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Perspectivas conflitantes sobre o si-mesmo

DZ2014

  • Perspectivas conflitantes sobre o si-mesmo [self]
    • O debate contemporâneo sobre o si-mesmo é marcado por uma profunda heterogeneidade conceitual, o que torna problemático qualquer uso não tematizado do termo como se fosse unívoco e autoevidente.
    • As posições eliminativistas de Thomas Metzinger e Miri Albahari partem de uma concepção reificada do si-mesmo, entendido como uma entidade ontologicamente independente, imutável e proprietária dos estados mentais.
      • Metzinger sustenta que a experiência de si é uma ilusão gerada por processos neurocognitivos distribuídos, confundindo um construto representacional com uma entidade real.
      • Albahari distingue rigorosamente entre experiência e realidade, afirmando que o si-mesmo parece possuir independência ontológica, mas de fato carece dela, razão pela qual deve ser considerado ilusório.
    • A crítica central a essas posições consiste em mostrar que elas pressupõem uma definição excessivamente restritiva de si-mesmo, já amplamente abandonada tanto pela fenomenologia do século XX quanto pela pesquisa empírica contemporânea.
  • A multiplicidade empírica dos conceitos de si-mesmo
    • O si-mesmo não é apenas um problema filosófico, mas um objeto de investigação empírica em áreas como psicologia do desenvolvimento, neuropsicologia, psiquiatria e ciências cognitivas.
    • Ulric Neisser propõe uma distinção entre múltiplas formas de si-mesmo, entre as quais se destaca o si-mesmo ecológico como a forma mais primitiva e fundamental.
      • O si-mesmo ecológico designa o sujeito enquanto agente corporal situado, capaz de perceber a si mesmo em relação ao ambiente.
      • Desde as primeiras semanas de vida, o bebê manifesta uma sensibilidade às affordances [affordances] auto-especificadoras, distinguindo entre ações próprias e eventos externos, sem recorrer a uma autorrepresentação reflexiva.
    • Essa concepção rejeita explicitamente a ideia de um si-mesmo interior substancial, concebendo-o antes como a pessoa inteira considerada sob um determinado ponto de vista.
  • O si-mesmo experiencial e as emoções autoconscientes
    • Emoções como vergonha, culpa e ciúme são tradicionalmente classificadas como emoções autoconscientes, pois pressupõem alguma forma de relação do sujeito consigo mesmo.
    • A distinção recorrente entre vergonha como avaliação negativa do si-mesmo global e culpa como avaliação negativa de ações específicas ilustra a centralidade do conceito de si-mesmo para a psicologia das emoções.
    • Uma análise adequada dessas emoções exige uma conceituação diferenciada do si-mesmo, capaz de acomodar níveis e modalidades distintas de auto-relação.
  • Perturbações do si-mesmo na psicopatologia
    • Desde Karl Jaspers, a esquizofrenia tem sido compreendida como envolvendo distúrbios fundamentais do si-mesmo [self-disorders].
    • Autores como Minkowski, Parnas e Sass defendem que alterações precoces na estrutura da autoexperiência desempenham um papel patogênico central no desenvolvimento da psicose.
    • Doenças neurodegenerativas como o Alzheimer são frequentemente descritas como processos de dissolução progressiva do si-mesmo, o que entra em tensão direta com posições eliminativistas radicais.
  • O si-mesmo no autismo
    • A literatura sobre o autismo apresenta diagnósticos profundamente divergentes quanto ao estatuto do si-mesmo, oscilando entre a tese da ausência de autorconsciência e a da hipercentralidade egóica.
    • Essas contradições revelam a insuficiência de abordagens que tratam o si-mesmo como uma unidade monolítica.
    • Uma análise mais precisa exige distinguir diferentes dimensões do si-mesmo, em especial a dimensão interpessoal, constitutivamente mediada pelos outros.
      • Déficits nessa dimensão podem manifestar-se em dificuldades de atenção conjunta, apresentação estratégica de si e emoções autoconscientes.
  • Filosofia e ciência no estudo do si-mesmo
    • A investigação empírica do si-mesmo não pode prescindir de clarificação conceitual, sob pena de comprometer tanto a formulação das questões quanto o desenho experimental.
    • A relação adequada entre filosofia e ciência não é a de subordinação da primeira à segunda, mas de cooperação crítica.
    • A filosofia contribui ao examinar pressupostos teóricos tácitos que orientam a interpretação dos dados empíricos e a própria construção dos experimentos.
    • A coexistência de múltiplas definições de si-mesmo não indica degeneração conceitual, mas reflete a complexidade multidimensional do fenômeno.
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