3 Dizer
XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Heidegger: lenguaje y escritura. Primera edición ed. Ciudad de México: Editorial Fontamara, 2018.
3. Linguagem sem presença. Dizer filosófico e dizer poético em Heidegger
1. O pensamento do ser ultrapassa o enunciado porque este permanece vinculado à oposição própria da representação, enquanto o dizer correspondente ao ser exige um diálogo com a diferença, sem que essa exigência implique considerar o ser irracional ou simplesmente impossível de dizer.
3.1 Introdução
1. A linguagem constitui uma questão central para a filosofia e a literatura porque participa decisivamente da relação com o mundo, ultrapassando a função de meio expressivo, como evidencia a articulação aristotélica entre a investigação categorial do ser e a estrutura da enunciação.
2. A importância filosófica da linguagem manifesta-se também nas críticas de Hamann, Herder e Humboldt a Kant, que permitem pensar a própria razão como linguagem, e reaparece no giro linguístico contemporâneo, orientado para a relação entre linguagem e mundo.
3. A filosofia analítica e a filosofia hermenêutica convergem na valorização da linguagem, enquanto a fenomenologia husserliana oferece à segunda um impulso decisivo ao investigar as vivências linguísticas a partir de sua tendência intencional ao significado, anterior às funções de expressão, comunicação ou produção sonora.
4. A apropriação heideggeriana dessa investigação distingue a linguagem considerada como ente de sua dimensão ontológica, questionando a compreensão tradicional que interpreta palavras e enunciados segundo a presença, como coisas simplesmente dadas.
5. O nivelamento ontológico pela presença abrange tanto aquilo que se vê quanto o que se ouve e se diz, convertendo a própria linguagem em coisa e fazendo das expressões presenças que apresentam ou indicam outras coisas.
6. A distinção husserliana entre indicadores e expressões reconhece na linguagem uma tendência significativa pela qual algo é visado e apresentado, de maneira que o sentido das palavras e dos enunciados ultrapassa a simples remissão indicativa entre coisas.
7. A crítica heideggeriana identifica nessa determinação da linguagem uma pressuposição ontológica que atravessa a tradição desde Aristóteles, pois a primazia do dizer apofântico, suscetível de verdade ou falsidade, corresponde ao privilégio do ser compreendido como presença.
8. A época técnica intensifica a hegemonia da presença ao reduzir a linguagem à informação, pois a aparente separação digital entre fatos e palavras serve à eliminação das distâncias e transforma a linguagem em um veículo particularmente eficaz de apresentação imediata.
9. A técnica e a linguagem informativa compartilham o esquema de produção de presença, fazendo com que a redução contemporânea dos modos de relação com o mundo alcance também o dizer, convertido em transmissão funcional de informações.
10. A experiência cotidiana preserva possibilidades linguísticas que não se deixam reduzir inteiramente à informação homogênea e linear, revelando uma irregularidade no trato com o mundo que permite reconhecer outra dimensão da fala.
11. A ruptura de Ser e tempo com a identificação entre ser e presença abre possibilidades para investigar modos de ser anteriormente esquecidos, entre os quais a cotidianidade e suas formas próprias de linguagem.
12. O encontro cotidiano com as coisas ocorre inicialmente em seu uso e no contexto de remissões que as torna utensílios, de modo que a cadeira utilizada para escrever se compreende a partir dessa ocupação e não de uma essência previamente isolada como ideia ou substância.
13. A linguagem cotidiana acompanha o caráter pragmático do trato com os utensílios e comunica a experiência compartilhada em vez de simplesmente informar sobre propriedades presentes, como ocorre quando a afirmação de que uma cadeira é desconfortável expressa sua inadequação na atividade em curso.
14. A distinção entre coisas presentes e utensílios corresponde a duas possibilidades linguísticas, a informação sobre o que está presente e a comunicação vinculada ao uso, mostrando que palavras e enunciados podem participar de diferentes modos de encontro com os entes.
15. A presença e a utilidade caracterizam os entes com os quais o ser humano se relaciona, mas não esclarecem seu próprio modo de ser, de maneira que as formas linguísticas correspondentes ainda refletem aquilo em meio ao qual se vive sem alcançar a constituição originária da existência.
16. A consideração do Dasein existente como um terceiro modo de ser permite interrogar uma modalidade da linguagem que lhe corresponda, ultrapassando sua determinação a partir da presença ou da utilidade dos entes intramundanos.
17. A vinculação entre formas de linguagem e modos de ser exige esclarecer como todo dizer pertence à vida humana sem necessariamente expressar seu modo de ser próprio, e como a linguagem preserva sua especificidade quando participa da relação com coisas presentes ou utensílios.
18. Os diferentes níveis de originariedade mostram que a consideração das coisas como presentes deriva de sua separação do contexto de uso, permitindo compreender a informação como uma modalidade derivada da comunicação cotidiana, embora essa relação ainda não alcance a linguagem correspondente à existência do Dasein.
19. A irredutibilidade do ser humano à presença e à utilidade exige reconhecer uma dimensão igualmente irredutível da linguagem, desenvolvida principalmente na obra posterior a Ser e tempo mediante a investigação do dizer poético.
3.2 A recusa da linguagem
1. A obra tardia prossegue a destruição da ontologia ocidental ao radicalizar a crítica à hegemonia da presença, procurando abrir a possibilidade fenomenológica de pensar o ser sem presença, em vez de apenas acrescentar determinações alternativas àquelas tradicionalmente admitidas.
2. A superação da metafísica (Verwindung der Metaphysik) procura esclarecer a substituição originária do ser que se retrai pela representação de um fundamento dos entes, reconhecendo nesse deslocamento a constituição histórica do esquecimento e do abandono do ser.
3. A reformulação da pergunta pelo ser questiona sua determinação obrigatória como presença, levando Heidegger a distinguir essa pergunta da ontologia quando esta permanece vinculada à interpretação metafísica dos entes.
4. O pensamento tardio procura alcançar o ser sem presença mediante uma transformação da própria compreensão da coisa, explicitando a necessidade de abandonar a presença como determinação fundamental do ser.
5. A interpretação da coisa a partir do acontecimento apropriador (Ereignis) modifica a determinação metafísica da res como algo presente, permitindo pensar sua manifestação desde uma abertura que não se deixa reconduzir ao esquema tradicional da presença.
6. O ser mantém sua diferença em relação ao ente ao retrair-se e permitir que a coisa apareça, de maneira que pensá-lo enquanto tal exige reconhecer sua recusa de tornar-se uma presença entitativa e investigar a relação dessa recusa com a linguagem.
7. A proximidade originária entre ser e linguagem permanece encoberta quando ambos são compreendidos a partir da presença, pois a tradição considera o ser segundo a manifestação dos entes e reduz a linguagem ao meio pelo qual se transmite informação e se comunica sobre aquilo que é.
8. A recusa originária pertence tanto ao ser quanto à linguagem, tornando necessário pensá-los em seu ocultamento e reconhecer que sua essência não se deixa apresentar integralmente no discurso que procura objetivá-los.
9. A essência da linguagem recusa tornar-se tema de declarações sobre ela própria, e essa retenção não constitui uma deficiência ocasional da investigação, mas um traço pertencente à sua própria maneira de acontecer.
10. A recusa do ser e da linguagem permite compreender o mundo como acontecimento temporal, ultrapassando a relação calculável entre presenças estáveis, de modo que o dizer poético nomeia aquilo que se manifesta preservando sua relação com a ausência.
11. A nomeação poética anuncia o que advém sem reduzi-lo à permanência positiva de algo presente, acolhendo a chegada (Ankunft) como presença resguardada na ausência e convocada pela invocação que nomeia.
12. A nomeação abre uma dimensão temporal orientada para o advento e reúne o aparecer das coisas sem reduzi-las à matéria, à função ou à informação, fazendo-as acontecer no encontro entre mortais, divinos, céu e terra, denominado quadrindade (Geviert).
13. O encontro da quadrindade acontece originariamente em um dizer de múltiplos sentidos, tornando possível compreender a poesia como origem da linguagem e a fala cotidiana como um poema desgastado, no qual a força de invocação permanece enfraquecida.
14. A tarefa do pensamento consiste em interrogar a essência da linguagem que se manifesta no dizer poético, reconhecendo no silêncio e na multiplicidade de sentidos possibilidades de nomeação sem presença que se contrapõem à positividade calculável e às formas de imposição da técnica reunidas sob o nome Gestell.
3.3 Conclusão
1. A herança moderna orienta a experiência para a uniformidade e a eliminação das distâncias, procurando submeter a proximidade aos mecanismos técnicos de domínio, embora essa tendência também remeta a uma alteridade que ultrapassa as possibilidades da razão calculadora.
2. A linguagem conserva uma resistência à eliminação técnica da distância, mesmo quando a comunicação cotidiana é convertida em informação e substituída pela divulgação de atividades em redes sociais, pois sua dimensão originária permite um movimento contrário à redução funcional do dizer.
3. A copertença entre ser e linguagem manifesta-se em sua recusa e em seu ocultamento, encobertos pela tradição que os fundamentou na presença, enquanto a poesia preserva a abertura para o advento ao nomear o presente sustentado na ausência, oferecendo uma possibilidade privilegiada de pensar o acontecimento do estar humano no mundo.
