A TEMPORALIDADE AUTÊNTICA É UM ACONTECIMENTO ONTOLÓGICO (1982:133-135)
ZIMMERMAN, Michael E. Eclipse of the Self. Athens: Ohio University Press, 1982.
Autenticidade significa um Ser-no-mundo, autopossuído, temporal-histórico, que se preocupa consigo mesmo. Na resolução antecipatória, o indivíduo revela a sua finitude e apropria-se das suas próprias possibilidades. Estas possibilidades estão ligadas à herança em que se deve enraizar. A herança, paradoxalmente, não está atrás de nós; está diante de nós como o nosso futuro. Existir autenticamente para o futuro significa liberar a herança para uma mudança proporcional às exigências do presente. Existência autêntica significa temporalidade autêntica, o momento de visão (Augenblick) em que o passado, o presente e o futuro de um indivíduo se geram numa grande espiral. A vida de um indivíduo adquire continuidade e profundidade à medida que ele repete as suas resoluções. Em cada Augenblick, ele adquire uma compreensão mais profunda do que significa “ser”. Assim, a temporalidade autêntica é um acontecimento ontológico e não apenas uma experiência pessoal.
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A autenticidade é definida como o ser-no-mundo temporal-histórico que, na resolução antecipadora, se apropria de suas possibilidades finitas enraizadas na herança, a qual se projeta como futuro, constituindo-se assim como temporalidade autêntica, um evento ontológico de contínua apropriação do ser no instante da visão (Augenblick).
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A resolução antecipadora revela a finitude do indivíduo e permite a apropriação de suas possibilidades.
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Essas possibilidades estão vinculadas à herança, que paradoxalmente se apresenta não como passado, mas como futuro a ser realizado.
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Existir autenticamente em direção ao futuro significa liberar a herança para uma transformação condizente com as demandas do presente.
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A existência autêntica equivale à temporalidade autêntica, materializada no instante da visão (Augenblick), onde passado, presente e futuro se geram mutuamente.
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A repetição das resoluções confere continuidade e profundidade à vida, aprofundando a compreensão do ser a cada instante.
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A temporalidade autêntica é um evento ontológico, não meramente uma vivência pessoal.
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A análise da autenticidade em Ser e tempo, embora abordasse o problema universal da individuação e visasse demonstrar a relação entre a temporalidade humana e o evento do ser, foi majoritariamente interpretada como um manifesto existencialista em favor da auto-realização individual, levando o autor a posteriormente enfatizar suas preocupações ontológicas e a perspectiva da história do ser, na qual a autenticidade se desloca da realização pessoal para a questão do destino.
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A obra Ser e tempo foi amplamente recebida como um manifesto existencialista, com foco no tema dramático da autenticidade em detrimento do tema ontológico primordial.
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Descontente com essa recepção, o autor passou a enfatizar suas preocupações ontológicas, abordando a autenticidade sob uma perspectiva diferente, próxima à que seria desenvolvida na segunda metade não publicada da obra.
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Nessa nova perspectiva, o autor dedicou-se a compreender as mudanças cruciais na história do ser, ou seja, as transformações na compreensão do ser pelo homem ocidental e as causas dessas mudanças.
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A interpretação da relação do homem com a história do ser assemelha-se à interpretação hegeliana da relação do homem com a história do Espírito Absoluto, onde o significado real da história reside nos estágios alcançados por uma instância transcendente.
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A história é concebida não como um evento humano, mas como um evento cósmico: a história da revelação do ser dos entes.
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Para corrigir a sugestão de que a história envolve a auto-realização de indivíduos ou povos, a autenticidade é posteriormente explicada não como realização pessoal ou escolha arbitrária, mas como uma questão de destino.
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Indivíduos autênticos são aqueles escolhidos como locais para novas e historicamente decisivas revelações do ser.
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A versão madura da autenticidade minimiza o voluntarismo e o antropocentrismo presentes em Ser e tempo, apresentando-a como algo que acontece ao indivíduo quando este se liberta da vontade própria e se abre para o que o transcende, embora ainda preserve, na figura do indivíduo histórico-mundial, a referência à luta necessária para aceitar esse papel e à alteração radical da temporalidade.
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A versão madura da autenticidade distancia-se do voluntarismo (vontade de auto-realização) e do antropocentrismo (interpretar a compreensão do ser como possessão humana).
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A autenticidade acontece ao indivíduo quando ele é libertado da vontade própria, tornando-se aberto ao que o transcende: o ser dos entes.
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Na discussão sobre o indivíduo histórico-mundial autêntico, ainda há referência à luta necessária para aceitar o papel de estar aberto para a revelação.
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A descrição da autenticidade continua a envolver uma alteração radical da temporalidade, como no heroísmo histórico-mundial que supera o egoísmo.
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A versão posterior da autenticidade carece do sabor “existencialista” da versão voluntarista de Ser e tempo.
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O capítulo em questão tem como tópico o desenvolvimento da noção de Augenblick de Ser e tempo como o modo pelo qual um indivíduo é escolhido para ser clareira para uma nova manifestação do ser.
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