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Aplicabilidade da Fenomenologia
DZ2025
- Fenomenologia e sua aplicabilidade extra-filosófica
- Desde seu início, a fenomenologia exerceu influência decisiva tanto nas ciências empíricas quanto em práticas para além da filosofia acadêmica.
- Ao compreender o sujeito como ser corporificado, situado social e culturalmente, a fenomenologia forneceu uma elucidação do quadro existencial no interior do qual a prática científica já opera implicitamente.
- Essa capacidade de esclarecimento permitiu contribuições relevantes a disciplinas como psicologia, psiquiatria, sociologia, antropologia, literatura comparada, arquitetura, enfermagem, ciências cognitivas corporificadas, estudos da deficiência, teoria racial crítica e até a física quântica.
- A noção de fenomenologia aplicada permanece ambígua, podendo designar diferentes modos de incorporação de ideias fenomenológicas por disciplinas não filosóficas.
- Neste contexto, entende-se por fenomenologia aplicada a adoção de conceitos, análises ou orientações metodológicas oriundas da fenomenologia filosófica por práticas científicas ou profissionais.
- Em alguns casos, essa incorporação foi tão profunda que resultou na designação explícita de abordagens “fenomenológicas”, como na psicologia, psiquiatria e sociologia fenomenológicas.
- Problema do estatuto da fenomenologia aplicada
- Não há consenso claro sobre o grau de comprometimento filosófico necessário para que uma disciplina seja considerada fenomenológica.
- Permanece em aberto se a influência da fenomenologia deve ser predominantemente metodológica ou teórica.
- As discussões ao longo de mais de um século não produziram critérios unívocos.
- Psicologia fenomenológica
- A ligação entre fenomenologia e psicologia remonta às origens do pensamento husserliano.
- Posteriormente, rejeitou essa caracterização por obscurecer o caráter propriamente filosófico de sua investigação.
- Husserl distingue entre fenomenologia transcendental e psicologia fenomenológica.
- Ambas investigam a consciência, mas com finalidades distintas.
- A psicologia fenomenológica permanece na atitude natural e visa uma investigação não redutiva da consciência intencional.
- O psicólogo fenomenológico é um cientista, não um filósofo transcendental.
- A fenomenologia oferece à psicologia:
- Uma descrição rigorosa da vida experiencial.
- Um esclarecimento conceitual de noções fundamentais como atenção, intenção, percepção e conteúdo.
- A exigência de suspensão de preconceitos teóricos externos à experiência.
- Para Husserl, a psicologia fenomenológica possui um papel propedêutico:
- Uma psicologia conduzida radicalmente pode levar, por necessidade interna, ao giro transcendental.
- Psicólogos empiricamente orientados foram fortemente influenciados por essas ideias.
- Destaca-se David Katz, que desenvolveu análises rigorosas da experiência tátil e cromática.
- Katz defendia a descrição não preconceituosa dos fenômenos, sem rejeitar experimentação ou quantificação.
- Suas distinções fenomenológicas (toque superficial, imerso e volumétrico) revelaram dimensões ignoradas da experiência cotidiana.
- A psicologia fenomenológica mostrou que:
- A descrição cuidadosa da experiência pode aprimorar tanto a experimentação quanto a teoria.
- Fenomenologia não é anti-científica, mas exige disciplina perceptiva e conceitual.
- Psiquiatria fenomenológica
- A fenomenologia influenciou precocemente a psiquiatria.
- Karl Jaspers foi um dos primeiros a articular explicitamente essa relação.
- Outros nomes centrais incluem Ludwig Binswanger, Eugène Minkowski e Medard Boss.
- A relevância da fenomenologia decorre do próprio objeto da psiquiatria:
- Alterações na temporalidade, espacialidade, intencionalidade, corporeidade, identidade do eu e engajamento social.
- A psiquiatria fenomenológica se opõe a abordagens exclusivamente neurobiológicas.
- Sustenta que a compreensão da experiência vivida do paciente é indispensável.
- Os relatos subjetivos não são epifenômenos irrelevantes, mas vias privilegiadas de acesso ao distúrbio.
- Eugène Minkowski exemplifica essa abordagem.
- Defende que os sintomas observáveis são apenas expressões superficiais de alterações existenciais mais profundas.
- A tarefa do psiquiatra é compreender a modificação do ser-no-mundo do paciente.
- No caso da esquizofrenia:
- Minkowski identifica uma perda fundamental de contato vital com a realidade.
- O paciente perde a capacidade de ressonância espontânea com o mundo.
- O quadro patológico envolve perplexidade generalizada e hiper-reflexividade.
- Minkowski enfatiza uma relação de esclarecimento mútuo entre fenomenologia e psiquiatria.
- A psiquiatria pode enriquecer a fenomenologia ao revelar distorções estruturais da experiência.
- A fenomenologia pode orientar a psiquiatria a evitar reducionismos abstratos.
- Ao mesmo tempo, Minkowski adverte contra a hiperfilosofização da psicopatologia.
- A transposição direta de métodos filosóficos para a clínica pode deformar a prática psiquiátrica.
- Sociologia fenomenológica
- A fenomenologia fornece uma elucidação fundamental da existência social humana.
- Pode ser entendida como uma proto-sociologia ou meta-sociologia.
- Há, contudo, uma tradição sociológica explicitamente inspirada na fenomenologia.
- Alfred Schutz é considerado o fundador da sociologia fenomenológica.
- Partindo de Max Weber, Schutz buscou esclarecer a constituição do sentido social.
- A sociologia deve partir do mundo da vida e não do mundo científico abstrato.
- A contribuição central de Schutz consiste em:
- Analisar as estruturas essenciais do mundo da vida.
- Explicar como a subjetividade constitui o sentido social.
- A realidade social existe apenas enquanto significativa para sujeitos.
- Sem sujeitos, não há mundo social.
- Instituições e estruturas não devem ser reificadas.
- Um conceito central é o de tipificação.
- A vida cotidiana é orientada por esquemas práticos, receitas e expectativas típicas.
- Essas tipificações são herdadas socialmente e não escolhidas individualmente.
- O mundo social é estratificado.
- As formas de compreensão variam conforme a proximidade temporal e espacial dos outros.
- Diferenciam-se relações face a face, com contemporâneos, predecessores e sucessores.
- A tipificação regula também a auto-compreensão.
- O agente adapta sua conduta para se tornar compreensível como um tipo social.
- O conhecimento é socialmente distribuído.
- Diferentes agentes dominam diferentes domínios práticos.
- Essa distribuição constitui um objeto legítimo da sociologia do conhecimento.
- Berger e Luckmann desenvolvem essas ideias.
- O foco da sociologia do conhecimento deve ser o saber do senso comum.
- A realidade social é produto da atividade humana.
- Ela se constitui dialeticamente por externalização, objetivação e internalização.
- As instituições adquirem aparência de objetividade e inevitabilidade.
- Contudo, permanecem produtos humanos historicamente constituídos.
- O mundo social age de volta sobre seus produtores.
- Considerações finais sobre a fenomenologia aplicada
- As aplicações iniciais da fenomenologia inspiraram-se sobretudo na fenomenologia descritiva de Husserl.
- A ênfase recaiu sobre a atenção rigorosa aos fenômenos e a recusa de teorizações prematuras.
- A adoção de conceitos fenomenológicos foi guiada por critérios de relevância prática, não por ortodoxia metodológica.
- Em muitos casos, trata-se de uma fenomenologia não transcendental, conduzida na atitude natural.
- A fenomenologia aplicada mostra-se mais fecunda quando compreendida como diálogo e não como simples transferência unilateral de conceitos.
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