugar dessa hermenêutica em seu pensamento, nem uma doutrina da palavra.
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Marion não salta realmente o passo que o conduziria para fora de uma filosofia do ver, permanecendo encerrado na potência do ver, mesmo para dizer a invisibilidade, o que é representativo de seu pensamento.
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O vocabulário da evidência é empregado constantemente por Marion, para quem a transcendência não é objeto de crença, mas uma evidência que se manifesta, e a questão da possibilidade de outros não verem o que ele vê não é a da evidência do que é visto.
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