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estudos:xolocotzi:2018:2

2 Fala

XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Heidegger: lenguaje y escritura. Primera edición ed. Ciudad de México: Editorial Fontamara, 2018.

2. Fala, diferença ontológica e ser-no-mundo

1. A distinção entre dizer e enunciar exige pensar a relação entre nomeação e nome a partir de um dizer simples, cuja dificuldade se intensifica no pensamento porque a fala habitualmente se dirige aos entes e apenas menciona conjuntamente o ser que os antecede, enquanto a poesia pode alcançar essa relação de maneira mais imediata.

2.1 Introdução

1. A interpretação de Octavio Paz apresenta o percurso heideggeriano como uma tentativa de encontrar o ser na existência que, diante de um limite insuperável, teria procurado na poesia o desfecho de sua investigação.

2. Essa interpretação exemplifica a leitura segundo a qual Heidegger teria abandonado a pergunta pelo ser para concentrar-se na linguagem, descrevendo seu percurso como uma passagem da filosofia à poesia.

3. A relação intrínseca entre ser e linguagem impede uma separação temática abrupta entre ontologia fundamental e pensamento onto-histórico, pois a própria pergunta pelo sentido do ser exige tematizar a linguagem, embora a obra tardia modifique os acentos dessa investigação.

4. A interpretação retrospectiva de Heidegger situa os problemas posteriores já em sua habilitação de 1915, especialmente no diálogo sobre a linguagem publicado em A caminho da linguagem, no qual as lembranças das primeiras preleções de Friburgo vinculam explicitamente suas questões ao ser e à fala, ainda que essa reconstrução contenha imprecisões.

5. A doutrina das categorias e a doutrina da significação já indicavam, no trabalho de habilitação, as perspectivas do ser e da linguagem, articuladas pela gramática especulativa, embora o alcance filosófico dessa relação ainda permanecesse obscuro para o próprio Heidegger.

6. O prefácio de 1951 aos primeiros escritos reafirma que a questão do ser aparecia inicialmente como problema das categorias e a questão da linguagem como doutrina do significado, reconhecendo nesses trabalhos o início de um caminho ainda não esclarecido em sua amplitude.

7. A compreensão do percurso torna-se insuficiente tanto quando identifica uma sucessão de temas separados quanto quando projeta retrospectivamente uma unidade já plenamente constituída, pois ambas as leituras obscurecem a abertura progressiva dos problemas e a transformação da relação entre ser e linguagem.

2.2 Ser: diferença em relação ao ente

1. A articulação entre ser e linguagem deve ser esclarecida pela relação entre o modo de investigar e aquilo que se investiga, pois o acesso fenomenológico procura deixar as coisas serem segundo sua manifestação própria, fazendo com que a questão heideggeriana se dirija à diferença operante nesse deixar-ser, em vez de buscar um conteúdo essencial previamente determinado.

2. A pergunta pelo ser não procura uma quididade específica, mas aquilo que, diferindo do ente que aparece, permite que ele seja, de maneira que ser nomeia o ontológico do ôntico sem se converter em outro ente ou em fundamento entitativo.

3. O acesso ao ser exige transformar o próprio modo de tematização, pois tratá-lo pelos mesmos procedimentos dirigidos aos entes apenas substituiria um conteúdo por outro, repetindo a tentativa metafísica de fundamentação e impedindo pensar a diferença entre ser e entidade.

4. A abertura do ser (Erschlossenheit des Seins) constitui o modo fenomenológico pelo qual aquilo que deixa o ente ser se torna acessível, deslocando a investigação da pergunta por um conteúdo do ser para a pergunta pelo modo de sua manifestação.

5. A existência reúne os modos de abertura de um ente que já se encontra fora de si e não possui a estabilidade de um fundamento substancial, articulando a compreensão projetante de possibilidades com a condição afetiva de já estar lançado no que foi, de maneira que o projeto lançado expressa a temporalidade originária do Dasein e rompe com sua determinação pela simples presença.

6. O Dasein existe como ente a quem seu próprio ser está em questão, projetando possibilidades a partir de sua condição afetivamente lançada e mantendo essa abertura no presente do trato cotidiano, de modo que sua constituição não corresponde a uma coisa estável, mas ao acontecer de uma relação de ser.

7. A compreensão afetiva permite encontrar os entes em sua significatividade e no contexto de remissões que os determina como utensílios, enquanto a interpretação desenvolve essa compreensão ao explicitar aquilo que foi compreendido em seu para quê.

2.3 Compreensão, interpretação e linguagem

1. A interpretação torna explícito o compreendido mediante a estrutura de algo como algo, reconhecendo a xícara, o chão ou a colher em suas possibilidades de uso, sem acrescentar um conhecimento exterior, pois consiste na elaboração das possibilidades já projetadas pela compreensão.

2. A interpretação articula uma posição prévia (Vorhabe), referida à totalidade de remissões já compreendida, uma visão prévia (Vorsicht), que orienta o aspecto a ser explicitado, e uma concepção prévia (Vorgriff), que fornece a conceptualidade dessa explicitação, tornando possível compreender algo enquanto tal.

3. A necessidade de já compreender aquilo que será interpretado revela uma circularidade originária que a concepção linear do conhecimento científico tende a rejeitar, embora sua própria objetivação derive da circunvisão cotidiana e transforme os utensílios em coisas simplesmente presentes.

4. A circularidade hermenêutica pertence necessariamente ao encontro com os utensílios e à compreensão da totalidade de remissões em que se inserem, de maneira que a exigência fenomenológica consiste em entrar adequadamente nesse círculo, em vez de procurar eliminá-lo.

5. O enunciado constitui um modo derivado de interpretação que mostra, determina e comunica, mas modifica a relação originária com o utensílio ao convertê-lo em tema de uma consideração contemplativa, transformando o como hermenêutico em como apofântico e nivelando a riqueza do descobrimento cotidiano.

6. A função comunicativa do enunciado remete à linguagem, cuja análise evidencia seu enraizamento na constituição existencial da abertura do Dasein e sua cooriginariedade com a compreensão e a disposição afetiva.

7. A existência de uma visão pré-predicativa compreensiva e interpretante não permite concluir imediatamente pela existência de um domínio pré-linguístico, pois a derivação do enunciado em relação à interpretação exige distinguir a anterioridade ao juízo da suposta ausência de linguagem.

8. O enunciado pressupõe o ser-no-mundo e uma abertura prévia do que será determinado, enquanto a interpretação originária pode realizar-se na substituição silenciosa de uma ferramenta inadequada, mostrando que a ausência de palavras pronunciadas não significa ausência de interpretação.

9. A redução tradicional da linguagem ao enunciado corresponde à ontologia da presença, que desconsidera o descobrimento cotidiano do ente em seu uso e projeta sobre a linguagem o mesmo esquema pelo qual as coisas são apreendidas como algo simplesmente dado.

10. O âmbito pré-predicativo designa aquilo que antecede o enunciado teórico, sem exigir uma realidade anterior à linguagem, pois também as expressões vinculadas à circunvisão têm sua origem na interpretação cotidiana e ampliam as possibilidades linguísticas para além da proposição contemplativa.

11. A distinção entre linguagem e fala ou discurso (Rede) impede atribuir à existência um domínio alheio à linguagem, reconhecendo tanto a abertura linguística do mundo quanto a articulação dos demais modos de abertura pela fala, na qual se expressa a compreensibilidade afetivamente disposta do ser-no-mundo.

12. A fala constitui a dimensão ontológica e existencial da linguagem, cooriginária com compreensão e disposição afetiva, exigindo um tratamento que preserve sua diferença em relação ao ente e evite reconduzi-la às categorias de uma ontologia fundada na presença.

13. A fala articula o sentido já operante na compreensão projetante, na disposição afetiva e na interpretação, reunindo possibilidades, tonalidades e presentes a partir da unidade temporal do projeto lançado, de maneira que a explicitação interpretativa desenvolve uma articulação originária da compreensão afetiva.

2.4 Ser-no-mundo e linguagem

1. O modo de aparecer orienta a determinação daquilo que aparece, permitindo compreender a essência do Dasein a partir da existência e nomear como ser-no-mundo sua constituição unitária, na qual o que esse ente é permanece inseparável de como ele realiza seu ser.

2. O fenômeno unitário do ser-no-mundo desdobra-se em estar-em, mundo e quem está no mundo, exigindo distinguir seus momentos constitutivos sem fragmentar a unidade originária da existência.

3. O estar-em designa a abertura extática pela qual o Dasein se relaciona com seu próprio ser como possibilidade a realizar, encontrando-se já lançado nessa relação sem possuir um núcleo substancial que a sustente, de modo que a compreensão afetiva mantém aberto seu estar em meio aos entes.

4. O estar fora de si extático realiza-se em meio a entes intramundanos encontrados como utensílios ou coisas presentes, cuja totalidade de remissões constitui o mundo como horizonte, permitindo caracterizar uma dimensão horizontal da existência.

5. O estar fora de si inclui originariamente o ser-com outros Dasein, de maneira que o ser-no-mundo não se limita ao encontro com utensílios e coisas, mas envolve desde o início a coexistência.

6. A linguagem deve ser compreendida a partir dessas dimensões do ser-no-mundo, às quais correspondem uma fala que silencia na relação extática consigo, uma fala que diz no encontro horizontal com os entes e uma escuta que ouve na coexistência com os outros.

7. O silêncio articula a relação do Dasein consigo mesmo como existência descentrada e constituída pela diferença entre ser e ente, sem expressar uma interioridade substancial ou uma experiência romântica, pois torna manifesta a maneira pela qual esse ente está fora de si ao relacionar-se consigo, com as coisas e com os outros.

8. A fala silenciosa conserva a estrutura de algo sobre o qual se fala, de um conteúdo compartilhado e de uma expressão, podendo ser procurada ou irromper quando faltam palavras e a experiência já não se deixa articular adequadamente pelo modo habitual de dizer dirigido aos entes.

9. A gratidão pode compartilhar e expressar a importância da companhia recebida sem encontrar palavras suficientes, mostrando que o silêncio constitui uma fala efetiva e íntima na qual a existência articula seu estar fora de si, podendo dizer mais do que as fórmulas verbais disponíveis.

10. A fala que diz articula o encontro com os entes intramundanos e tende a operar mediante nomeações substantivas, mas pode também nivelar a existência ao modo de ser das coisas quando se transforma em falar incessante que evita o silêncio, constituindo uma modalidade cotidiana de impropriedade que não possui sentido moralmente depreciativo e cuja relação com o não dito pode ser investigada pela psicanálise.

11. A coexistência encontra na escuta uma dimensão constitutiva da fala, pois falar implica poder ouvir e estabelece um caráter necessariamente dialógico da existência compartilhada.

2.5 Conclusão

1. A copertença entre coisa e linguagem depende de uma compreensibilidade articulada que se retrai ao permitir a significatividade das coisas particulares, pois a interpretação dos entes presentes pressupõe a abertura do mundo pela compreensão afetiva de possibilidades, cuja articulação originária de sentido acontece como fala.

2. A possibilidade de expressar aquilo que aparece não deve ser pensada como ligação entre duas coisas previamente separadas, pois a diferença ontológica distingue o ente daquilo que o deixa ser, ultrapassando o esquema em que palavra e coisa seriam identidades isoladas a exigir uma mediação exterior.

3. O âmbito comum entre aparecimento e expressão encontra-se na diferença em relação ao ente, de maneira que a fala, assim como a mundanidade do mundo, possui caráter de ser e se subtrai à transformação em coisa, permitindo compreender formulações como o mundo mundifica, o nada nadifica e a linguagem fala como tentativas de abrir a perspectiva da diferença.

4. A ontologia fundamental rompe a determinação do humano como sujeito fundado ao pensar o ser a partir do tempo, abrindo também a linguagem desde aquilo que não pode ser posto como ente, de modo que o indizível não corresponde a uma coisa oculta ainda não nomeada, mas à diferença que excede a presença e a nomeação entitativa.

5. O pensar e o poetizar tornam acessível a essência da linguagem ao interromperem o dizer habitual, seja pela pergunta, seja pela multiplicidade de sentidos e pelo dizer do ainda não dito, enquanto a comunicação exige silêncio e escuta para ultrapassar a repetição incessante de nomes e enunciados que torna estranhas essas possibilidades originárias da fala.

6. A recuperação da dimensão ontológica da linguagem permite reconsiderar a alienação cotidiana e a suposta ausência de sentido, pois o problema reside na redução unilateral da fala ao dizer enunciativo, tornando a investigação de suas diferentes modalidades uma possibilidade filosófica de transformar a compreensão dos modos de viver.

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