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CÉUS
ZAMBRANO, María. Claros del bosque. 4. ed ed. Barcelona: Seix Barral, 1993.
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Os céus são múltiplos e não se deixam apreender pelo conceito abstrato e singular de “céu”, pois respondem à sede de esperança e à necessidade dos sentidos, formando uma esfera total com centros comuns, mas a dependência em relação ao centro pode romper-se em alguns céus, precipitando quem os experiencia em um vazio sem defesa.
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O conceito singular de “céu” é uma abstração inoperante, pois os céus são múltiplos e respondem à esperança e à purificação dos sentidos.
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Os céus apetecidos são muitos, mas, por serem céus, são circulares e concêntricos, com um centro comum que forma uma esfera total.
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Em alguns céus menos interiores da esfera, a dependência do círculo em relação ao centro pode romper-se, revelando um centro compacto e invulnerável, o que abre um vazio que precipita quem o experiencia sem defesa.
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Quem é prisioneiro de um céu e busca a saída dirige-se à superfície do círculo, onde pode nascer o conhecimento nos limites do vazio, mas, em outros casos, desce até as entranhas desse céu-prisão, caindo no inferno, onde o centro único não produz espaço nem tempo, e a pessoa é possuída, não apenas prisioneira.
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Ser prisioneiro de um céu leva a buscar a saída, dirigindo-se à superfície que limita o círculo, onde pode nascer o conhecimento nos limites do vazio.
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Em outros casos, desce-se ao fundo do céu-prisão, caindo em suas entranhas, no inferno, onde o centro único não deixa espaço nem tempo, e se está possuído, não apenas prisioneiro.
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Nessa situação infernal, pode haver uma franja onde o espaço-tempo se abre, permitindo escapar do inferno para ganhar espaço-tempo, mas recai-se repetidamente nas entranhas para provar a privação, até que as águas, entre celestes e infernais, sobrevêm e transportam.
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Na situação infernal, pode haver uma franja onde o espaço-tempo se abre, e escapa-se do inferno para ganhar espaço-tempo, nada mais.
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Recai-se uma e outra vez nas entranhas para provar novamente a privação de espaço-tempo.
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Depois, as águas se desbordam, os rios se abrem e as águas, entre celestes e infernais, transportam.
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Aquele que conhece foi depositado sobre as águas, como Moisés e Cristo, e o espírito, sendo luz, flutua sobre as águas e desce ao inferno; quem sente essas águas acaba vendo as coisas vivas sob a água, que é a vida, e é sobre ela, já sem vida, à beira dos mundos, que se conhece.
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Aquele que conhece foi depositado sobre as águas, como Moisés e Cristo, e o espírito flutua sobre as águas e desce ao inferno acompanhado da luz.
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Quem sente essas águas acaba vendo as coisas sob a água, nela, vivas; a água céu-inferno é a vida.
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É sobre a vida, já sem vida, à beira antecipada dos mundos, que se conhece.
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Tudo está em um céu, e não há inferno que não seja a entranha de algum céu, sendo o primeiro céu que alumbra a noite a própria noite, uma noite que não é mera separação entre dias, mas uma só noite, uma deidade.
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Tudo está em um céu, e não há inferno que não seja a entranha de algum céu.
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O primeiro céu que há de alumbrar a noite é a própria noite, uma noite que não é a separação entre um dia e outro, mas uma só noite, uma deidade.
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O céu noturno, por mais negro que seja, é o primeiro a que se elevam os olhos e o grito, opondo à visão sensível, carregada de representação, a imediatez pura onde ser e não-ser ainda não se diferenciaram, uma presença sem figura que dá constância das águas primeiras.
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Ao céu noturno se dirige o grito que se eleva sem recair, pois não há reflexão de luz, nem claridade refletida, nem intenção; é o imediato.
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A noite opõe à visão sensível, sempre carregada de representação, a imediatez pura, onde ser e não-ser ainda não se diferenciaram.
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É uma presença sem figura que dá constância das águas primeiras antes da criação, e sob elas a vida do planeta alenta.
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Na noite, o homem, criatura separada, rende-se no sonho, alento da vida na só noite, onde a memória desatada pela imaginação conta seu invento, fundindo a primeira e a última noite, salvo sobre as águas do inferno da representação e livre da história, o ser desperta levemente para o que lhe foi subtraído inmemorialmente pela morte.
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Na noite, o homem rende-se no sonho, alento da vida na só noite, onde a memória desatada conta seu invento.
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A noite funde a primeira e a última noite do ser, onde ele alenta no olvido, no sonho sem sonhos, salvo sobre as águas do inferno da representação.
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Livre da história, o ser desperta levemente para o que lhe foi subtraído e que ficou remoto, inacessível, subtraído inmemorialmente pela morte.
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Quem alenta na noite de seu ser não se dirige à morte, mas ao inexperimentado, que não é a nada nem seu contrário, mas tudo o que expira sem morrer; nada deve turbar a solidão de quem se entregou à noite sem luz, que então se eleva sobre ele como templo, como céu.
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Quem só alenta na noite de seu ser não se dirige à morte, mas ao que não se sabe, ao inexperimentado, do qual não se pode dar notícia, pois a notícia o recortaria e conformaria.
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Isso não é a nada, nem seu contrário, mas tudo o que expira sem morrer.
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Nada deve turbar a solidão de quem se entregou à noite sem luz nem resplendor, que então se eleva sobre ele como templo, como céu.
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Quando a limpidez e quietude do ser se assemelham à noite mesma, quando se esqueceu do si mesmo que vigia e envia os sentidos a escindir a unidade que o alberga, depõem-se as armas do aperceber e identificar que assinalam a unidade apetecida como “o outro”, renunciando à comunicação e apartando a Presença sem a qual nenhuma presença existiria.
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Quando a limpidez e quietude do ser se assemelha à noite mesma, quando se esqueceu do si mesmo que vigia e envia os sentidos a escindir a unidade, depõem-se as armas do aperceber e identificar.
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O identificar chega a assinalar a unidade apetecida como “o outro”, pois o desperto normal sente que a realidade o assalta e precisa libertar-se dela, recortando-a e tornando-a apreensível.
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Renuncia-se à comunicação, apartando de si a primeira Presença, sem a qual nenhuma presença existiria, nenhuma realidade teria rosto, nenhuma verdade seria entrevista.
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A pergunta pelas coisas e por seu ser se dispara ao homem que pensa sem ter recebido a comunicação que elas emitem, por ter despertado com excessiva celeridade da calma e do olvido no céu da noite escura, o céu imediato da presença sem nome nem determinação.
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A pergunta pelas coisas e por seu ser se dispara ao homem que pensa sem ter recebido, quanto possível, a comunicação que elas emitem.
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Isso se dá por ter despertado com excessiva celeridade da calma, do olvido no céu da noite escura, o céu imediato da presença sem nome nem determinação.
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De todo céu imediato se recai uma e outra vez, pois nenhum acolhe totalmente a condição terrestre, e o ínfero, lugar submetido a um céu, revela-se como lugar de combustão ativa, onde, se no céu se vislumbrou alguma luminosidade, o ser individual tende a esquecer seu corpo e sombra, fundindo vida e existência.
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De todo céu imediato se recai uma e outra vez, pois nenhum acolhe totalmente a condição terrestre.
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O ínfero, lugar submetido a um céu, revela-se como lugar de combustão ativa, mar de chamas se no céu se vislumbrou alguma luminosidade.
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Nos céus, o ser individual tende a esquecer seu corpo e sombra, e vida e existência se fundem, confundindo-se ao recair no ínfero, onde uma se sobrepõe à outra, asfixiando a vida ou desarmando a existência.
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Quando no inferno da recaída é a vida que se sobrepõe, a respiração necessita de um fogo diluído segundo número e medida, mas pode sofrer o inferno de estar viva em meio ao fogo inicial sem espaço respirável, espaço que no céu imediato era sua morada e se dava sem pena.
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Quando no inferno da recaída é a vida que se sobrepõe, a respiração necessita de um certo fogo diluído segundo número e medida.
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Pode ocorrer que neste inferno da vida lhe seja retirado o espaço respirável, que no céu imediato era sua morada e se dava sem pena alguma.
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Quando o espaço se dá ao ser vivo segundo sua condição, permite-lhe simultaneamente a respiração e a visão; essa dádiva una do respiro e da visão em ato é já um alto e puro céu, e seria desejável que a vida triunfasse sempre quando o ser vivente recai de seus céus imediatos.
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Quando o espaço se dá ao ser vivo segundo sua condição, permite-lhe ao par a respiração e a visão.
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A dádiva una do respiro e da visão, não como simples possibilidade mas em ato, é já um alto e puro céu.
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Haveria de ser sempre a vida a triunfar venturosamente quando o ser vivente recai de seus céus imediatos, com todos os riscos infernais que a acompanham ao rebrotar.
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A vida brota sempre para o alto, enquanto o existir irrompe como uma proposição esquemática que ameaça desencarnar o ser vivente, despegando-o do céu com o qual chegou a fundir-se; mas, na recaída, se a vida triunfa, ela se condensa em torno da chama que renase, alimentando o corporal, e um destile de celeste carnalidade não se extinguirá nele.
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A vida brota sempre para o alto, enquanto o existir irrompe como uma proposição esquemática que ameaça desencarnar o ser vivente, despegando-o violentamente do céu com o qual se fundiu.
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Na recaída, se a vida triunfa, ela se condensa em torno da chama que renase, a chama que alimenta e sustenta todo o corporal.
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Na escuridão da vida de novo, não se perderá totalmente esse seu vagabundeio celeste, nem se extinguirá nele por completo esse destile de uma certa celeste carnalidade ou corporeidade.
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A vida brota irresistivelmente de seus reiterados infernos para o alto, chamada por seus escuros céus imediatos, que se derramarão em luz um dia, feridos pela aurora, uma aurora que será, por sua vez, uma entranha celeste.
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A vida brota irresistivelmente de seus reiterados infernos para o alto, chamada por seus escuros céus imediatos.
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Esses céus imediatos se derramarão em luz um dia, feridos pela aurora.
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Essa aurora será, por sua vez, uma entranha, uma entranha celeste.
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