0 Introdução
XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Articular lo simple: aproximaciones heideggerianas al lenguaje, al cuerpo y a la técnica. Madrid: Ediciones Akal, 2021.
Introdução. Heidegger e a busca da articulação do simples
1. A experiência do pensamento se mantém mais fecunda quando permanece exposta ao estranhamento e percorre aquilo que ainda suscita perplexidade do que quando se acomoda ao domínio do compreensível, cuja familiaridade pode encobrir o que merece ser interrogado.
2. A trajetória filosófica de Martin Heidegger começou a adquirir expressão na Universidade de Friburgo, onde a leitura de Husserl, Dilthey, Natorp e Rickert conduziu ao confronto com os grandes pensadores da tradição, especialmente Aristóteles, preparando uma investigação que atrairia as novas gerações e alcançaria sua primeira realização decisiva com a publicação de Ser e tempo, em 1927.
3. As questões formuladas em Ser e tempo permaneceram abertas ao longo de toda a trajetória heideggeriana, de maneira que a repercussão dessa obra na filosofia contemporânea não esgota seu alcance, pois seus problemas continuaram atuando como impulsos para os projetos e caminhos posteriores do pensamento.
4. A amplitude da obra heideggeriana, distribuída em mais de uma centena de volumes da Gesamtausgabe, permite reconhecer uma investigação da essência das relações humanas em um mundo historicamente determinado, cuja capacidade de apropriação de uma época ultrapassa seu presente imediato e antecipa aspectos da configuração globalizada e tecnocrática da existência contemporânea.
5. A apropriação filosófica de uma época depende da concepção de filosofia que a orienta e da correlação entre essa concepção e suas estruturas constitutivas, pois o caráter histórico do filosofar determina suas possibilidades situadas e exige compreender a apropriação como apreensão do próprio exercício filosófico em determinado momento, sem reduzi-la à recepção do passado.
6. A compreensão da filosofia desenvolvida por Heidegger exige uma revisão das interpretações públicas sedimentadas em torno de sua obra, uma vez que essas interpretações podem afastar-se da singularidade de seu pensamento e impedir o acesso ao que lhe é próprio.
7. A recusa heideggeriana de possuir uma filosofia própria ou uma denominação doutrinária não impede a fecundidade de sua obra, cuja unidade reside na abertura de perspectivas e caminhos para pensar o simples, acompanhada pela dificuldade crescente de dizer aquilo que, justamente por sua simplicidade, resiste às formas habituais de expressão.
8. A busca do simples possui caráter histórico e se orienta para o acontecido, em vez de procurar sua realização na novidade, de modo que a continuidade da investigação heideggeriana pode ser compreendida como o esforço de expressar a simplicidade do esquecimento do ser, cuja tematização já fundamentava a necessidade de transformação da filosofia em Ser e tempo.
9. A multiplicidade das formas de apreender o esquecimento não corresponde à dispersão em assuntos independentes, mas às diferentes possibilidades de acesso ao próprio esquecimento, de maneira que a oposição entre uma compreensão pré-filosófica e uma compreensão filosófica também remete ao esquecimento que permanece ele mesmo esquecido.
10. A cisão entre a atitude pré-filosófica e a filosófica manifesta-se desde Parmênides, na tensão entre a opinião dos mortais, a doxa, e seu desocultamento como verdade, a alétheia, instaurando um desencontro no qual a experiência cotidiana considera a filosofia arrogante e inútil, enquanto a investigação filosófica reconhece a insuficiência das opiniões habituais e interroga por que questões concernentes a todos mobilizam expressamente tão poucos.
11. A experiência filosófica permanece restrita a poucos porque sua possibilidade depende de uma transformação efetiva da relação com a verdade, como indica a alegoria platônica da caverna, na qual os prisioneiros preferem o conhecido à libertação anunciada, evidenciando que o filosofar exige a experiência do pensamento e não pode ser transmitido apenas como um conjunto de conhecimentos disciplinares.
12. Os reflexos do fogo e da luz solar perceptíveis no interior da caverna já indicam possibilidades de experimentar o esquecimento originário, embora a permanência unilateral na familiaridade do cativeiro faça esquecer a luminosidade pela qual as coisas aparecem como aquilo que são, sobretudo em seu caráter de entes existentes.
13. A saída da familiaridade com as sombras depende do anúncio e dos sinais de outra possibilidade de relação com os entes, enquanto o progresso científico e técnico pode aprofundar a permanência na caverna quando apenas aperfeiçoa o movimento entre as sombras, tornando necessário distinguir as diferentes irrupções pelas quais se torna perceptível o esquecimento do próprio esquecimento.
14. A possibilidade da interrogação filosófica fundamenta-se na correlação entre o perguntar e o modo de ser humano, pois a questão do ser radicaliza uma tendência essencial pertencente ao próprio Dasein e encontra nessa constituição existencial a condição de sua emergência.
15. A pergunta pelo ser, enquanto questão fundamental da filosofia, constitui também, quando adequadamente compreendida, uma pergunta pelo ser humano, que permanece latente na história do pensamento e precisa ser novamente trazida à luz a cada momento histórico.
16. A formulação de perguntas filosóficas mantém uma relação direta com a estrutura ontológica do ser humano, estabelecendo uma continuidade entre a ontologia fundamental e o pensamento posterior da história do ser, na medida em que as possibilidades de tematização filosófica se vinculam à constituição do Dasein existente.
17. A análise de Ser e tempo compreende o ser humano a partir de seu modo de manifestar-se, recusando pressupostos tradicionais como a definição de animal racional fundada na presença, pois a existência humana aparece originariamente em meio às coisas e aos outros, acompanhada de um horizonte indissociável de mundo e temporalidade extática.
18. O ser humano constitui uma abertura na qual podem aparecer as coisas, os outros e ele próprio, de maneira que sua existência se caracteriza pelo deixar-ser e pela remissão à alteridade do mundo e da facticidade, sem possuir o fundamento autossuficiente pressuposto pela subjetividade moderna, sendo Dasein a indicação dessa abertura e existência a designação de seu estar-fora-de-si.
19. A determinação segundo a qual, em seu ser, está em jogo o próprio ser do Dasein exige esclarecer como essa relação consigo mesmo pode ocorrer sem pressupor um núcleo interior estável, uma vez que a existência permanece aberta e recebe suas possibilidades da alteridade que a constitui.
20. O estar em jogo do próprio ser designa uma relação na qual o Dasein se encontra dirigido ao que pode ser, embora já esteja comprometido com o fato de existir, e essa orientação, que não tem como objeto uma essência interior determinada, realiza-se como compreensão de seu ser em diferentes graus de explicitação.
21. A compreensão constitui um projeto de abertura de possibilidades, pois compreender o próprio ser significa poder-ser a partir das possibilidades mundanas e temporais de uma situação, mantendo-se fora de si no horizonte em que o mundo se abre e deixando-ser aquilo que pode configurar a existência.
22. As possibilidades projetadas pela compreensão pertencem à facticidade concreta da existência, de modo que a abertura projetiva se encontra sempre remetida ao fato de já ter de ser, constituindo um projeto lançado cuja compreensão permanece inseparável da condição de estar-lançado.
23. A existência consiste no projeto lançado do Dasein no jogo espaço-temporal das possibilidades fácticas de mundo, temporalmente apreendidas, e essa estrutura precisa tornar-se reconhecível nos comportamentos que a exprimem, entre os quais se encontra o próprio filosofar.
24. A apropriação filosófica de uma época não consiste em uma combinação de elementos passados nem em uma previsão profética, pois exprime a estrutura situada da existência como projeto que abre possibilidades em âmbitos que lhe copertencem e como condição lançada que manifesta a dimensão fáctica do filosofar.
25. A compreensão projetiva possui no porvir seu êxtase temporal condutor, enquanto aquilo que projeta se encontra referido ao acontecido e ao ter-sido, de modo que o projeto lançado se realiza na unidade temporal de um porvir que remete ao ter-sido, cujos momentos podem ser metodicamente diferenciados apesar de sua copertença.
26. A filosofia, enquanto expressão do modo de ser da existência, dirige-se a si mesma ao projetar a abertura de possibilidades do que advém, realizando essa projeção no âmbito fáctico daquilo que já foi e constitui sua situação histórica.
27. A compreensão existencial do filosofar exige interrogar a origem de sua necessidade e o sentido de sua caracterização como saber, colocando em questão a identificação imediata da filosofia com um conhecimento de aspectos do mundo ou com uma modalidade específica de perguntar.
28. A apropriação heideggeriana da filosofia se orienta pela exigência fenomenológica de deixar que o assunto conduza a investigação segundo suas próprias possibilidades de manifestação e acesso, suspendendo pressupostos sobre a filosofia como saber particular ou fundamental e reconhecendo no filosofar uma expressão do projeto lançado capaz de abrir e esclarecer aquilo que permanecia pressuposto.
29. A filosofia se apropria de possibilidades de mundo ao interrogar tanto a cotidianidade, habitualmente negligenciada na compreensão do ser humano, quanto a determinação ontológica das coisas pela essência, tomada como limite aparentemente insuperável da investigação.
30. A abertura projetiva do porvir depende da condição lançada que delimita suas possibilidades, pois aquilo que pode advir somente se torna compreensível a partir de sua facticidade e de seu ter-sido, vinculando a apropriação filosófica das possibilidades futuras ao horizonte histórico em que elas se encontram inseridas.
31. A filosofia manifesta historicamente a existência como projeto lançado, razão pela qual suas perguntas, tematizações e conceitos pertencem à configuração de uma época e precisam ser compreendidos em sua dimensão histórica, em vez de serem tratados como formulações arbitrárias ou desvinculadas de suas condições de emergência.
32. A linguagem, o corpo e a técnica constituem modos historicamente situados de apreender o ser-no-mundo e de tornar transparente a existência, de maneira que sua articulação no pensamento heideggeriano corresponde a diferentes acessos à simplicidade do esquecido e não a uma justaposição de temas tradicionais da filosofia.
33. A elaboração dessas reflexões se enraíza nas condições de trabalho e nos vínculos institucionais, filosóficos e afetivos proporcionados pela Benemérita Universidade Autônoma de Puebla, pelo apoio de José Alfonso Esparza Ortiz, Ygnacio Martínez Laguna, dos colegas da Faculdade de Filosofia e Letras e de Viridiana Pérez, enquanto a experiência da pandemia tornou patente a finitude como determinação da existência e exigência de retorno filosófico à própria vida.
