estudos:zarader:anfang-beginn-1990
ANFANG - BEGINN (1990:23-26)
ZARADER, Marlène. Heidegger et les paroles de l’origine. Paris: Vrin, 1990.
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A distinção entre as palavras francesas “começo” e “início” é analisada em seu registro temporal comum, contrastando-a com a necessidade de compreender a específica diferença filosófica entre os termos alemães “Beginn” e “Anfang” no vocabulário de Heidegger para avaliar a pertinência da tradução proposta.
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A diferença entre “começo” e “início” na língua francesa situa-se no mesmo registro temporal, sem qualquer hierarquia de profundidade, distinguindo-se apenas pela duração: o “começo” implica uma extensão temporal mínima, enquanto o “início” indica uma partida pontual, uma primeira jogada.
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O objetivo metódico é determinar, primeiramente, a diferença entre “início” e “começo” em francês e, em segundo lugar e prioritariamente, a diferença entre Beginn e Anfang na língua heideggeriana, para só então decidir sobre a pertinência da equivalência entre esses pares de termos.
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As acepções correntes dos termos alemães “Beginn” e “Anfang” aproximam-se das equivalentes francesas “começo” e “início”, mas a investigação deve focar-se na acepção específica que lhes é atribuída por Heidegger, a qual é explicitada em seus próprios textos.
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No uso vulgar, “Beginn” pode ser traduzido por “começo” e “Anfang”, com sua ideia de “primeira captura”, remete ao “primeiro lance do jogo” ou “pontapé de saída” característico do “início”.
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O cerne da questão é reconhecer a acepção fixada por Heidegger para esses termos, sobre a qual existem numerosos textos precisos que não apenas afirmam uma diferença, mas explicitam o sentido e definem estritamente cada um deles.
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A distinção heideggeriana entre Beginn e Anfang é estabelecida por meio de definições que conferem ao segundo uma radical anterioridade e um caráter essencialmente oculto, diferenciando-os nitidamente.
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Heidegger afirma explicitamente que o começo (Beginn) do pensamento ocidental não é idêntico ao Anfang.
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O Anfang caracteriza-se por uma radical anterioridade, sendo o que já sempre ultrapassou a humanidade e que, em vez de ser um passado findo, vem ao encontro precedendo tudo o que se manifesta.
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O Anfang possui um caráter irredutivelmente ocultado, pois o começo (Beginn) é o invólucro que o vela de maneira inevitável, sendo nele que o Anfang se esconde.
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Um texto decisivo de Heidegger define Beginn e Anfang em paralelo, assimilando este último explicitamente à origem (Ursprung), o que elucida sua diferença essencial e seu estatuto na terminologia heideggeriana.
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O Beginn é definido como aquilo com que algo se ergue, algo imediatamente abandonado que desaparece na sequência dos acontecimentos, enquanto o Anfang é aquilo de onde algo jorra, a origem que só se torna clara no decurso do processo e plenamente no seu fim.
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O Anfang é assimilado à origem (Ursprung) pela definição de algo que precede irredutivelmente qualquer começo, mantém-se para além dele no curso da história, permanece oculto e é a fonte inaparente de onde o processo brota, para a qual o começo apenas pode apontar.
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O exemplo da guerra mundial, cuja origem remonta a séculos na história espiritual e política do Ocidente, ilustra que o Anfang não é seu início ou começo, mas sim sua origem, confirmando o estatuto de origem que o termo possui na terminologia heideggeriana.
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A ocultação do estatuto de origem no pensamento heideggeriano é essencial por duas razões fundamentais: ela indica que a meditação visa uma “coisa” temporal e histórica, ao mesmo tempo que se distancia de um mero retorno aos Gregos ou da revelação de uma estrutura atemporal.
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A meditação do começo visa uma “coisa” (Sache) até então impensada, que nunca pertenceu ao passado e aguarda um futuro, demonstrando que o gesto heideggeriano não é uma ressurreição do pensamento grego.
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A meditação visa uma “coisa” temporal, ligada a uma língua e que inaugurou uma história, provando que o gesto heideggeriano também não é o desvelamento de uma estrutura atemporal, livre de espessura histórica.
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O pensamento de Heidegger envolve um “retorno ao grego” que não se confunde com um “retorno aos Gregos”, pois a história é grega e a herança reside na língua e em suas palavras, que abrigam a origem impensada dessa história e o enigma do destino.
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O desígnio de Heidegger nada tem em comum com um “retorno aos Gregos” como comumente imputado, mas há um “retorno ao grego” que marca a distância entre o pensamento com que a história começa e a língua que abriga a origem impensada dessa história.
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A condição de herdeiros da história grega implica uma herança não tanto de um pensamento, mas de uma língua e de algumas palavras que, nunca meditadas em sua carga de impensado, encerram o mistério do destino.
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Para além dos próprios Gregos e do começo, esconde-se o enigma da origem, mas para lá do grego já não há enigma, apenas uma alteridade radical alheia à história, como o vudu ou o zen.
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A manutenção do termo “origem” justifica-se para, em um mesmo movimento, dissociar claramente a “coisa” perseguida por Heidegger do começo do pensamento e, simultaneamente, mantê-la como inauguração da história.
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O uso do termo “origem” ocorre com plena consciência dos numerosos problemas que levanta.
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O objetivo de manter o termo é assegurar que a “coisa” (Sache) investigada por Heidegger seja claramente separada do início do pensamento, mas ainda assim preservada como o evento que inaugura a história.
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Após circunscrever o sentido de “Anfang” como origem, coloca-se a questão mais decisiva sobre o propósito dessa demanda, ou seja, o que a origem ilumina quando finalmente alcançada e com que objetivo Heidegger buscou o traço do impensado original nas palavras fundamentais do começo.
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Uma vez compreendido globalmente o sentido de Anfang, a questão que se impõe é o porquê dessa busca pela origem.
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A questão investiga o que a origem revela quando atingida e qual o propósito da paciente procura de Heidegger pelo traço do impensado original nas palavras fundamentais do começo.
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