estudos:zarader:horizonte-e-mundo-2001
HORIZONTE E MUNDO (2001:13-16)
ZARADER, Marlène. L’être et le neutre: à partir de Maurice Blanchot. Lagrasse: Éd. Verdier, 2001..
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A existência se desenrola em um mundo, em uma linguagem e em um sentido que são sempre pré-supostos por qualquer ato de conhecimento ou de fala, constituindo uma familiaridade primeira e inegável que precede e condiciona toda e qualquer tematização.
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O mundo e o sentido, esteja ele ou não tematicamente posto, são o pressuposto ineliminável de toda e qualquer visada de conhecimento e de toda palavra.
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A interrogação filosófica sobre a origem do sentido ou as condições de constituição do mundo é sempre um retorno reflexivo sobre algo já dado, cuja coerência e familiaridade não podem ser rompidas, a não ser como hipótese teórica.
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Esse pressuposto fundamental foi tematizado por Husserl como horizonte e por Heidegger como mundo, atestando a evidência incontestável dessa familiaridade primeira e sempre significativa.
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Uma outra evidência, no entanto, paradoxalmente vem perturbar essa clareza, apresentando-se como uma experiência em que o mundo se desfaz, a linguagem se interrompe e o sentido é abolido, sem que isso signifique uma simples inversão em seu contrário, mas sim a suspensão do próprio registro do sempre-aí.
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Apesar de se estar sempre já imerso no sentido, é possível fazer uma experiência radicalmente diferente, na qual a familiaridade com o mundo é suspensa.
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Essa experiência não é a do não-senso, que seria ainda uma opção de sentido, mas sim a abolição do próprio registro do sentido.
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A falta de palavras e afetos disponíveis para nomeá-la leva a que seja designada negativamente como experiência “limite” ou “extrema”, por sua irredutibilidade ao que habitualmente se chama experiência.
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Essa experiência se apresenta à consciência como um registro de exceção, uma ruptura brusca na trama contínua da existência, uma irrupção singular e inintegável da qual nada se pode dizer ou fazer, que escapa às condições habituais da relação com o mundo.
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Ao surgir, a experiência rompe a continuidade pressentida da vida, do tempo e da existência.
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Ela é, em sua essência, ruptura, síncope, interrupção explosiva de um tecido que se desfaz.
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O que resta é apenas essa irrupção singular, diante da qual não há discurso nem ação possíveis, como se o encontro com algo que excede as condições de receptividade ocorresse.
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Embora se possa objetar que esse pretenso absoluto seja redutível a uma psicologização e reinscrito na ordem do mundo, essa reinscrição posterior significa o abandono da especificidade do evento, cuja evidência, embora de outra ordem, se impôs momentaneamente como uma alteração radical de toda a aparência.
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A redução do evento a uma psicologização e sua reinscrição na ordem do mundo são possíveis e mesmo inevitáveis após o ocorrido.
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Essa operação de reinscrição no tempo, no entanto, abandona pura e simplesmente o que fazia a especificidade do evento, que é estranhamente esquecido ou contornado como se pertencesse a uma outra ordem.
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Algo, de fato, aconteceu: no espaço de um instante, tudo apareceu de forma radicalmente outra, e fazer justiça a esse evento implica ater-se ao puro vivido do que se dá no momento da experiência.
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Esse excesso radical, irredutível ao tempo, ao mundo e à linguagem, manifesta-se em diversas “travessias” ou rupturas nos registros de sentido mais estabelecidos, caracterizando uma experiência paradoxal que, apesar de frequentemente evitada, é vivida e universalmente possível, merecendo, por isso, ser levada a sério filosoficamente.
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Os lugares de aparição desse excesso são múltiplos: ele desafia a nomeação e põe em xeque a linguagem, abala os poderes do sujeito ao irromper em uma existência individual, escapa à história ao surgir como escândalo na dimensão coletiva e faz explodir os limites do relato na literatura.
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O que importa, para além das diferentes encarnações, é o encontro com um evento do qual a consciência faz “experiência”, ainda que esta seja paradoxal por ir de encontro às próprias condições de toda experiência.
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Essa experiência é vivida, pode sê-lo por qualquer um, e sua incontestável “universalidade” não é afetada pelo fato de que, na maioria das vezes, dela nos desviemos logo em seguida.
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A possibilidade de o trato com o mundo se rasgar e deixar entrever um outro reino inominável pertence à natureza mesma da existência, e a experiência-limite, com o horror e o desnorteamento que a acompanham, merece ser questionada filosoficamente.
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